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Reviver o passado em Roma
Opinião Mundo 4 min. 27.09.2022
Eleições em Itália

Reviver o passado em Roma

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Foto: Vincenzo Pinto/AFP
Opinião Mundo 4 min. 27.09.2022
Eleições em Itália

Reviver o passado em Roma

Hugo GUEDES
Hugo GUEDES
Aqueles que conhecem a História sabem como termina este filme que começa com pompa e arrogância: em desastre.

"Sim, minha senhora, eu estou acabado. Bem tento trabalhar, mas sei que tudo não passa de uma farsa... espero pelo fim da tragédia, estranhamente desligado de tudo; sinto-me o mais insignificante dos espectadores". Em 1945, perto do final da guerra, assim se confessava Mussolini, chefe de Estado da "República Social Italiana".

Salazar não foi o primeiro líder fascista que representou um teatro patético de poder no último ano e meio antes da sua morte. Essa honra dúbia pertence a Mussolini, deposto e encarcerado pelo novo governo italiano até que Hitler enviou tropas especiais das SS para o resgatar da penitenciária – e em seguida, pô-lo em prisão domiciliária numa casa junto ao lago de Garda. Aí, Mussolini fingia mandar na metade de território italiano ainda não libertado pelos Aliados (a chamada "República de Saló"), quando na verdade não passava de um fantoche manipulado pelos nazis a partir de Berlim. A sua morte não tardou, e foi violenta.

Passaram 77 anos e a Itália voltará agora a ter o fascismo no poder. Aqui chegados, é inevitável recordar uma grande frase: "aqueles que não conhecem a sua História estão condenados a repeti-la". Curiosamente o autor, o filósofo Santayana, passou a II grande guerra abrigado num convento em Roma, onde proferiu outro dos seus aforismos mais arrepiantes: "Só os mortos verão o fim da guerra".

E a guerra continua a lavrar, tão perto e tão distante ao mesmo tempo. O ditador russo recua no Donbass, mas obteve uma vitória estrondosa em Roma. Putin foi rápido a congratular o seu mais recente cavalo de Tróia, um futuro governo de coligação que inclui três líderes financiados por Moscovo e que, por coincidência, são contra as sanções europeias e advogam mais negócios com a Rússia: Meloni, Salvini e Berlusconi. Este último, o grande reabilitador da extrema-direita nos anos 1990, nem esperou pelas eleições para enviar um enorme abraço ao seu amigo Vladimir; logo no sábado, afirmou a quem o queria escutar que "Putin nem queria... mas foi empurrado pelo povo russo a dirigir esta operação especial na Ucrânia".

Ah, mas isto não é bem fascismo, dirão os mais fascinados. Ok, ignoremos então em Meloni o ídolo Mussolini, os familiares de Mussolini, as ideias copiadas a Mussolini, os cachecóis com o lema "Deus Pátria e Família". Usemos o guia prático com 14 características comuns da ideologia criado pelo escritor Umberto Eco, e vejamos se elas se aplicam.

O culto da tradição e a rejeição da modernidade. A acção em vez da ponderação. O esmagar do espírito crítico, porque pensar pela própria cabeça é trair. O medo da diferença. O aproveitamento dos ressentimentos sociais. A obsessão pelas teorias da conspiração. Descrever o inimigo, simultaneamente, como muito forte e muito fraco. Desprezo pelos que estão na mó de baixo. Desprezo pelo pacifismo, que também é traição. A obsessão pelo heroísmo e o culto da morte. O machismo e culto das armas. Populismo elitista, em que a resposta emocional de uns poucos é difundida como a Voz do Povo. E finalmente o uso de uma comunicação simplificada, de vocabulário estridente e empobrecido, para limitar o uso da razão.

São partidos assim que, disfarçados com uma fina pele de cordeiro, acabam de se apoderar dos comandos da terceira maior economia europeia, um dos países fundadores da UE, berço do Renascimento.

A extrema-direita representa exactamente o contrário daquilo que a Itália necessita neste momento: cortes de impostos para beneficiar os mais ricos, destruição dos mecanismos públicos de protecção contra desemprego ou doença, instabilidade provocada por políticos que se detestam, desvio da atenção aos problemas económicos com controvérsias estéreis, e divisão e paralisia a nível interno e europeu.

Aqueles que sim conhecem a História sabem como termina este filme que começa com pompa e arrogância: em desastre. Veremos então quem será o bode expiatório, porque se há uma característica central do fascismo que Umberto Eco esqueceu, é a divisão permanente da sociedade em Nós e Eles – em que Eles são os causadores de todos os males que nos afligem. Desta vez, os maiores candidatos a "eles" são os migrantes e a Europa. A minha única dúvida é quantas horas faltam para começar a culpabilização.

 (Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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