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Reino Unido. Famílias passam fome devido a cortes na assistência social

Reino Unido. Famílias passam fome devido a cortes na assistência social

Mundo 4 min. 20.05.2019

Reino Unido. Famílias passam fome devido a cortes na assistência social

Muitas das famílias a passar fome são mães solteiras, assinalou a Human Rights Watch.

A organização Human Rights Watch acusou esta segunda-feira os últimos governos britânicos de deixarem milhares de famílias empobrecerem e passarem fome devido aos cortes que foram fazendo na assistência social ao longo dos últimos dez anos.

Os cortes à assistência social feitos no Reino Unido devido à austeridade, em conjunto com a introdução do sistema de Crédito Universal, deixaram muitas famílias e crianças em Inglaterra a passar fome e dependentes de caridade, refere a organização no relatório “Não ficou nada na mesa: Austeridade, Cortes na Assistência Social e o Direito à Alimentação no Reino Unido”, hoje divulgado.

Para a Human Rights Watch (HRW), esta situação representa uma “clara violação” do Reino Unido ao dever do Governo de assegurar o direito à alimentação.

“Há pais sem possibilidade de alimentar os seus filhos naquela que é a quinta maior economia do mundo”, sublinhou o investigador para a Europa Ocidental da Human Right Watch, Kartik Raj, criticando a forma como o Governo do Reino Unido geriu os gastos com a assistência social.

“O Governo do Reino Unido deveria garantir a toda a gente esse direito em vez de esperar que as instituições de caridade preencham essa falta”, acrescentou.

Mães solteiras são as mais prejudicadas 

Muitas das famílias a passar fome são de mães sozinhas, assinalou a HRW. “Acontece muitas vezes não ter nada no final da semana”, disse uma mãe de 23 anos, que vive em Hull com a sua filha de quatro anos, citada pela Human Rights Watch.

Segundo a organização, esta mulher funciona como exemplo, já que não consegue encontrar emprego que se adapte ao horário da escola da filha e teve de recorrer a um centro comunitário que redistribui comida excedentária dos supermercados. “Quando se é uma mãe solteira, há poucos trabalhos que permitam deixar os filhos na escola de manhã, depois ir trabalhar e sair às duas e meia para ir buscá-los”.

O caso piora quando algumas mães confessam deixar de comer para que os filhos se possam alimentar sem ter de recorrer a outros apoios estatais.

Numa reunião com sete jovens mães, quatro admitiram à HRW ter medo de pedir ajuda alimentar por poderem ser consideradas incapazes de sustentar os seus filhos e perderem as suas custódias.

Passar fome no país com a "quinta maior economia do mundo"

A Human Rights Watch detetou três fatores que levaram ao ressurgimento de fome em Inglaterra. Primeiro, os sucessivos governos desde 2010 cortaram investimento na assistência social em nome da austeridade, atingindo sobretudo famílias com crianças.

A análise da HRW dos dados sobre investimento público mostra que, entre 2010 e 2018, o apoio da assistência social a crianças e famílias caiu 44%, valor que supera muito os cortes registados em outras áreas do Governo.

Além disso, o Governo suspendeu vários benefícios às famílias, introduzindo um limite “arbitrário e discriminatório” de duas crianças e, nos últimos quatro anos, congelou os aumentos anuais dos pagamentos de assistência social aumentando o preço dos alimentos e a inflação.

Em segundo lugar, o Governo está a realizar uma grande mudança ao sistema de assistência social, conhecido como Crédito Universal, o que exacerbou a crise ao atrasar o acesso aos pagamentos às vezes durante semanas.

O Crédito Universal é um sistema introduzido gradualmente desde 2013 no Reino Unido, que substitui o pagamento das prestações sociais por uma só prestação, que inclui subsídios de desemprego ou ajudas para habitação a pessoas com menores rendimentos.

O programa também tem um sistema punitivo que impõe sanções – retirando apoios aos beneficiários da assistência social – que não atinjam objetivos muito específicos que provem estar à procura de trabalho, mas estes objetivos mostram-se muitas vezes impossíveis de cumprir por pais solteiros.

Em terceiro, o Governo do Reino Unido deixou de atuar, segundo a HRW, sobre as “crescentes provas de forte deterioração no padrão de vida dos moradores mais pobres do país”.

Estas provas incluem o cada vez mais frequente uso de bancos de alimentos, os inúmeros relatórios de escolas a referir a existência de um número crescente de crianças com fome e incapazes de se concentrar.

Embora tenha tomado, recentemente, algumas medidas para atenuar o impacto de políticas mais difíceis - removendo o limite de dois filhos para pagamentos de assistência social, caso as crianças tenhas nascido depois de 2017, e financiando para pequenos almoços e refeições escolares fora do ano letivo em algumas áreas mais carentes – o Governo ainda tem de tomar “medidas adequadas à crise de fome”, defende a organização.

A investigação da HRW focou-se em três zonas de Inglaterra em que se registam altos níveis de privação: Hull, Cambridgeshire e Oxford.

A organização realizou 126 entrevistas, incluindo a famílias afetadas por falta de comida, voluntários e pessoas que trabalham nos bancos de alimentos, em centros comunitários e em escolas. A organização analisou também dados oficiais e estatísticas e informação fornecida pelo Governo e pelas autoridades locais.

Lusa