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Recrutas de Putin vão a caminho do massacre, diz coronel norte-americano
Mundo 5 min. 28.09.2022
Guerra na Ucrânia

Recrutas de Putin vão a caminho do massacre, diz coronel norte-americano

Mark Hertling,
Guerra na Ucrânia

Recrutas de Putin vão a caminho do massacre, diz coronel norte-americano

Mark Hertling,
Foto: DR
Mundo 5 min. 28.09.2022
Guerra na Ucrânia

Recrutas de Putin vão a caminho do massacre, diz coronel norte-americano

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Os 300 mil soldados quase sem treino que Putin vai enviar para a Ucrânia vão encontrar um exército preparado pela NATO. Coronel diz que Presidente russo vai cometer genocídio com o próprio povo.

Os 300 mil soldados quase sem treino que Putin vai enviar para a Ucrânia vão encontrar um exército preparado pela NATO. O massacre deles é inevitável, considera o tenente coronel Mark Hertling, que comandou o exército dos EUA na Europa e que conheceu bem o débil treino militar russo.

Num artigo de opinião no Washington Post, o tenente coronel na reserva Mark Hertling acusa Vladimir Putin de enviar para a matança os homens que pretende mobilizar para a Ucrânia. 


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 “A decisão de Putin de ativar 300 mil reservistas – alguns dos quais já serviram no exército, outros não – para entrar nas fileiras da Ucrânia levaram milhares de jovens russos a fugir do país. A convocação é revoltante, mas não apenas pelas razões que se imagina. Enviar novos recrutas, reservistas mal preparados e civis sem treino para a Ucrânia é uma receita para o massacre. Não vão estar preparados para o que vão encontrar”. 

É assim que começa o texto, onde o militar de alta patente descreve o que se espera que aconteça na Ucrânia aos russos, com base naquilo que lhe foi dado observar ‘in loco’ na Rússia quando, na altura em que dirigia as tropas americanas estacionadas na UE, foi convidado a conhecer de perto o exército russo. Nessa altura, a Rússia e o Ocidente não eram inimigos declarados. As messes, as camaratas, os campos de tiro e o treino foram então cordialmente mostrados e explicados ao norte-americano.

Hertling conta que além do seu posto na Europa (que se seguiu a um destacamento no Iraque), esteve também ao comando da organização que superintende o treino básico (recruta) dos militares norte-americanos, bem como o treino especializado subsequente dos soldados. O que descreve da preparação das tropas russas, em comparação com a formação dos militares norte-americano, é assombroso. Numa das ocasiões em que um orgulhoso comandante explica a formação de tiro dos soldados, Hertling conta que sentiu dificuldade em conter o espanto e em “não deixar cair o queixo”.

 Soldados sem treino de tiro, de combate, nem disciplina

Nas várias vezes em que teve ocasião de visitar a Rússia, Hertling pôde “observar como outro exército treina os seus recrutas e os incorpora nas forças militares”. Depois de explicar, na página do Washington Post, o sofisticado e exaustivo treino em várias competências das tropas do seu país, o tenente- coronel conta o que viu na Rússia: “Poucos dos recrutas fazem carreira no exército. É fácil perceber porquê. Os sargentos eram pouco profissionais e molestavam os recrutas. 

O treino de armas era orientado para a familiarização com o material, mas não para disparar munições. Os soldados tinham poucas rondas de prática em carreiras de tiro. O treino de primeiros socorros era rudimentar, a leitura de mapas e orientação terrestre era não existente, a inciativa dos soldados era escassa, a disciplina relaxada”.


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Além disso, as condições de vida dos soldados lembram os tempos da velha pátria de Dostoievsky e não de um exército moderno e profissional. “Os quartéis estavam sobrelotados, a ventilação era má. Os chuveiros e casas de banho eram latrinas miseráveis. A comida para os oficiais era pouca, sem escolha e com baixo valor nutricional. Não observei qualquer tipo de formação sobre valores, ética militar, comportamento profissional, ou o ensino de combate no terreno, todos eles elementos chave do treino básico das tropas americanas”. 

A explicação dada pelo anfitrião de Hertling, um coronel russo, foi de que essa formação era dada quando os recrutas fossem incorporados nas suas unidades. Uma observação em relação à qual o norte-americano diz ter concluído para com os seus botões: “Pois, está-se mesmo a ver!”.

Uma tropa fandanga contra um exército treinado pela NATO

Hertling recorda ainda que, a custo, evitou deixar cair o queixo quando um comandante russo se gabou das tropas ao seu cuidado que após usarem um simulador de tiro tiveram direito a uma ronda de disparo real de um tanque. Uma ronda por ano. Os seus contrapartes americanos, recordou Hertling, têm, ao longo do ano, direito a dezenas de rondas de tiro em vários tipos de tanques e para alvos diversificados. Uma diferença abissal.

Por isso, e de acordo com a sua experiência, tendo observado os primeiros sete meses da campanha na Ucrânia, Hertling diz não se sentir surpreendido pelas derrotas das tropas invasoras: “O desempenho dos russos foi como o seu treino fazia prever: pobre”. E, em resultado disso, está o número elevado de baixas russas – embora o número real nunca tenha sido revelado pelo Kremlin. Por isso, diz o autor do artigo, “não é de estranhar que muitos jovens russos estejam a fugir da Rússia”.


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Porque os russos que acabarem na linha da frente na Ucrânia - os tais 300 mil que Putin espera mobilizar, mesmo perante uma revolta interna - vão enfrentar um exército ucraniano que tem sido treinado pela NATO. “Os recrutas russos vão, provavelmente, integrar unidades traumatizadas após sete meses de combate, e com um moral baixo. Não ajuda que essas unidades tenham recentemente sido reforçadas com ex-condenados, milícias desorganizadas de falsas ‘repúblicas populares’ e armas retiradas a exércitos privados”.

O resultado, diz o tenente-coronel norte-americano, é previsível: “Putin pode continuar a enviar cidadãos relutantes para uma invasão mal planeada e ilegal para a qual não foram preparados nem treinados. Mas isto não é guerra. É apenas mais assassínios – desta vez dos seus próprios cidadãos”. 

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