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Quero ver Lula lá
Opinião Mundo 5 min. 29.09.2022
Eleições no Brasil

Quero ver Lula lá

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Quero ver Lula lá

Foto: Ernesto Benavides/AFP
Opinião Mundo 5 min. 29.09.2022
Eleições no Brasil

Quero ver Lula lá

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
É difícil que Lula ganhe no primeiro turno nas eleições de domingo, mas o Brasil e a América Latina precisam dele, literalmente, como de pão para a boca.

O facto de Lula da Silva, ex-presidente do Brasil e o candidato na dianteira das intenções de voto para as eleições de domingo, usar colete à prova de bala nos eventos públicos, diz muito da volatilidade e potencial violência das Presidenciais brasileiras.

Aos 76 anos, Lula é um político experiente, e sabe bem como o culto do ódio, que conduziu ao impeachment de Dilma Roussef, o levou à prisão, e permitiu a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, mata.

Só os condescendentes do status quo gritarão 'foi golpe', para depois encolherem os ombros, como Marcelo Rebelo de Sousa ao lado de Bolsonaro na cerimónia da independência, atrás da bandeira que, em vez de 'ordem-e-progresso', trazia 'Brasil sem aborto; Brasil sem drogas'.

Os mais de 600 mil mortos por covid-19 (o segundo maior número absoluto do mundo) assim o demonstram. O maior número de assassinatos de activistas e indígenas, desmatamento e invasões possessórias de terras, desde 2018, assim o demonstram. Os negros assassinados pela polícia só no ano de 2021 (99% das vítimas de violência policial), segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, assim o demonstram.

O Brasil, como vários países da América Latina marcados por políticas de exclusão, desigualdade e racismo, vive há muito tempo (desde sempre?) em guerra com parte da população (sobretudo pobre, negra, indígena), em permanente estado de excepção.

Mas isto agudizou-se no mandato de Jair Bolsonaro, que preconizou uma política de morte e violência – uma necropolítica – contra a população trabalhadora, exposta e fragilizada diante do saque das elites: e quem beneficiou do governo bolsonarista foi o agronegócio e os minérios, a última corrida às matérias-primas na América Latina, um karma de dependência que se repete.

É um problema Lula ter 76 anos? Sim, se ganhar, quando este mandato terminar, terá 80 anos. É verdade que está saudável, lúcido, forte e apaixonado. Mas em que estado deixará o PT – o mesmo PT que não teve pernas quando o seu líder caiu preso?

É um problema um certo "messianismo", típico das democracias latino-americanas, um certo "caudillismo" (como um dia disse Fernando Henrique Cardoso, uma espécie de social-democrata em cima do muro, nem esquerda nem direita, sou-muito-moderado, a la Ciro Gomes)? Até poderia ser um problema, não fossem as circunstâncias materiais: é fácil ser-se social-democrata desde o conforto do nosso apartamento em Paris, e mandar bitaites sobre como governar em Brasília. Difícil é sujar as mãos e tomar decisões populares para o povo, impopulares para as elites, enfrentar o baque com ou sem colete anti-bala.

É um problema Lula ter-se aliado a Gerardo Alckmin, um dos mais neo-liberais governadores que São Paulo viu nas últimas décadas? É, e o impeachment de Dilma servirá de aviso, se Lula não vier a ser traído como Dilma o foi.

Mas tudo isto são preocupações para quem se senta a fazer análises de caiprinha na mão no sunset de Lisboa ou Paris. Porque na favela, no nordeste e nos herdeiros do Bolsa Família, nos negros que entraram na Universidade, nos que viram médico (cubano?) pela primeira vez; nos milhões que saíram da pobreza, nos que tiveram água e electricidade para poder viver e trabalhar, a resposta é Lula – "quero ver Lula lá", como canta, de novo, a campanha. 

Porque só Lula poderá proteger e emancipar, como o fez durante os seus dois mandatos. Independentemente de todos os problemas, insuficiências ou críticas a Lula e ao próprio PT, não houve, em 200 anos de independência, nenhum outro governo de e para povo no Brasil, descolonizador e emancipador, como os seus dois mandatos, 2003-2011. E é por isso que há quem o odeie tanto, a ele e ao PT. E nunca lhe perdoe.

A campanha parece fácil: Lula diz que vai fazer o que estava a fazer quando foi impedido de continuar a cumprir o seu legado, via Dilma. Foi, de facto, impedido (foi golpe, a prisão), e Dilma, de facto, impedida (foi golpe, o impeachment). Mas o que esperar daqui, se a ideia de Paris ou Lisboa é continuarmos a olhar para o Brasil (e por extensão, para a América Latina) como aquele filho imperfeito, herdeiro da democracia burguesa europeia?

Só os condescendentes do status quo gritarão "foi golpe", para depois encolherem os ombros, como Marcelo Rebelo de Sousa ao lado de Bolsonaro na cerimónia da independência, atrás da bandeira que, em vez de "ordem-e-progresso", trazia "Brasil sem aborto; Brasil sem drogas". 

Cúmplices e coniventes. Ou como a imprensa que iguala, na discussão, "Bolsonaro ou Lula?", "debates e contrastes que, em certa imprensa portuguesa, tentam uma falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro. Não existe equivalência entre a democracia e o fascismo, o socialismo e o neoliberalismo, a saúde e o genocídio, ou a vida e a morte", citando Pedro Prola, do núcleo do PT em Lisboa, no Twitter.

A vitória de Lula é fundamental para o Brasil e a América Latina, que precisam dele, de esperança e de apaziguamento, literalmente, como de pão para a boca. Esperemos que o próximo domingo seja só o começo.

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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