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Quase todos os Bourbons espanhóis fugiram para o estrangeiro
Mundo 5 min. 06.08.2020

Quase todos os Bourbons espanhóis fugiram para o estrangeiro

Juan Carlos com o seu pai.

Quase todos os Bourbons espanhóis fugiram para o estrangeiro

Juan Carlos com o seu pai.
Foto: DR
Mundo 5 min. 06.08.2020

Quase todos os Bourbons espanhóis fugiram para o estrangeiro

Redação
Redação
Juan Carlos é filho e neto de monarcas que viveram fora de Espanha. Quando o seu avô fugiu, o escritor Ramón Maria del Valle escreveu: "Os espanhóis correram com o último Bourbon, não por ser rei, mas por ser ladrão."

O chamado rei emérito, Juan Carlos I, nasceu na Roma fascista de Benito Mussolini em 1938. A saída apressada que fez de Espanha, depois de terem sido revelados pormenores das suas contas secretas na Suíça e de dinheiro que teria cobrado para influenciar negócios, fizeram-lhe repetir o caminho empreendido por gerações anteriores dos Bourbons. São mais de 200 anos de exílios que começam com Carlos IV, durante as invasões napoleónicas. 

A casa de Bourbon é uma casa real de origem francesa, atual casa reinante em Espanha e no Grão-Ducado do Luxemburgo. O apelido Bourbon, em Espanha escrito Borbón, tem como origem o castelo de Bourbon-l’Archambault, situado no departamento francês de Auvérnia, sendo este o local de origem da família reinante nos dois países. 

Com excepção de Jose I (1808-1813), irmão de Bonaparte, e de Amadeo I (1870-1873), todos os reis espanhóis do século XIX, XX e XXI, pertencem à linhagem dos Bourbons: Fernando VII (1808-1833), Isabel II (1833-1868), Alfonso XII (1875-1885), Alfonso XIII (1886-1931), Juan Carlos I (1975-2014) y Felipe VI (2014-presente).

As fugas, República e Mussolini

O avô de Juan Carlos, Alfonso XII, fugiu de Espanha, em abril de 1931, depois de ter sido proclamada a Segunda República. O seu patrocínio, a exemplo do que fez o seu congénere Víctor Manuel com Mussolini, da ditadura de Primo de Rivera, que durou de 1923 a 1930, selou o seu destino. O rei fugiu de carro, na noite de 14 para 15 de abril de 1931, para Cartagena, dirigindo-se depois para Marselha e exilando-se em Paris. 

É daquela época a célebre frase atribuída ao escritor Ramón Maria del Valle: "Os espanhóis correram com o último Bourbon, não por ser rei, mas por ser ladrão."

O rei Alfonso XIII com dois dos seus netos: Juan Carlos à esquerda e Gonzalo.
O rei Alfonso XIII com dois dos seus netos: Juan Carlos à esquerda e Gonzalo.
Foto: EFE

Mas os exílios da família real espanhola pareciam estar no sangue e eram anteriores até ao rei fugido da República. O seu pai, Alfonso XII, que tinha subido ao trono nos finais de 1874, tinha regressado do exílio que a sua mãe rainha Isabel II tinha feito, depois da revolução de 1868, a que se sucedeu o Governo provisório entre 1868 e 1871; sucedendo-se depois o breve "reinado" de Amadeo de Saboya, entre 1871 e 1873; e a curta I República que durou cerca de um ano, até ser derrubada pelo golpe de Estado do general Pavía. 

Mas as fugas da família real espanhola não se resumiram a estes episódios. 

Carlos IV, reinou entre 1788 e 1808. Ascendeu ao trono com 40 anos. Reinou sempre na sombra do seu "ministro universal", Manuel Godoy, e tornou-se no primeiro monarca espanhol a sair de Espanha, devido à abdicação imposta pela França napoleónica. Foi para França em junho de 1808, tendo morrido em Roma, onde estabeleceu residência, em 1819. 

O rei tinha abdicado em favor do seu filho Fernando VII, mas este perdeu também o trono ao abdicar em Bayonne (no País Basco francês) em favor de Napoleão Bonaparte, que deu o trono ao seu irmão José Bonaparte. 

Fernando VII foi exilado em França, no castelo de Valençay. Mas José I Bonaparte, apelidado pelos espanhóis de "Pepe Bottella", teve um reinado efémero. O fim da Guerra da Independência acabou com o domínio francês e levou de regresso ao trono Fernando VII.

Franco não quis partilhar o poder

 Afonso XIII que fugiu à República não chegou a regressar a Espanha, apesar da vitória dos franquistas na sangrenta Guerra Civil. Viveu os últimos anos da sua vida em Roma, onde morreu em 1941. Quando o seu filho Juan de Bourbon tentou entrar em Espanha, a 1 de agosto de 1936,  cruzando a fronteira com França para ficar ao lado dos revoltosos, o general Mola obrigou-o a regressar a França. Deixando claro que os sublevados não queriam a família real a disputar o poder.

O general Franco, "caudilho de Espanha pela graça de Deus", não estava disposto a partilhar o poder absoluto com a família que reinava desde a guerra da sucessão, que durou desde 1701 a 1713.

Depois da morte de Alfonso XIII, numa altura que o seu neto Juan Carlos tinha só três anos, o seu pai Juan de Bourbon mudou-se para a Suíça. Os esforços da família junto a Itália fascista e a Alemanha nazi para voltar ao poder não deram em nada.

A sua aspiração de voltar como rei de Espanha nunca se concretizaria.

Em 1944, Franco respondeu secamente às aspirações do pretendente ao trono instalado em Lausane: " a) A monarquia abandonou em 1931 o poder à República. b) Fomos nós que nos levantamos contra o Governo republicano. c) O nosso movimento não teve conteúdo monárquico, foi espanhol e católico. d) O general Mola deixou claramente estabelecido que o Movimento não era monárquico (...) Por isso, o Regime não fez cair a monarquia mas não está obrigado a restabelecê-la".

O atual monarca Felipe, na presença do pai, saúda o ditador Francisco Franco, em julho de 1975, dois meses antes que o caudilho assinasse as últimas sentenças de morte da ditadura, pouco tempo antes de falecer.
O atual monarca Felipe, na presença do pai, saúda o ditador Francisco Franco, em julho de 1975, dois meses antes que o caudilho assinasse as últimas sentenças de morte da ditadura, pouco tempo antes de falecer.
Foto: EFE

Apesar disso, quatro anos depois, em 1948, Juan de Bourbon acordava, com Franco, que o seu filho Juan Carlos iria viver para Espanha, impondo a ideia que a linha da sucessão saltaria o pai, mas aceitando que o filho Juan Carlos podia almejar a governar Espanha depois da sua morte. 

Juan de Bourbon só regressou a Espanha em 1963, depois de 32 anos de exílio. A recente fuga de Juan Carlos - seis anos depois de, em 2014, ter abdicado da coroa e ter entregue o trono ao seu filho Felipe - faz que há várias gerações que a família real espanhola saia de Espanha. Resta saber, se como o seu pai, conseguirá regressar a Espanha, ou como o seu avô, Alfonso XIII, ficará até ao fim dos seus dias no estrangeiro. Resta também saber se a monarquia conseguirá resistir a mais um escândalo. 





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