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Quando o cu de Caetano Veloso entra na campanha
Mundo 9 min. 17.10.2018

Quando o cu de Caetano Veloso entra na campanha

Quando o cu de Caetano Veloso entra na campanha

Foto: AFP
Mundo 9 min. 17.10.2018

Quando o cu de Caetano Veloso entra na campanha

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Apesar do seu apoio público à tortura e à ditadura militar, o candidato de extrema-direita conta com a cumplicidade dos partidos de centro que governam o Brasil, pois estes preferem um candidato que promete metralhar os opositores a terem novo governo do PT.

“Escrevi quatro livros criticando o PT e nunca fui ameaçado de morte. [...] A imprensa é sempre a primeira vítima das ditaduras.”. Quem o diz é o jornalista Reinaldo Azevedo, que se queixa de receber centenas de ameaças de morte, por ter escrito artigos sobre o candidato Bolsonaro, criticando-o por não se desmarcar suficientemente dos atos de violência dos seus seguidores contra ativistas de esquerda, casais LGBT e jornalistas.

Reinaldo Azevedo não é propriamente de esquerda: define-se como liberal de direita e já foi editor de política da Folha de São Paulo, e escreveu na revista Veja. No seu blogue, revela uma das ameaças recebidas: “Sei endereço, e onde frequentas, seu canalha. Logo, logo, farei mais um buraco nessa sua cabeça. Se sua democracia não vale um peido, vamos tratá-la como você quer. Você não perde por esperar!”.

O jornalista conclui: “Não temos só um poder que se organiza mimetizando métodos fascistas. Temos também em curso uma cultura do fascismo. O negócio deles é a intimidação: na rede, nas ruas e, se possível, até nos tribunais. Ou você concorda com a particular noção de democracia que têm, ou eles prometem fazer um buraco na sua cabeça, entenderam? Qual é o nosso papel? Resistir e denunciar a empulhação, nos marcos que não lhes permitam botar as patas aqui, conforme o texto que escrevi nesta madrugada”.

Desde o início do ano até à primeira volta das eleições, em 7 de outubro, 137 jornalistas em todo o Brasil foram agredidos ou ameaçados enquanto trabalhavam na cobertura das eleições, segundo um número divulgado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Cerca de 62 jornalistas foram agredidos e 75 ameaçados na internet.

Segundo a organização, uma jornalista do portal NE10 foi agredida e ameaçada de ser violada no dia das eleições, na cidade do Recife. A jornalista abandonava o local de voto, na zona norte da capital pernambucana, quando foi abordada por dois homens que lhe agarraram o braço.

Ao verem a sua identificação de jornalista, chamaram-na de “riquinha” e disseram que ela era “de esquerda”. Segundo a vítima, os agressores terão dito que “quando o comandante ganhasse, a imprensa toda ia morrer”. Um deles usava jeans e uma T-shirt preta com a foto de Jair Bolsonaro (PSL) e os dizeres “Bolsonaro Presidente”.

“Um deles disse: ‘vamos logo estuprar [violar] ela’. O outro afirmou que era melhor me cortar toda”, contou a jornalista ao site OP9. Com o pedaço de ferro que carregavam, os homens feriram-no queixo e no braço. Fugiram assustados pela buzina de um carro que passava na rua, segundo denuncia a Abraji.

O candidato Jair Bolsonaro demarcou-se dos atos dos seus apoiantes, dizendo que não os controla. E afirmando que não quer o voto de gente violenta. Na sua conta do Twitter, o candidato postou: “Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis”.

O cu de Caetano entra na campanha

Um pacifismo que não convence os seus apoiantes. Olavo de Carvalho, um ideólogos do candidato de extrema-direita, afirmou na sua página nas redes sociais que a vitória de Bolsonaro é “não só uma derrota” para os “representantes do atual esquema de poder”, mas representa a “sua total destruição enquanto grupos, enquanto organizações e enquanto indivíduos”. “Eles não estão lutando pelo poder nem para vencer uma eleição, estão lutando pela sobrevivência política, social, económica e até física”.

A referência “à sua destruição como indivíduos” e o facto de os adversários de Bolsonaro de estarem a lutar nestas eleições pela sua “sobrevivência física” levou o cantor Caetano Veloso, preso em dezembro de 1968, antes de partir para o exílio em Londres, durante a ditadura militar, a protestar: “Isso é anúncio de autoritarismo matador”, escreveu o músico em artigo publicado na Folha de São Paulo. “Considero o texto de Olavo incitação à violência. Convoco meus concidadãos a repudiá-lo”.

Olavo de Carvalho mostra a dose de crítica que os mais reputados apoiantes do candidato de extrema-direita têm: “No meio do chilique, o Caetano não consegue esconder o segredinho do seu coração: ele daria o cu para escrever como eu”. Na sequência desse post, classificou o baiano de “canalha mentiroso, difamador e puxa-saco profissional de comunistas”, além de ’analfabeto’”.

A vitória anunciada de Bolsonaro

Nuvens negras na política brasileira que parecem não atingir a aparente irreversível conquista de Jair Bolsonaro do Palácio do Planalto. O homem que no momento do ’impeachement’ de Dilma Rousseff tinha pouco mais de 8% de intenção de voto nas sondagens prepara-se para ganhar a segunda volta das eleições a 28 de outubro.

Na segunda-feira passada, a preferência pelo candidato de extrema-direita do PSL, Jair Bolsonaro, ultrapassou pela primeira vez a marca de mais de metade do eleitorado numa sondagem. De acordo com o Ibope, o deputado federal alcançou 52% das intenções de voto. O petista Fernando Haddad fica com apenas 37% , enquanto 9% estão dispostos a anular o voto ou votar em branco. Nos votos válidos, Bolsonaro bate 59%, contra 41% de Haddad, uma vantagem ainda maior que a medida pelo Datafolha na semana passada, que foi de 16 pontos percentuais.

A pesquisa Ibope, que tem margem de erro de dois pontos percentuais, trouxe ainda outra má notícia para Haddad. A rejeição da sua candidatura, que mede o número de eleitores que em nenhuma circunstância admitem votar no candidato, chega a 47% , ultrapassando o índice do capitão reformado do Exército, que aparece com 35%.

O candidato do PT tem-se mostrado incapaz de mostrar que há um perigo para a democracia com a eleição de Bolsonaro e de agregar os outros partidos democráticos no apoio à sua candidatura. Apenas o PSOL, PC do B e PT participam ativamente na campanha. PCB e PDT dão um apoio crítico. PSDB pregou a neutralidade, com a maioria dos seus dirigentes a apoiarem Bolsonaro. Com os candidatos de esquerda Ciro Gomes do PDT e Marina Silva da Rede a absterem-se de qualquer apoio ativo à campanha de Haddad. Na última sondagem, só 60% dos votantes de Ciro declararam ir votar no candidato do PT.

Em agosto passado, a Fundação FHC realizou uma conferência com o cientista político Steven Levitsky, da Universidade de Harvard. Levitsky é co-autor do livro “Como as Democracias Morrem”. Durante a sua intervenção, ao lado do anfitrião e antigo presidente do Brasil, FHC, nome pelo qual é conhecido Fernando Henrique Cardoso, Levitsky propôs um teste com quatro questões para identificar se um candidato tem tendências ditatoriais: “Rejeita, em palavras ou atos, regras fundamentais da democracia? Põe em dúvida a legitimidade de seus oponentes? Tolera ou incentiva a violência política? Admite ou propõe restringir liberdades civis?”

Não é necessário dizer que Levitsky respondeu “sim” para Bolsonaro em todas as perguntas, o que não ocorreu com os demais candidatos. Disse ainda que “se um candidato, na sua vida, carreira política ou durante a campanha, defendeu ideias antidemocráticas, devemos levá-lo a sério e resistir à tentação de apoiá-lo, ainda que, diante de circunstâncias momentâneas, pareça ser uma opção aceitável”. O sociólogo FHC, que acompanhava a palestra ao lado do cientista político, concordou com tudo o que foi dito, mas o ex-presidente, político e cidadão FHC optou por dizer que era igualmente mau votar em Bolsonaro que no PT e resolveu ir viajar para o estrangeiro até ao dia das eleições.

Partido do presidente tem um herdeiro real, uma estrela porno e vários militares

O partido de Bolsonaro era considerado um “partido nanico” [anão], tinha um único deputado até estas eleições. No dia 7 de outubro conseguiu eleger 52 deputados e espera chegar aos 90, por causa da cláusula barreira, que retira financiamento aos pequenos partidos que não elegerem mais de nove deputados em várias regiões do Brasil, levando-os a fazer acordos com partidos maiores.

A bancada é composta por um herdeiro da monarquia, um ex-actor porno, um ex-nadador olímpico, polícias, militares, líderes do movimento pró-impeachment de Dilma e familiares e aparentados do candidato.

Entre os seus 52 eleitos, a segunda maior bancada parlamentar, atrás apenas da do PT, há três que se declararam negros, 14 pardos [mulatos] e 35 brancos. Apenas nove são mulheres. Pelo menos 22 já trabalharam ou atuam em órgãos de segurança privada ou pública, como as Forças Armadas, empresas particulares, polícias Civil, Federal, Militar e Rodoviária Federal. A média de idade é jovem, 45 anos. E quase metade, 24, nunca tinha concorrido a eleições.

Um dos filhos de Bolsonaro, o polícia Eduardo, na última vez que concorreu a umas eleições tinha tido 82.224 votos. A 7 de outubro recebeu 1,8 milhões de votos. Foi o deputado federal eleito pelo Estado de São Paulo com mais votos do país. Na atual campanha disse, durante um ato de apoio ao seu pai, que “mulheres de direita são mais bonitas do que as de esquerda”. “Não mostram o peito na rua e não defecam para protestar”, afirmou. “Ou seja, as mulheres de direita são muito mais higiénicas que as da esquerda”, concluiu.

Uma outra eleita na bancada, com mais de um milhão de votos, também pelo estado de São Paulo, foi a jornalista Joice Hasselman. A ex-repórter da Veja foi acusada de plagiar 65 reportagens, acusação que o órgão representativo dos jornalistas do Paraná considerou verdadeira. Na atual campanha eleitoral ela foi acusada de ter disseminado algumas das fake news que inundaram as redes sociais pró-Bolsonaro.

Segundo a Agência Lupa, que monitoriza as ’fake news’, as dez notícias falsas mais populares entre o mês de agosto e 7 de outubro, data em que se realizou a primeira volta das presidenciais brasileiras, tiveram mais de 865 mil partilhas no Facebook. E eram todas notícias favoráveis ao candidato Jair Bolsonaro ou contra os seus opositores.

As ’fake news’ garantiam, por exemplo, que Fernando Haddad teria dado a pasta da Educação ao deputado gay Jean Wyllys; o Supremo Tribunal Eleitoral teria dado os códigos das urnas eletrónicas ao governo venezuelano; Haddad defenderia que o Estado vai decidir se as crianças vão ser meninos ou meninas; e que a ex-mulher de Ciro Gomes, Patrícia Pilar, teria denunciado agressões por parte do ex-marido e candidato do PDT.

Já na campanha para a segunda volta, o Supremo Tribunal Eleitoral recusou mandar retirar um post de Olavo de Carvalho que dizia o seguinte: “Estou lendo um livrinho do Haddad, onde ele defende a tese encantadora de que para implantar o socialismo é preciso derrubar primeiro o tabu do incesto. Kit gay é fichinha. Haddad quer que os meninos comam suas mães”. O juiz reconheceu que a “notícia” era falsa, mas na sua opinião é uma manifestação da liberdade de expressão.


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