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Quando a ocupação estrangeira e corrupção fazem voltar os taliban
Mundo 10 min. 25.08.2021
Afeganistão

Quando a ocupação estrangeira e corrupção fazem voltar os taliban

Guerrilheiros taliban
Afeganistão

Quando a ocupação estrangeira e corrupção fazem voltar os taliban

Guerrilheiros taliban
Foto: AFP
Mundo 10 min. 25.08.2021
Afeganistão

Quando a ocupação estrangeira e corrupção fazem voltar os taliban

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O Governo pró-ocidental do Afeganistão era um gigante com pés de barro. O anúncio da retirada das tropas americanas fez fugir Governo e 300 mil soldados e abriu portas a uma velha era em que as mulheres não têm voz e são escravas dos homens.

 Em apenas dez dias, os taliban (“estudantes” em pashto, língua da étnia maioritária do país) ocuparam quase todo o Afeganistão.

Essa designação refere-se aos jovens que estudavam teologia nas madrassas pagas pela Arábia Saudita no Paquistão, em que se ensina uma versão do islamismo muito conservador e machista, o wahabismo. Em que existe um primado da religião sobre as leis da sociedade.

Os taliban entraram na sua primeira capital de província, Zaranj, na província de Nimruz, na fronteira com o Irão, a 6 de Agosto. A 15 de agosto, os taliban assumiam o controlo de Cabul.

A uma velocidade que aparentemente não foi prevista pelos serviços de inteligência militar dos EUA, que inicialmente afirmavam que os taliban só poderiam vir a atacar Cabul no prazo de nove a seis meses e depois da ofensiva taliban, falavam em 90 dias. Mas, a entrada das forças rebeldes no palácio presidencial na capital deu-se no dia 15 de agosto.

Segundo o Pentágono, calcula-se que os taliban tenham cerca de 75 mil homens armados a que se opunham um suposto numeroso e bem treinado exército afegão com 300. 000 efetivos e armado até aos dentes pelos EUA.


EUA mantêm intenção de sair do Afeganistão a 31 de agosto
Na reunião do G7 desta terça-feira, vários líderes tentaram convencer os EUA a prolongarem a permanência no aeroporto militar de Cabul para possibilitar a saída de mais cidadãos do país, mas Joe Biden mostrou-se irredutível.

“Formámos e equipámos uma força militar afegã de 300 mil homens forte – extremamente bem equipada –, uma força maior em tamanho que a dos exércitos de muitos dos nossos aliados da NATO”, referiu o Presidente dos EUA, Joe Biden, num discurso à nação a 16 de agosto de 2021, um dia depois da hecatombe.

Tirando no vale de Panshir, em que elementos das forças especiais afegãs se juntaram a milícias tribais anti-taliban, em todo o resto do país, o exército fugiu e deixou as armas à disposição dos estudantes de teologia.

Os EUA admitem não saber a quantidade de material militar que está nas mãos dos taliban, mas temem que o mais sofisticado possa ir parar às mãos de grupos terroristas.

“Tudo o que não foi destruído está nas mãos dos taliban”, disse um responsável americano sob anonimato à Reuters, citado pelo diário português Público. Acrescentou que não há planos para ações para destruir este equipamento, já que a principal prioridade é a operação de evacuação que ainda decorre e que o Presidente, Joe Biden, classificou na sexta-feira como “muito perigosa”.

Segundo cita o Público, desde 2013, os EUA deram às forças afegãs pelo menos 600 mil armas automáticas e semiautomáticas como as M16 ou M4, 76 mil veículos, 16 mil óculos de visão noturna, 162 rádios e equipamento de comunicação, de acordo com um relatório de 2017, a mais recente contagem, citada em vários meios de comunicação social norte-americanos. Entre 2017 e 2019, outro relatório, da Inspeção Geral para a Reconstrução do Afeganistão, enumera o envio de 4700 Humvees, 20 mil granadas de mão e milhares de munições e lança granadas. Entre abril e junho de 2021, os EUA deram às forças afegãs mais de mil rockets, e dezenas de milhares de munições de vários tipos.

A resistência do filho de Massoud

Um dos assistentes de Ahmad Massoud, filho do mítico guerrilheiro, com o mesmo apelido, que resistiu aos soviéticos no vale de Panchir, Fahim Dashti, disse, por telefone ao diário francês Le Monde, que o vale de “Panchir continua cercado e que não há rotas terrestres livres para fora, a menos que tome estradas montanhosas, que são de difícil acesso”. Quanto à escassez de munições, tentou relativizar a situação: “Nos anos 90, já vivemos uma situação semelhante, estamos prontos a enfrentar dias difíceis”. Finalmente, confirmou a existência de contactos com os taliban, a fim de encontrar uma solução não violenta. “Queremos paz, mas queremos um país estável onde a liberdade de expressão, a justiça social, os direitos humanos, incluindo os direitos das mulheres, sejam respeitados. Se não for este o caso, lutaremos”, declarou.

Os combatentes no vale do Panchir preparavam-se, há semanas, para a possibilidade de um cerco. Um antigo companheiro de Ahmed Shah Massoud (pai do atual líder) na sua luta contra os soviéticos e depois contra os taliban, o antigo comandante Gul Haidar, que perdeu uma perna numa explosão de uma mina, tem vindo a coordenar os voluntários desde a primavera. A seu lado está outro ex-comandante influente, Saleh Registani, que foi membro do Parlamento. Tentam organizar um grupo heterogéneo de tropas, composto por jovens panchiris impacientes para combater, unidades das forças especiais do antigo exército afegão que encontraram refúgio no vale, bem como milicianos que não se renderam com a derrota no norte do país.

Mahmoud (um pseudónimo), um estudante de direito e ciência política de 21 anos, juntou-se ao vale a 16 de agosto. Ao telefone, com o jornal francês, garante ver 40 ou 50 afegãos a chegar a Panchir todos os dias para lutar contra os taliban. “Eles são de todas as províncias, de Kunduz, Badakhshan ou Cabul. Reconhece a falta gritante de armas e munições. É normal”, diz ele, “os taliban apropriaram-se do equipamento militar dos americanos e das forças afegãs em todo o país. Mas os panchiris são conhecidos por lutar até ao último suspiro.”

Os taliban tinham razão?

Ashraf Ghani presidiu a um regime fantoche, organizado e dirigido por estrangeiros ocidentais? Parecia propaganda antes, mas agora os factos parecem ter provado essa ideia, pois o exército afegão desmoronou-se sem sequer lutar e o próprio Presidente fugiu para o exílio sem apelar à resistência ou oferecer qualquer alternativa a não ser um reconhecimento resignado da vitória dos taliban. Recorde-se que o regime comunista no Afeganistão resistiu três anos depois da retirada soviética, sem apoios nem reabastecimento de armas significativo, por parte de uma União Soviética à beira da implosão.

Há um argumento a favor de uma tão rápida decadência da “democracia” construída pelos EUA e seus aliados ao longo de 20 anos. Culpar os afegãos pela forma como tudo acabou. “As forças de segurança falharam. O governo afegão falhou. O povo afegão falhou”. Para a antiga Secretária de Estado Condoleezza Rice, do governo que decidiu a invasão do Afeganistão, tal explicação é “corrosiva e profundamente injusta”, mas foi promovida pelo próprio Presidente Joe Biden, no seu discurso de segunda-feira passada, no qual afirmou que “demos-lhes (aos afegãos) todas as oportunidades para determinarem o seu futuro”.

Para além do enorme significado geopolítico do golpe – a derrota de uma superpotência às mãos de uma paciente e astuta força de guerrilha fundamentalista de 75.000 homens – houve os efeitos psicológicos, na opinião pública dos EUA e internacionalmente. Nenhum ocupante da Casa Branca queria ver de novo a imagem do último helicóptero a descolar do telhado da Embaixada dos EUA em Saigão antes da entrada vitoriosa do vietcong comunistas na capital do estado fantoche do Vietname do Sul, mas repetiu-se a imagem do helicóptero em Cabul e sobretudo as imagens, terríveis de pessoas a cair dos aviões em que queriam fugir quando estes levantarem da pista do aeroporto da capital afegã.

O Governo colocado no poder pelos ocidentais no Afeganistão desmoronou-se como um castelo de cartas, apesar dos contínuos avisos de diplomatas, militares e observadores no terreno. Onze relatórios do Inspetor-Geral para a Reconstrução do Afeganistão (Sigar) apontaram falhas no país da Ásia Central, incluindo a incapacidade de trabalhar para o longo prazo, resolvidas através de injeções crescentes de fundos, e insuficiente sinergia entre as várias agências dos EUA envolvidas na operação; lacunas através das quais milhares de milhões de dólares foram desviados. Mas o verdadeiro buraco negro tem sido a corrupção endémica do país, que em 2010 já estava a engolir 25% do PIB nacional.

John F. Sopko, o inspetor-geral nomeado por Barack Obama em 2012, citado pelo diário espanhol El País, denunciou em 2019: “Os EUA e os seus parceiros gastaram demasiado, e demasiado depressa, numa economia demasiado pequena, com muito pouca supervisão”, escreveu na altura; “fizemos vista grossa ou não reparámos na regularidade com que muito do dinheiro era gasto em pagamentos, subornos e contas do Dubai”. O próprio Presidente Ashraf Ghani teve de negar esta semana que fugiu do Afeganistão com 160 milhões de dólares na sua mala.

Sopko apresentou a sua última avaliação a 31 de julho. “Após 20 anos e 145 mil milhões de dólares a tentar reconstruir o Afeganistão, o Governo dos EUA tem muitas lições a aprender (...) para salvar vidas e evitar desperdícios, fraudes e abusos no Afeganistão e em futuras missões de reconstrução em outras partes do mundo”, diz o relatório. O mundo investiu 2,2 biliões de dólares neste país da Ásia Central, o que hoje parece dinheiro deitado ao lixo; para não falar das vidas de dezenas de milhares de pessoas, afegãs e estrangeiras mortas e feridas. O projecto The Costs of War da Brown University quantifica em 241.000 os mortos no conflito, tirando os milhões de deslocados internos e feridos.

A corrupção na liderança afegã alimentou a insurreição taliban. Para a agência de espionagem dos norte-americana NSA, não se trata de um erro de cálculo, mas das ações “enganosas” da Casa Branca desde 2001. “O Governo dos EUA enganou o público durante quase duas décadas sobre o progresso no Afeganistão, enquanto escondia as falhas detetadas em canais confidenciais”, sublinha a NSA.

A NSA detalhou os problemas, agora evidentes, que pesaram na missão desde o seu início, com particular ênfase na “corrupção endémica, impulsionada em grande parte por biliões de dólares americanos e pagamentos secretos aos senhores da guerra”. Mas mesmo as atividades quotidianas não podiam escapar à portagem obrigatória: tratamento favorável num hospital, transporte de combustível através do país ou posse de propriedade, tudo isto tinha um preço.

“Todos estavam bem cientes da corrupção generalizada aos mais altos níveis de poder. Há anos que a comunidade internacional tenta combatê-la; de facto, quando Ghani se tornou presidente, os doadores impuseram-lhe 20 condições, a primeira das quais foi a de reduzir a corrupção na administração em 80%”, diz, ao El País, a investigadora da Brookings Institution Vanda Felbab-Brown, que cita a corrupção nas forças de segurança e no sistema judicial como exemplo dessa gangrena.

Ao contrário das autoridades apoiadas pela comunidade internacional, ela assinala que “os taliban não foram corruptos, tiveram lucros suficientes com a droga [tráfico de ópio], em cujos negócios não eram os únicos atores; havia também os do governo”, acrescenta Felbab-Brown. “Nos anos 90, construíram uma reputação de integridade, com casos muito esporádicos de desvio de dinheiro para bolsos privados em benefício das suas famílias, mas não sistematicamente como as autoridades do país. A sua legitimidade é duvidosa, mas não podem ser acusados de corrupção, tendo em conta a forma como o suborno era desenfreado no sistema e como a prática foi erradicada nos tribunais islâmicos durante o seu primeiro mandato [1996-2001]. Um argumento que poderia explicar em parte o apoio popular aos taliban em grandes partes do país.


“É como estarmos mortas, apenas a respirar”
São refugiados afegão que vivem no Luxemburgo. Contam o que viveram e sentiram nestes dias em que os taliban retomaram o poder no Afeganistão. Por razões de segurança e para evitar eventuais represálias sobre as suas famílias mantemos o seu anonimato. Dizem que se a comunidade internacional nada fizer o país vai viver uma “catástrofe”.

Parece que o desejo de acabar com a guerra e com a corrupção falou mais alto que os incipientes direitos das mulheres que as potencias ocidentais obrigaram o Governo de Cabul a aceitar. Para elas, espera-as um segundo regresso à idade das trevas. Uma história que se repete, num país em que as primeiras revoltas contra o Governo comunista, que governou de 1978 a 1992, foi devido ao estabelecimento de uma lei que defendia a igualdade entre homens e mulheres e o direito destas a estudar, trabalhar e decidir com quem se casavam. 

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