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Proibidas manifestações de homenagem a lusodescendente morto
Mundo 5 min. 02.08.2019 Do nosso arquivo online

Proibidas manifestações de homenagem a lusodescendente morto

Proibidas manifestações de homenagem a lusodescendente morto

Mundo 5 min. 02.08.2019 Do nosso arquivo online

Proibidas manifestações de homenagem a lusodescendente morto

O chefe de departamento de Loite-Atlantique decidiu interditar todas as manifestações de homenagem a Steve Maia Caniço, morto após uma carga policial, que estavam marcadas para o próximo sábado no centro da cidade francesa de Nantes.

"A fim de garantir a ordem pública, o perfeito tomou a decisão de proibir qualquer concentração ou manifestação no centro de Nantes entre as 10 horas e as 20 horas de sábado 3 de agosto". Um dispositivo de seguraça adaptado, reativo e móvel  será empregue para garantir a segurança e impedir qualquer ato de violência. Os suspeitos de pretenderem provocar desacatos serão detidos", indica em comunicado, emitido quinta-feira ao fim da tarde,  a Prefeitura do Loire-Atlantique, departamento francês em que se insere a cidade de Nantes. 

Depois da descoberta, na segunda-feira, do corpo do jovem lusodescendente, desaparecido depois de uma carga policial durante um concerto de música techno, surgiram nas redes sociais vários apelos à convocação de uma manifestação para este sábado, às 13 horas,  em homenagem ao malogrado Steve Caniço.  A concentração também serviria para protestar contra as conclusões de um inquérito policial que absolve sumariamente as autoridades de qualquer responsabilidade na morte do português. 

A advogada da família de Steve Caniço, Cécile de Oliveira, afirmou na quarta-feira à AFP que não sabia se amigos e familiares do jovem morto iriam participar nas manifestações, mas que era muito possível que sim, porque "estão comovidos com a solidariedade". 

Governo português preocupado 

 Recorde-se que na quarta-feira passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, considerou que, apesar de o jovem encontrado morto em França não ter nacionalidade portuguesa, esse facto não afasta o lusodescendente “das preocupações” do Governo português.

“O facto de não ter a nacionalidade portuguesa não o afasta das nossas preocupações e, sobretudo, da nossa tristeza e da solidariedade com a sua família, visto que é filho de portugueses”, afirmou o ministro.

O chefe da diplomacia portuguesa indicou que “as autoridades francesas abriram um inquérito, o primeiro-ministro francês já se pronunciou sobre os resultados preliminares do inquérito e a investigação continua para que as responsabilidades sejam apuradas”.

Questionado sobre se a família do jovem pediu ajuda ao Governo português, o ministro respondeu que até “ontem [terça-feira] ao fim da tarde não tinha pedido”.

O governo francês absolve polícia

O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, disse na terça-feira que as conclusões do relatório da Inspeção Geral da Polícia não estabelecem qualquer ligação entre a intervenção policial em Nantes e o desaparecimento do lusodescendente Steve Maia Caniço.

O relatório "indica que, à luz dos factos conhecidos à data da sua redação, não pode ser estabelecida uma ligação entre a intervenção das forças policiais e o desaparecimento de Steve Maia Caniço", disse Edouard Philippe numa declaração pública em Paris.

O primeiro-ministro falava depois da confirmação pelas autoridades de que um corpo retirado do rio Loire, na segunda-feira à noite, era do jovem lusodescendente de 24 anos, que estava desaparecido há mais de um mês.

Steve Maia Caniço estava desaparecido desde 22 de junho, em França, tendo sido visto pela última vez durante uma intervenção policial numa festa em que participava, em Nantes.

O desaparecimento do lusodescendente causou ondas de choque em França, devido às imagens e descrições da intervenção policial, que mostravam a utilização de gás lacrimogéneo e balas de borracha contra os jovens.

Na sequência do ocorrido, o Ministério do Interior francês ordenou, a 24 de junho, a abertura de uma investigação à atuação das forças policiais, cujas conclusões foram tornadas hoje públicas pelo primeiro-ministro francês.

Edouard Philippe adiantou que o relatório evidencia as dificuldades ligadas à intervenção policial, adiantando que o arremessar "consecutivo" de projéteis contra os polícias levou ao uso de gás lacrimogéneo.

Segundo o primeiro-ministro francês, as conclusões da investigação levantam também dúvidas sobre a organização da festa.

A família insatisfeita com relatório policial

 A advogada da família do lusodescendente que morreu em Nantes considera que o caso se tornou "assunto de Estado" depois de ter sido o próprio primeiro-ministro francês a revelar as conclusões da investigação à atuação da polícia.

Cécile de Oliveira, citada quarta-feira pela comunicação social francesa, adiantou que tinha sido anunciada para terça-feira uma comunicação do ministro do Interior francês para divulgar as conclusões do relatório da Inspeção Geral da Polícia sobre a atuação das forças de segurança na noite em que o lusodescendente desapareceu.

Por isso, afirmou-se "surpreendida" por ter sido o próprio primeiro-ministro Edouard Philippe a apresentar publicamente os resultados do relatório e a confirmar que um corpo retirado do rio Loire no dia anterior pertencia ao jovem de 24 anos.

"Estou surpreendida que o primeiro-ministro tenha falado [...]. Claramente, quando o próprio primeiro-ministro fala, torna-se num assunto de Estado. É uma tomada em mãos pelo executivo de um assunto que está confiado a um juiz de instrução e parece-me revelador de um momento político muito complicado sobre as intervenções policiais", disse Cécile de Oliveira.

Cécile de Oliveira considerou ainda que, neste momento, não é "possível descartar responsabilidades de quem quer que seja" e que é preciso continuar a "investigar em condições de serenidade, independência e confidencialidade como a justiça deve fazer".

A advogada lembrou que as conclusões do relatório foram divulgadas no dia em que a família recebeu a confirmação da morte do jovem e manifestou o desejo de que possam ter um "momento de silêncio" para viver o luto.

Hoje, a união de sindicatos "Solidaires" apelou à participação nas manifestações em memória de Steve Maia Caniço e exigiu ao Governo para “acabar imediatamente" com a "repressão policial" em França.

"Ao sair para se divertir, Steve encontrou a morte", adiantou o sindicato, exigindo "toda a verdade sobre esta tragédia" e que os seus autores sejam "responsabilizados".

Num comunicado, citado pela imprensa francesa, o sindicato lembra que o número de feridos e mortos causados pela repressão policial não para de aumentar.

Neste sentido, recordou as mortes, entre outros, de Zyed Benna e Bouna Traoré (2005), Remi Fraisse (2014) ou Zineb Redouane (2018).

Com Lusa e AFP

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