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Possível vitória à tangente de Joe Biden antecipa mandato conturbado
Mundo 4 min. 05.11.2020 Do nosso arquivo online

Possível vitória à tangente de Joe Biden antecipa mandato conturbado

Possível vitória à tangente de Joe Biden antecipa mandato conturbado

Foto: AFP
Mundo 4 min. 05.11.2020 Do nosso arquivo online

Possível vitória à tangente de Joe Biden antecipa mandato conturbado

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Democratas não esperavam a consolidação do 'trumpismo' como força eleitoral e se ex-vice-presidente de Obama ganhar com pouca diferença o reconhecimento dos resultados pelo conservadorismo pode estar em causa.

Quando avança a contagem de votos nos Estados Unidos, é já claro que as sondagens são as grandes derrotadas do pleito eleitoral. Como há quatro anos, quando as sondagens davam a vitória de Hillary Clinton, desta vez, esperava-se uma vitória clara de Joe Biden. Apesar de já ser o candidato mais votado de sempre, se conseguir mais delegados será através de um triunfo à tangente, muito distante dos números que antecipavam as projeções.

Sem conseguir descolar muito de Donald Trump, o candidato democrata vê a possibilidade de uma tímida vitória que abre espaço às pressões do campo populista e conservador e, sobretudo, assiste à consolidação do 'trumpismo' como fenómeno real e não como uma consequência de qualquer conspiração russa há quatro anos.

Donald Trump foi durante todo o mandato um elefante numa loja de porcelanas e enfrentou da pior forma possível uma pandemia que ceifou 230 mil vidas nos Estados Unidos. Apesar desta forma de fazer política, os democratas não conseguiram fazer passar a imagem que queriam. Se para muitos eleitores  de Joe Biden questões como o racismo e a pandemia eram prioridade, a maioria dos que foram votar apontaram as questões económicas, sobretudo o emprego, como prioridade. 

Segundo a sondagem da CNN, 34% deu prioridade às questões económicas na hora de votar, 21% ao racismo e 18% a covid-19.

Embora 52% dos americanos dessem como prioridade máxima, nos próximos tempos, vencer a covid-19; 42% dava primazia ao refazer da economia.

Quando se analisa as preocupações da maiorias dos eleitores dos dois partidos , parece estar-se perante a dois planetas diferentes. Para os republicanos a economia era a maior preocupação para 62% dos seus eleitores, seguido do crime para 17%. Já para os eleitores democratas, a questão do racismo preocupava 36% deles, seguida da pandemia com 27%. 

Ao contrário do que se se esperava, Trump revelou-se resistente e aumentou o seu voto na Florida, Texas e noutros estados. Encontrou apoio ainda significativo nos eleitores brancos da classe trabalhadora e baixou o apoio democrata entre parte dos latinos, nomeadamente os de origem cubana , venezuelana ou de religião evangélica, e este pode ser um sinal de alerta para quem pretende fazer frente ao populismo e à extrema-direita.

Legitimado pelos votos, mesmo que perca, Donald Trump questiona os resultados numa estratégia que passa pelo Supremo Tribunal para impedir a continuação da contagem de votos. Para Biden, esta declaração do atual Presidente é "ultrajante, sem precedentes e errada" e prometeu opor-se às tentativas de parar a contagem dos votos, afirmando que "todos os votos têm de ser contados numa democracia+. 

A contagem está a ser dificultada pelo facto de, devido à pandemia do novo coronavírus, haver um número recorde de norte-americanos que votaram por correio, foram cerca de 100 milhões de votantes, o tripo que em 2016. Os votos por correspondência enviados levaram tempo a chegar às comissões eleitorais e sabe-se que os votos democratas representam a maioria destes boletins.

Os republicanos contestam que se prolongue a contagem alegando que não há forma de provar que todos os votos por correio foram emitidos antes das eleições. Um facto que é desmentido pela data dos carimbos dos envelopes. Mas é verdade que os correios, agora dirigidos por um amigo e financiador de Trump, não foram sempre expeditos a enviar a tempo estes votos, e calcula-se que cerca de 300 mil não tenham chegado ao seu destido. Os republicanos conseguiram ganhar algumas destas queixas em diferentes estados, mas outros não deram seguimento às suas reclamações, especialmente na Pensilvânia, que permite uma extensão de três dias para a receção e contagem de boletins de voto por correio.

Na terça-feira, a equipa de Trump estava a trabalhar em processos judiciais para bloquear boletins de voto que chegassem após o dia das eleições, apesar de já terem apresentado, sem sucesso, uma petição ao Supremo Tribunal para rejeitar a prorrogação na Pensilvânia.

Seguindo a conhecida retórica que trata de fazer afirmações não provadas a seu favor, Trump tenta lançar entre os seus apoiantes a ideia de que está em curso uma conspiração. De facto, durante vários meses, o atual inquilino da Casa Branca tentou associar o voto não presencial à fraude e previu mais de uma vez que as eleições iriam acabar no Supremo Tribunal. 

Em setembro, Trump nomeou a juíza conservadora Amy Coney Barrett para preencher o lugar vago no Supremo Tribunal, na sequência da morte de Ruth Bader Ginsburg. Então, disse que queria que a nomeação para substituir Ginsburg fosse aprovada antes das eleições de 3 de novembro. Com esta alteração, o poder conservador neste órgão judicial é maioritário.

A Constituição dos EUA obriga que a 2o de janeiro, data de posse do novo líder, se dê a passagem de testemunho entre o antigo e o novo Presidente, mas nunca ficou previsto na legislação o que fazer se o antigo Presidente se recusar a admitir que foi derrotado. Até sair do cargo, Donald Trump continua a ser comandante em chefe das forças armadas e detentor dos comandos e códigos dos mísseis nucleares. Os tempos vão ser agitados.  

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