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Polónia. Quatro dos sete agressores de cidadã portuguesa detidos
Manifestação contra o ódio em Varsóvia após o assassínio do presidente da Câmara de Gdansk.

Polónia. Quatro dos sete agressores de cidadã portuguesa detidos

Foto: AFP
Manifestação contra o ódio em Varsóvia após o assassínio do presidente da Câmara de Gdansk.
Mundo 3 min. 18.01.2019

Polónia. Quatro dos sete agressores de cidadã portuguesa detidos

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Linda Pereira e os colegas identificaram indivíduos. Sob pressão de embaixadas de três países, a investigação prossegue. Mas a portuguesa lembra o assassínio do autarca de Gdansk para admitir que, apesar das manifestações contra o ódio, as preocupações continuam.

Foram detidos quatro dos agressores de Linda Pereira, a cidadã portuguesa que vive e trabalha em Sosnowiec, na Polónia, e que foi atacada no passado mês de dezembro quando se encontrava num bar com amigos espanhóis e italianos. "O caso ganhou dimensão mediática e, por isso, a polícia mexeu-se mais do que é costume, está a mostrar trabalho porque tem pressão de todos os lados, por exemplo das embaixadas dos países a que pertencem as pessoas agredidas. Os italianos, os espanhóis e o cônsul português têm pressionado nesse sentido. Já conseguiram apanhar quatro dos agressores e fomos chamados a identificá-los através de um vidro em que podemos vê-los, mas eles não nos veem. Faltam três que ainda estão à solta", relata.

A portuguesa acrescenta: "Tenho falado com o cônsul, vão continuar a fazer pressão e a seguir o caso. Mas o bar reabriu a página no Facebook, querendo mostrar que não vão prestar contas à Justiça, até porque o dono foi libertado depois de prestar declarações. Pretendíamos pedir uma indemnização, mas ainda não sei como o faremos. Sei que as empregadas estão a colaborar, até porque a própria Procuradoria lhes apresentou essa proposta – ou falam agora ou podem ser acusadas, uma vez que estavam a rir enquanto éramos espancados", refere.

Mas nem tudo foram demonstrações de ódio e indiferença. "Depois do que aconteceu houve manifestações em nosso apoio de cidadãos locais, muitos vindos da cidade vizinha de Katowice ou mesmo aqui de Sosnowiec, como diretores das escolas onde trabalhamos com os miúdos, professores ou defensores de Direitos Humanos que vieram marchar connosco contra essa situação. Também eles sentiram que tinham uma obrigação em relação a nós, recusando a onde de extremismo para onde o país está a caminhar e enfrentando-a para dizerem que nem todos os polacos concordam com isso. Essa atitude tem-nos dado ainda mais força e mais ânimo para continuarmos a luta. Disseram-nos que não íamos a lado nenhum, porque quem tem de sair deste país são as pessoas que não concordam com a diversidade", recorda.

No entanto, subsistem questões preocupantes como o demonstra o recente ataque mortal a um autarca. "Quando se pensa que a situação está a melhorar acontecem coisas como o assassínio do presidente da Câmara em Gdansk. Isso para nós foi mais uma prova de que aqui neste país e nestas regiões está a reinar um clima de intolerância e de violência contra os estrangeiros e, sobretudo, contra pessoas que pareçam diferentes. Esse é o meu maior medo. Se um polaco, só porque defende ideias mais abertas, a favor de imigrantes ou homossexuais, por exemplo, é atacado daquela forma bárbara, imagine-se o que pode acontecer a qualquer um de nós ou a mim que tenho a pele de uma cor diferente e sou negra. É claro que tenho mais a temer".

Ainda assim, a ideia de continuar em Sosnowiec mantém-se, conforme Linda Pereira já dissera ao Contacto. "Devemos ser corajosos e não deixar que o mal vença. Temos feito trabalho com os jovens e é importante mostrar-lhes que o mundo não é só habitado por gente branca, mas que somos todos humanos. Ficar aqui é também uma resistência nesse sentido da prevenção e de ensinar às crianças que ter uma cor de pele diferente não nos torna inferiores. Se quem nos agrediu tivesse sido ensinado assim, talvez não tivéssemos passado por aquilo que passámos".

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