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"Podem ter tirado a terra aos palestinianos, mas estes nunca deixaram que as suas vozes fossem silenciadas"
Mundo 13 9 min. 26.05.2021

"Podem ter tirado a terra aos palestinianos, mas estes nunca deixaram que as suas vozes fossem silenciadas"

"Podem ter tirado a terra aos palestinianos, mas estes nunca deixaram que as suas vozes fossem silenciadas"

Mohammed Talatene/dpa
Mundo 13 9 min. 26.05.2021

"Podem ter tirado a terra aos palestinianos, mas estes nunca deixaram que as suas vozes fossem silenciadas"

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Nabil Al-Raee tem duas filhas portuguesas que não vê há mais de um ano. Rami Rmeileh estudou em Portugal. Ambos nasceram como refugiados palestinianos. Nabil dentro da Palestina ocupada militarmente por Israel, Rami no Líbano. Cruzaram-se em Lisboa em janeiro de 2020. De volta ao sítio onde nasceram, vivem intensamente a resistência Palestiniana.

Foi há um ano que Nabil Al-Raee viu as suas duas filhas, de cinco e dez anos de idade, pela última vez. Ao despedir-se delas em Portugal, estava longe de imaginar que uma pandemia se iria juntar à lista de dificuldades de circulação a enfrentar enquanto palestiniano. Apesar de Israel ter exercido uma campanha de vacinação em massa, os palestinianos ficaram de fora do plano de imunização e as fronteiras permanecem encerradas.

Desde então, Nabil está no campo de refugiados de Al-Arroub, entre Hebron e Belém, na Cisjordânia (conhecida como West Bank), Palestina, onde nasceu há 41 anos, depois da sua família ter sido expulsa pelas forças sionistas das suas casas durante o Nakba, em 1948. O campo tem um quilometro quadrado e dá abrigo a 14 mil palestinianos. Agora, está sem data prevista para dali sair.

É por videochamada que vai acompanhando o crescimento das “duas melhores obras de arte” que já produziu na vida. O ator, escritor e ex-diretor de arte do Freedom Theater tem sido uma voz ativa da resistência cultural palestiniana e garante que não é tempo de desviar os olhos da Palestina.

“Eu acho que a situação ainda está em chamas. Apesar de oficialmente terem decretado um cessar- fogo com Gaza, estamos todos atentos ao que se está a passar no bairro Sheikh Jarrah e na Mesquita de Al-Aqsa, onde tudo começou. Além disso as forças militares israelitas iniciaram uma operação “Lei e Ordem”que irá prender pelo menos 500 palestinianos residentes no território de 1948, a que eles chamam cidades israelitas, por terem participado em manifestações contra a violência e repressão israelita. A situação está a piorar, o que significa que estamos na direção correta. Estão sedentos de vingança, tanto quanto puderem vão querer vingar-se, porque foram simplesmente derrotados em todos os níveis”, comenta.

Enquanto as forças da ocupação apertam o cerco aos moradores palestinianos do bairro de Sheikh Jarrah, onde os colonos israelitas circulam armados em total liberdade e protegidos pela polícia, este domingo, a Aljazeera noticiou que cerca de 50 colonos israelitas de extrema direita, "flanqueados por forças especiais israelitas fortemente armadas”, invadiram o complexo da Mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém Oriental ocupada durante a madrugada, horas depois de os “fieis palestinianos terem sido espancados e agredidos pela polícia israelita”, de acordo com a autoridade islâmica que supervisiona o local. Os vídeos circularam nas redes sociais e mais uma vez a voz da propaganda israelita foi desmentida perante o mundo. 

Foi precisamente por terem atacado os fieis em Al-Aqsa e pela violência em resposta aos protestos pacíficos contra a expulsão das famílias palestinianas do bairro de Sheikh Jarrah, na Jerusalem Oriental ocupada, que o Hamas avisou formalmente que responderia com rockets, caso Israel continuasse os ataques. Israel ignorou o aviso e continuou os ataques, dando-se início a um ataque do Hamas que acabaria por matar 12 israelitas, duas das quais crianças. A campanha militar de bombardeamento de Gaza durou 11 dias e matou 248 pessoas, 65 das quais crianças. 

Agora, apesar das tréguas em Gaza, as provocações continuam. “Estão a dizer que deixaram os civis de lado e marcaram os militantes mas toda a gente à volta do mundo está a observar o que se passa e agora sabem que eles mentem. A situação só terá tendência a piorar e nós precisamos de toda a atenção possível para que nos apoiem e não se cansem de falar da Palestina, porque é mesmo muito importante que não se desista neste momento. Não pensem que simplesmente acabou, porque só agora está a começar. Nós somos muito fortes, graças a Deus, e sabemos que estamos do lado correto da História, então lutamos com o que quer que seja que tenhamos à mão”, diz Nabil.

“Pela primeira vez sentimos que Gaza não está sozinha. A Palestina nos territórios de 1948 (Israel) não está sozinha. A Palestina do West Bank não está sozinha. Todos estamos a celebrar porque esta é uma nova era e nós havemos de conseguir. Estou tão feliz por ver todo o apoio dos povos livres em todo o mundo, dos famosos aos não famosos, as pessoas estão a acordar”, diz com um sorriso no rosto. 


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“A mentira sionista sobre a Palestina foi protegida por uma narrativa em que as pessoas pudessem acreditar. A Palestina era um lugar de cristãos, muçulmanos e judeus por milhares de anos. Há judeus palestinianos em Nablus e eles também têm estado a resistir contra a ocupação. Há cristãos palestinianos a resistir. As pessoas têm tendência a achar que somos todos muçulmanos. Isto não é verdade. Esta é terra dos profetas, Jesus era palestiniano, era de Nazaré. Quer acredites ou não nas práticas religiosas, as pessoas que cá moram há milhares de anos partilhavam os recursos. Porque é que desde há 73 anos é diferente? Porque um grupo de ateus, sionistas, defendiam a construção de um estado judeu de Israel. Decidiram que esta terra era deles e era a oportunidade a tomar com a premissa que era a promessa dada por Deus. Se Israel admitisse que cometeu um crime contra a humanidade e que os palestinianos podem dar o seu perdão, esta terra tem espaço para todos. Eu acredito que os israelitas são humanos que merecem viver, mas têm de decidir em que moldes. É como força de ocupação? Então somos guerreiros e vamos tira-los daqui. Se quiserem ser respeitadores e educados, aceitarem morar na nossa terra e partilhar recursos, sejam bem-vindos e vamos criar o  lugar mais bonito na Terra”.

Foi em Lisboa, em janeiro de 2020 que Nabil conheceu Rami Rmeileh, um jovem que, juntamente com cerca de 5,6 milhões de pessoas em todo mundo, nasceu palestiniano em família de refugiados. A diferença, é que o seu campo, Burj Barajneh, fica no Líbano. O jovem de 25 anos que estudou em Portugal entre 2019 e 2020, nunca teve a oportunidade de visitar a Palestina, de onde os seus avós foram expulsos em 1948.Hoje é psicólogo social e está a preparar-se para ingressar como estudante de doutoramento em na Universidade de Exeter, no Reino Unido, em setembro deste ano. 


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Rami tem sido uma força imparável da resistência digital levada a cabo maioritariamente pela sua geração e que se tornou fundamental para o desenvolvimento dos acontecimentos. “Esta jornada tem sido esmagadoramente emocional. Houve momentos em que me senti desamparado, mas estava rodeado por um grupo de palestinianos e aliados que me impediram de me sentir desesperado. Reunimo-nos para criar espaços que permitissem a auto-cura e organização para a acção colectiva. Extraímos força e inspiração uns dos outros na nossa busca de libertação”, descreve a partir de Beirut.

“Os palestinianos por vezes são susceptíveis de sentir que a libertação é uma fantasia que não é compatível com a realidade. Contudo, este período recente afirmou que os palestinianos estão unidos por detrás da crença de que a nossa libertação é uma realidade muito alcançável e uma realidade justa. Esta é a visão partilhada que liga os palestinianos da diáspora aos que estão por toda a Palestina, apesar dos melhores esforços da ocupação israelita para nos separar e quebrar os nossos espíritos, continuamos mais fortes e mais unidos do que nunca. Estes acontecimentos recentes significam o início do fim não só da ocupação israelita, mas também do viés dos meios de comunicação ocidentais e do discurso anti-palestiniano”, afirma confiante.

 “Aos palestinianos podem ter-lhes tirado a sua terra, mas nunca permitiram que as suas vozes fossem silenciadas e agora há uma audiência, motivada para se opor a todas as formas de racismo e injustiça, que está a ouvir e preparada para amplificar as nossas vozes”.

Em fevereiro, um grupo de palestinianos da diáspora, incluindo Rami, reuniu-se para criar um espaço para que os conterrâneos se conectarem, partilharem e celebrarem a sua cultura, tradições e identidade territorial pós-nacional. “Chamámos a este espaço "Moutawasilon" na expansão de uma campanha de solidariedade em curso com Muhhanad Abu Ghost, que foi preso pelas forças de ocupação sob acusação de comunicar com os palestinianos noutras áreas. O simples acto de os palestinianos comunicarem em conjunto representa uma ameaça de "segurança" para o regime colonial israelita. A comunicação com e entre palestinianos é equivalente à nossa libertação e devem ser feitos esforços para encorajar e reforçar as ligações entre nós. Moutawasilon acolheu salas de discussão sobre múltiplos tópicos e conceitos que são centrais para a identidade palestiniana”, explica. 

Durante o movimento de resistência electrónica, o jovem tem contribuído e organizado múltiplos projectos ainda em curso. “Sou organizador de um grupo de trabalho multifacetado destinado a sensibilizar para as filmagens e imagens que destacam a realidade vivida pelos palestinianos no terreno. Ajudei na recolha de meios de comunicação social e na legendagem dos mesmos para posts nas redes sociais, em preparação para a sua disseminação através de múltiplas plataformas. 


Uma parte central das minhas contribuições foi chegar a aliados em diferentes países e recrutá-los como tradutores do conteúdo, permitindo-nos apelar a uma audiência internacional através de múltiplas línguas. Há uma escassez de reportagens precisas sobre a Palestina e uma tendência para rotular os eventos como isolados e atípicos nas tentativas de minar a nossa resiliência. Como palestiniano na diáspora, compete a mim e a outros aliados, ampliar as vozes e experiências dos que se encontram no terreno. Tal como o movimento palestiniano mais amplo ainda está em curso, a resistência electrónica também persiste”.

Além da disseminação de informação e da disponibilidade para esclarecer questões relativas à história e narrativa palestiniana que “tem sido deturpada ou muitas vezes completamente ignorada”, Rami Rmeileh participou da organização e promoção da campanha de lançamento do hospital Al-Makassed. “Em vez de simplesmente criar uma página de lançamento do hospital de Jerusalém, conseguimos estabelecer uma ligação com médicos palestinianos do hospital que falaram em eventos virtuais sobre o apartheid médico em curso, que foi exacerbado pela recente agressão crescente contra os palestinianos. Não faltam personagens desagradáveis que procuram explorar aliados da causa, criando falsas angariações de fundos para desviar fundos da Palestina, pelo que ser capaz de orientar as pessoas para longe das muitas angariações de fundos fraudulentas em direcção à comprovada campanha de lançamento do Hospital Al-Makassed foi fundamental para evitar que o apoio financeiro fosse abusado”, afirma.

Finalmente, como trabalhou anteriormente na delegação para as relações com a Palestina com a eurodeputada Margrete Auken, o jovem palestiniano manteve-se a par das últimas declarações e cartas dos grupos políticos do Parlamento da UE, partilhando-as entre as redes palestinianas “com o objetivo de salientar como as exigências da resistência electrónica se reflectiam na esfera  política da UE”, termina.

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