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Personalidade 2018 do Mundo: Nadia e a longa marcha das mulheres

Personalidade 2018 do Mundo: Nadia e a longa marcha das mulheres

Foto: Mark Wilson/AFP
Mundo 2 min. 09.01.2019

Personalidade 2018 do Mundo: Nadia e a longa marcha das mulheres

A refugiada yazidi ganhou a votação na categoria mundo entre os leitores do Contacto. É considerada a maior personalidade internacional do ano de 2018. Por ironia da história, derrotou Jair Bolsonaro, o atual presidente do Brasil que um dia se voltou para uma deputada de esquerda e lhe disse que "só não a violava porque ela não merec[ia]".

Nadia Murad é um símbolo, por que é uma pessoa de carne e osso. O seu sofrimento lembra-nos como as mulheres são as maiores vítimas da guerra, mas como um mundo patriarcal as vê como escravas disponíveis para serem abusadas pelos homens. E se a violação é uma arma de guerra nos campos de batalha, com milhares de mulheres violadas no Congo, nas guerras da ex-Jugoslávia, no Ruanda e na Síria e no Iraque, também aparece como arma de repressão e para submeter as mulheres em países ditos civilizados, onde as mulheres são agredidas, violadas e mortas, lendo-se depois nas redes sociais que elas estavam a pedi-las: porque estavam no sítio errado, numa hora tardia e de minissaia.

Nadia recebeu o Prémio Nobel da Paz com apenas 25 anos, depois de ter sobrevivido a meses de calvário nas mãos do Estado Islâmico e de se tornar porta-voz da minoria yazidi, massacrada pelos fundamentalistas islâmicos. A jovem iraquiana foi agraciada com este prémio em outubro de 2018, juntamente com o médico congolês Denis Muwkege, pelos seus esforços para "pôr fim ao uso da violência sexual como arma de guerra".

Nadia poderia ter tido uma vida tranquila na sua cidade natal, Kosho, perto do reduto yazidi de Sinjar, uma zona montanhosa entre Iraque e Síria. Mas o rápido avanço do Estado Islâmico em 2014 mudou-lhe o seu destino com letras de terror.


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Rahaf Mohammed al-Qunun recusou embarcar num voo da Tailândia para o Kuwait e barricou-se no quarto de hotel no aeroporto de Banguecoque, capital tailandesa. Teme que os próprios pais a matem, após ter renunciado ao Islamismo. Pediu asilo a quatro países.

Em agosto de 2014, foi sequestrada e levada à força para Mossul, na altura a mais importante cidade nas mãos dos fundamentalistas. Foi o início de um calvário de muitos meses: foi torturada e vítima de muitas violações coletivas antes de ser vendida diversas vezes como escrava sexual. Para além de ser torturada e violada, Murad teve de renunciar à fé yazidi, uma religião ancestral desprezada pelo autodenominado Estado Islâmico, praticada por meio milhão de pessoas no Curdistão iraquiano.

"A primeira coisa que fizeram foi forçarem-nos a uma conversão ao Islão. Depois fizeram o que queriam”, afirmou Nadia à AFP em 2016. "Incapaz de suportar tantas violações", decidiu fugir. Graças à ajuda de uma família muçulmana de Mossul, obteve documentos de identidade que permitiram sua viagem até ao Curdistão iraquiano.

Após a fuga, a jovem – que perdeu seis irmãos e a mãe no conflito – viveu num campo de refugiados no Curdistão, onde entrou em contato com uma organização de ajuda aos yazidis. Esta organização conseguiu que ela se reencontrasse com a irmã na Alemanha. Aí tornou-se uma espécie de porta-voz do seu povo, que antes de 2014 tinha 550 mil membros no Iraque. Hoje, quase 100 mil abandonaram o país.

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