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Pausa de programas de vacinação em massa facilitam novos surtos de infeções
Mundo 6 min. 30.04.2020 Do nosso arquivo online

Pausa de programas de vacinação em massa facilitam novos surtos de infeções

Pausa de programas de vacinação em massa facilitam novos surtos de infeções

Foto: DR
Mundo 6 min. 30.04.2020 Do nosso arquivo online

Pausa de programas de vacinação em massa facilitam novos surtos de infeções

Níger registou novo surto de Poliomielite. Epidemias esporádicas de doenças evitáveis, incluindo sarampo e difteria, já foram relatadas no Bangladesh, Paquistão e Nepal.

Doenças evitáveis e surtos de infeções como a poliomielite estão a ser relatados em países menos desenvolvidos graças à pausa de programas de vacinação em massa, motivados pela necessidade de distanciamento social como prevenção de propagação do novo coronavírus.

Na Semana Mundial de Imunização, recorda-se que mais de 13 milhões de crianças não receberam nenhuma vacina em 2019. Os números são da Unicef que alerta para o fato de que agora, graças à pandemia de covid-19, irá contar-se um número muito maior de crianças em zonas marginalizadas do mundo sem acesso à imunização. 

Ao fazer o seu apelo no início da edição da Semana Mundial de Imunização 2020, a Unicef afirmou no sábado, 25 de abril, que milhões de crianças correm o risco de perder as vacinas que salvam vidas contra o sarampo, a difteria e a poliomielite devido a perturbações no serviço de imunização, enquanto o mundo se apressa a retardar a propagação da COVID-19.

Já a 14 de abril, diversas organizações internacionais alertavam para o fato de que mais de 117 milhões de crianças podiam deixar de ser vacinadas contra o sarampo, sendo a razão a interrupção de "campanhas que estão a ser adiadas devido à pandemia da covid-19, pondo em causa a imunização global".

Mas este sábado, Robin Nandy  voltou a sublinhar que os destinos de milhões de vidas jovens "estão em suspenso" graças a esta interrupção nos programas de vacinação em massa.

 A Unicef estima que 182 milhões de crianças não tomaram a primeira dose da vacina contra o sarampo entre 2010 e 2018, ou seja, 20,3 milhões de crianças por ano, em média.  "Isto porque a cobertura global da primeira dose de sarampo é apenas de 86%, muito abaixo dos 95% necessários para prevenir os surtos de sarampo", lê-se em comunicado.

"O aumento das bolsas de crianças não vacinadas levou a surtos alarmantes de sarampo em 2019, incluindo em países de elevado rendimento como os EUA, o Reino Unido e a França", apontam. Entre os países menos desenvolvidos, as lacunas na cobertura do sarampo antes da covid-19 eram já alarmantes.

Níger com novo surto de Poliomielite

Entretanto, esta quarta-feira a Organização Mundial de Saúde anunciou que o Níger foi atingido por um novo surto de poliomielite, sendo que duas crianças foram infetadas por esta doença altamente infeciosa, transmitida pela água, tendo uma delas ficado paralisada.

A falta de vacinação de qualidade é um dos graves problemas que populações de países menos desenvolvidos enfrentam e um exemplo claro é o fato deste surto ter-se iniciado num vírus que sofreu uma mutação e que teve origem numa vacina oral. A OMS garantiu, através de uma declaração, que este surto não está relacionado com uma epidemia anterior de poliomielite que o Níger registou no ano passado e que já tinha sido ultrapassada.

“O poliovírus continuará inevitavelmente a circular e poderá paralisar mais crianças, uma vez que não podem ser realizadas campanhas de vacinação de alta qualidade em tempo útil”, afirmou o coordenador da OMS para a erradicação da poliomielite em África, Pascal Mkanda, citada pela agência Lusa.

 "Em casos raros, o vírus vivo da vacina oral contra a poliomielite pode evoluir para uma forma capaz de desencadear novos surtos entre as crianças não imunizadas", explica a mesma agência que acrescenta a "para travar a epidemia é necessária uma vacinação mais direcionada".

No início deste mês, a OMS e os seus parceiros anunciaram que tinham de suspender as atividades de vacinação contra a poliomielite até pelo menos o dia 1 de junho, reconhecendo que a decisão resultaria inevitavelmente na paralisia de mais crianças.

No caso da poliomielite, a erradicação da doença exige que mais de 90% das crianças sejam imunizadas. Este tipo de objetivo exige a organização de  acções que envolvem milhões de profissionais de saúde que quebrariam as orientações de distanciamento social necessárias para travar a propagação do novo coronavírus.

No continente africano, contam-se 14 outros países que estão não só a ter de combater a pandemia de covid-19, mas também de enfrentar uma batalha de contenção das suas epidemias de poliomielite, que também foram causadas por uma mutação rara do vírus na vacina oral.

Segundo a agência Lusa, a meta para a erradicação da poliomielite estava traçada para o ano 2000, um prazo que tem sido falhado e adiado repetidamente.

Mesmo antes da pandemia do coronavírus, o sarampo, a poliomielite e outras vacinas estavam fora do alcance de 20 milhões de crianças com menos de um ano de idade. 

Tendo em conta as actuais perturbações, a Unicef alertou para o fato de que esta situação pode criar vias para surtos desastrosos em 2020 e muito para além desta data. "A aposta nunca foi tão grande. Como a covid-19 continua a alastrar-se a nível mundial, o nosso trabalho de salvar vidas para fornecer vacinas às crianças é fundamental", afirmou Robin Nandy, Conselheiro Principal e Chefe de Imunização da Unicef. 

Sul da Ásia deve retomar vacinação para proteger as crianças

A Unicef alertou, esta quarta-feira, que o sul da Ásia deve retomar as campanhas de vacinação, também interrompidas devido à pandemia de covid-19.

"Embora a covid-19 não pareça deixar muitas crianças gravemente doentes, a saúde de centenas de milhares de crianças pode ser afetada por essa interrupção nos serviços de vacinação", disse Jean Gough, a diretora da agência das Nações Unidas para Infância para o sul da Ásia, preocupado com uma "ameaça séria".

O Bangladesh e o Nepal interromperam as suas campanhas contra o sarampo e a rubéola, enquanto o Afeganistão e o Paquistão, dois dos três países em que a poliomielite permanece endémica, interromperam as suas ações contra esta doença, segundo um comunicado de imprensa da Unicef.

Como resultado, epidemias esporádicas de doenças evitáveis, incluindo sarampo e difteria, já foram relatadas no Bangladesh, Paquistão e Nepal, segundo a mesma fonte.

A agência da ONU dedicada às crianças "recomenda fortemente" aos Governos que "comecem agora a planear a intensificação das atividades de vacinação para quando a pandemia do novo coronavírus estiver sob controlo", cita a agência Lusa.

A covid-19 também tem um impacto no fornecimento de vacinas na região, uma vez que afetou a sua produção, "gerando escassez adicional".

A Índia, cuja economia desacelerou acentuadamente devido a um confinamento nacional em andamento há um mês, forneceu 1,25 mil milhões de doses de vacinas ao Unicef em 2019, segundo a organização da ONU.

Jean Gough apelou mesmo a estes países para continuarem a vacinar. "Se os profissionais de saúde tomarem as precauções apropriadas, especialmente lavando as mãos, não há razão para não vacinar", insistiu Paul Rutter, conselheiro da UNICEF. "É até crucial que a vacinação continue", declarou Rutter.

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