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Editorial Mundo 2 min. 28.08.2019

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Foto: AFP
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Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Mais tarde ou mais cedo, o resultado será visível mesmo para aqueles que apregoam a cegueira, resta saber se não demasiado tarde.

Enquanto a Amazónia ardia colocando mais um prego no caixão do planeta, o Presidente Bolsonaro, o seu indicado embaixador nos EUA, por mero acaso seu filho, e alguns dos seus diletos apoiantes ocupavam-se a chamar nomes ao Presidente francês e a insultar a sua mulher, afirmando que Macron no fundo invejava o facto de Bolsonaro ser casado com uma jovem loura, várias dezenas de anos mais nova que o brasileiro.

No País Basco francês, os grandes do mundo, reunidos no G7 e protegidos por 13 mil polícias e militares, aprovavam um apoio extraordinário de 18 milhões de euros para ajudar a combater as chamas da incúria e dos negócios que devastam a maior floresta tropical do planeta. Um dos milhares de manifestantes impedidos de marchar pacificamente na cidade vizinha da cimeira, Bayonne, levava um cartaz acusador: “Se o clima fosse uma catedral, nós já o teríamos salvo”, dizia uma faixa, referindo-se à Notre-Dame, em Paris, atingida por um incêndio. Em que empresas e países doadores prometeram 850 milhões de euros para a sua reconstrução.

Uma conhecida frase garante-nos que a história acontece em tragédia e costuma repetir-se em farsa. Uma verdade que parece acontecer perante os nossos olhos, quando vemos a situação na Amazónia, embora os contornos de obra bufa da atuação dos vários protagonistas não nos impeçam de prever um final muito infeliz para toda a humanidade.

A tragédia planetária do aquecimento global está a mostrar os limites do nosso modelo político e económico. Por um lado, a questão é demasiado global para ser deixada ao cuidado de governos nacionais, muitos dos quais, como o de Bolsonaro e de Trump, negam a existência de uma mudança climática. Por outro lado, a inversão desta tendência de destruição do planeta só é possível com uma mudança profunda do modelo de produção e consumo dominantes na Terra. Estamos numa situação em que só uma rutura pode impedir uma catástrofe.

A atual deriva autoritária e populista responde à necessidade de determinados setores económicos ligados ao capital rentista preservarem os seus lucros imediatos num cenário de crise e incerteza. Um dos traços dominantes disso passa pela negação das alterações climáticas e da crise ambiental. A emergência de lideranças populistas, alicerçadas na profusão de campanhas nas redes sociais, faz-se vendendo o de sempre com as roupas anti-sistema que, não pondo em causa nada de essencial, contesta todas as mediações e especialistas científicos.

Na anterior deriva ditatorial do mundo, nos anos 30 do século passado, inventou-se a conspiração judaica e comunista para justificar a imposição de modelos ditatoriais, enquanto se impedia uma distribuição mais justa de rendimentos. Da mesma maneira, hoje negam-se os dados da ciência, pretendendo a sua falsidade ideológica, para manter o nível de vida de determinadas elites e a manutenção de determinados negócios que assassinam o planeta.

Mais tarde ou mais cedo, o resultado será visível mesmo para aqueles que apregoam a cegueira, resta saber se não demasiado tarde.

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