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Pânico do Covid-19. O outro vírus a combater
Mundo 7 min. 11.03.2020 Do nosso arquivo online

Pânico do Covid-19. O outro vírus a combater

Pânico do Covid-19. O outro vírus a combater

Foto: Rouzbeh Fouladi/ZUMA Wire/dpa
Mundo 7 min. 11.03.2020 Do nosso arquivo online

Pânico do Covid-19. O outro vírus a combater

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Conheça os conselhos dos psicólogos a seguir para escapar à onda de pânico que está a afetar cada vez mais pessoas.

 As medidas que os países têm tomado para tentar evitar uma pandemia de Covid-19 são cada vez mais amplas e restritivas, alterando as vidas e as rotinas na população. Os impactos negativos já se começaram a fazer sentir na economia, das bolsas aos setores de atividade mais próximos das comunidades, mas também nas escolas e locais desportivos, de conhecimento e cultura que são encerrados. Há regiões inteiras em quarentenas obrigatórias, como acontece em Itália, e outras com fortes medidas de contenção de liberdades e movimentos, como já se verifica no norte de Portugal. Milhares de pessoas, em todo o mundo, estão em isolamentos profiláticos e preventivos.

A par da doença em si, essa realidade dramática e alarmante, assemelha-se, nas situações mais extremas, a cenários pós-apocalípticos representados na fição e nos livros, o que faz com que os efeitos do coronavírus se façam sentir também na psique coletiva e individual dos cidadãos.

Este mês, foi publicado o primeiro estudo em grande escala sobre os distúrbios psicológicos causados na população chinesa desde a epidemia de Covid-19. A investigação, que começou a 31 de janeiro, com o surto em Wuhan, analisou a forma como medidas rígidas e de quarentena, que mantêm um grande número de pessoas isoladas, têm afetado a sua vida, concluindo que despoletaram vários problemas psicológicos, como ataques de pânico, ansiedade e depressão. Um outro grupo de investigadores chineses também publicou, na revista Lancet, um artigo sobre os impactos do isolamento nas crianças e jovens. A equipa verificou que factores de stress, onde se incluem a duração prolongada da epidemia, o medo de ficar infetado, frustração e tédio, desinformação, ausência de contacto presencial com colegas, amigos e professores, falta de espaço pessoal em casa e perda de rendimentos financeiros da família podem ter efeitos problemáticos ainda mais duradouros, do ponto de vista psicológico, nas crianças e adolescentes.

Segundo o estudo, os sintomas de stress pós-traumático são quatro vezes mais altos nas crianças que estiveram submetidas a quarentena. E estima-se que os efeitos nocivos possam ser ainda maiores em crianças que já sofrem de problemas físicos e mentais, pelo circulo vicioso criado por se estar confinado a um espaço fechado.

Em Portugal e no Luxemburgo os casos confirmados de infeção com Covid-19, somados entre os dois países, continuam a estar substancialmente abaixo das regiões do globo mais afetadas. Mas os planos de contingência já tomados, combinados com as notícias do mundo e com as redes sociais, leva a que os psicólogos já estejam em alerta para atuar em caso de crise. Esse é, pelo menos, o cenário contemplado em Portugal, que “dispõe de uma directiva que se aplicará, se necessário, para apoio psicossocial (...) e onde caso necessário poderá ser activada a bolsa de psicólogos para intervenção em crise e catástrofe”, refere o site da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).

O organismo disponibilizou entretanto, no seu site oficial, literacia psicológica sobre o novo coronavírus e a tradução para português de materiais da Organização Mundial de Saúde (OMS), sobre “como lidar com o stress no surto de Covid-19” e “como ajudar as crianças a lidar com o stress no surto de COVID19”. Medida semelhante tomada pelo Ministério de Saúde luxemburguês, que, na sua página, colocou a informação genérica da OMS, em inglês, sobre como lidar com o stress durante o surto de Covid-19. No final de fevereiro, o Partido Pirata questionou mesmo a ministra da tutela, Paulette Lenert, sobre de que forma o governo pretendia informar a população sobre como gerir o stress e a ansiedade provocada pelo surto de COVlD-19, e sobre as medidas para sensibilizar os cidadãos a evitar comportamentos racistas ou xenófobos.

Esta é uma questão que, a par da culpabilização de quem está infetado, Isabel Trindade, vice-presidente da OPP, explica que pode ser combatida, do ponto de vista psicológico, pensando que “hoje foram os outros, amanhã podemos ser nós a passar o vírus, sem sabermos” e tendo em mente, que mesmo assumindo os gestos de autoprevenção e proteção recomendados pelas direções-gerais de saúde, “não é possível controlarmos tudo”.

Entre as ações, que podem ser tomadas, por cada cidadão, para mitigar os efeitos psicológicos da doença, a responsável aponta ao Contacto alguns procedimentos que podem ser facilmente adotados nesta altura e em caso de isolamento.

“Manter a rotina, levantar-se à mesma hora e arranjar-se como se fosse trabalhar, fazer exercício físico dentro de casa, ter uma alimentação equilibrada e pensar, sobretudo, que essa situação não vai durar para sempre” são pequenas ações que, segundo Isabel Trindade, ajudam as pessoas a encarar com maior tranquilidade esta fase. Arranjar rotinas novas, de lazer, para ter na esfera doméstica, e evitar a avalanche de notícias, as redes sociais e a desinformação são outros dos conselhos. “Temos de gerir a informação dia a dia, semana a semana. Quando há muita informação as pessoas leem nuns sítios umas coisas, noutros outras, e depois fazem um enviesamento. Muitas vezes leem de acordo com a preocupação que têm e não o que lá está escrito.” Por isso, alerta: os que têm mais responsabilidades “só devem partilhar informação que é absolutamente fidedigna, incluindo nas suas contas pessoais”. Para não haver stress acrescido, deve-se evitar a exposição a informações que não privilegiem canais de entidades oficiais e não querer “saber tudo ao minuto”. No limite, essa ansiedade pode levar ao extremo oposto, ou seja, a um otimismo inconsequente, que também deve ser contido. “Perante uma situação que causa medo podemos ter várias reações e uma delas pode ser o fazer de conta que a situação não existe”. A psicóloga defende que as pessoas, na impossibilidade de quererem controlar tudo, se devem focar naquilo que está ao seu alcance. “O que é que nós podemos fazer? Podemos seguir aquelas medidas simples e que estão em todos os sítios”, de higiene e distanciamento social. “É habituarmo-nos a estes gestos, que acabarão por se tornar numa rotina e que são o que está provado que podemos fazer”. 

Em Portugal, não tem havido, para já, um aumento de casos reportados à ordem, por parte dos profissionais, relativamente a um agravamento de sintomas ou patologias do ponto de vista psicológico, relacionados com o coronavírus. 

A responsável acredita que a maior parte das pessoas não desenvolverá "nenhuma doença mental por estar em isolamento ou quarentena" e considera precoce haver já estudos definitivos sobre uma situação que está ainda a decorrer, mas sublinha as recomendações da OMS para atenuar os contextos de isolamento, tanto de adultos como de crianças, e defende que as que já têm patologias mentais devem falar sobre isto com os profissionais de saúde que as acompanham, pois "estão mais sujeitas neste momento a lidar mal com a situação".

Em relação aos idosos, o grupo mais vulnerável ao novo coronavírus e, que, entre outros casos, é também, muitas vezes, um dos mais mais socialmente solitários, a psicóloga alerta para a importância de ser mantido um contacto mais efetivo, de preferência diário, mesmo que apenas por telefone, "para que eles se sintam mais acompanhados". "Os familiares aí têm um papel importante. Devem articular-se, telefonarem mais, perceber o que é a pessoa precisa, o que é necessário levar...Porque são pessoas que podem necessitar de mais cuidados", lembra.

Um conselho que se estende também àquelas que vivam numa condição de "solidão no dia a dia" e que possam ver essa circunstância reforçada por um isolamento forçado pela epidemia.

Veja aqui como lidar com uma situação de isolamento e de isolamento com crianças.


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