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Os perfis dos padres que abusaram de crianças em França
Mundo 11 4 min. 05.10.2021
Relatório

Os perfis dos padres que abusaram de crianças em França

Relatório

Os perfis dos padres que abusaram de crianças em França

Foto: AFP
Mundo 11 4 min. 05.10.2021
Relatório

Os perfis dos padres que abusaram de crianças em França

AFP
AFP
O relatório sobre os abusos sexuais na igreja francesa hoje divulgado revela que houve mais de três mil clérigos autores de crimes de pedofilia contra mais de 300 mil crianças desde 1950.

A comissão independente que investigou os casos de abusos sexuais na Igreja Católica em França revela no seu relatório publicado hoje que desde 1950 até 2020 mais de 300 mil crianças e adolescentes foram vítimas de cerca de três mil padres ou religiosos. 

A França e a Igreja Católica acordaram hoje com este escândalo tendo o Papa Francisco já manifestado a sua "profunda tristeza" ao ter tomado conhecimento "deste terrível realidade" em França.

Ao longo de mais de 2500 páginas o relatório Ciase, como é conhecido, expõe os abusos sexuais de padres e religiosos ao longo dos últimos 70 anos, apresentando perfis dos criminosos pedófilos na Igreja francesa. 

De acordo com a investigação que durou mais de dois anos apoiada em entrevistas a padres e religiosos, testemunhos e arquivos da Igreja, o relatório conclui que de 1950 até 2020 houve entre 2.900 e 3.200 abusadores.

Nas entrevistas realizadas a 10 padres e um diácono que abusaram sexualmente de menores, em França, os autores do documento que foi hoje apresentado por Jean-Marc Sauvé,  presidente da Comissão Independente sobre os Abusos da Igreja (Ciase, na sigla em francês), traçou algumas características destes criminosos pedófilos.

Consistências

Nascidos entre 1933 e 1954, os dez padres e um diácono entrevistados provinham na sua maioria da classe trabalhadora. Nenhum deles referiu ter sido confrontado com uma falta de atenção ou de afeto pelas suas famílias.

"Quanto à sua conceção do papel do padre, a tendência mais acentuada é a que iguala o sacerdócio à escuta, ajuda e apoio social", observa o relatório, especificando que todos eles, exceto um, defendem uma visão de proximidade  na sua função.

 Reprodução da violência

Graças às entrevistas e verificações cruzadas efetuadas nos arquivos, é possível estabelecer que os jovens seminaristas que foram agredidos durante a sua formação se tornaram posteriormente eles próprios abusadores.

 Alguns padres relatam terem sido eles próprios vítimas, enquanto outros relatam a proximidade física estreita entre professores e seminaristas, mas não revelam ter sido abusados sexualmente.

 Segundo um estudo dirigido por Florence Thibaut, membro do Ciase, baseado em informações judiciais, perícia psiquiátrica e investigações de personalidades constatadas em 35 processos judiciais, os próprios clérigos tinham sido vítimas de agressão sexual na infância, isto em cerca de 27% dos casos estudados.

No entanto, e embora a comissão constate que existe uma certa tendência para a reprodução da violência sexual por aqueles que foram vítimas quando eram crianças, não é possível afirmar que existe uma "especificidade da Igreja Católica" nesta matéria.

 Próximos das vítimas

 Na Igreja Católica, como noutros lugares, o agressor não é um estranho: é uma pessoa que já está em contacto com a vítima, que encontra regularmente no contexto de atividades educativas (47% dos casos) ou pastorais (36%).

Os locais mais frequentes onde são cometidos atos pedófilos são escolas e internatos (30% dos abusos), catecismo e capelanias (21,2%), movimentos juvenis, incluindo campos de férias e peregrinações (20,2%), e o escritório ou a casa do agressor (21,2%).

Quanto aos perpetradores de violência, são em primeiro lugar párocos (30%), depois professores do clero (24,5%), capelães e líderes juvenis (14,8%) e religiosos (7,7%).

 A questão da sexualidade

 Algumas das onze pessoas entrevistadas pela Comissão Independente declararam ter colocado questões sobre a sua sexualidade desde a adolescência, enquanto que para outros essa questão "não parecia ser central".

Vários dos entrevistados lamentaram que na Igreja "a sexualidade só era vista através do prisma do pecado".

Pouco mais de metade dos sacerdotes entrevistados declararam-se homossexuais, tendo muitos deles admitido que tinham tido relações com adultos da sua idade, antes ou depois da ordenação.

Três tipos de sacerdotes

Philippe Portier, sociólogo de religiões e membro da Comissão, identificou três tipos de sacerdotes através da audição destes onze religiosos: "Aqueles que assumem o que fizeram, que estão numa perspetiva de pedir perdão, de aceitar a sua própria responsabilidade. São extremamente raros", explicou ele à AFP.

O segundo tipo de padre é o que "minimiza os factos", e esta é a categoria mais importante. "Temos os seus ficheiros e podemos ver que os factos são esmagadores", declarou Philippe Portier. Por último, há os clérigos que alegam que nunca existiram agressões sexuais contra menores no seio da Igreja francesa. "Eles defendem que existe algum tipo de conspiração da Igreja, do Estado e das famílias para derrubar um padre que não tinha razão nenhuma para ser censurado ", acrescentou este especialista.

 

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