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Os maus estão a ganhar
Opinião Mundo 3 min. 09.02.2021

Os maus estão a ganhar

Os maus estão a ganhar

Foto: AFP
Opinião Mundo 3 min. 09.02.2021

Os maus estão a ganhar

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Putin compreendeu há anos – talvez quando invadiu a Geórgia em 2008, talvez quando anexou a Crimeia em 2014, talvez ao passear o exército um pouco por todo o Médio Oriente – que vivemos na Era da Total Impunidade.

"O Bom, o Mau e o Vilão" é o segundo melhor western-spaghetti de sempre. Conta a história de três pistoleiros que se tornam desconfiados parceiros na busca de um tesouro, obrigados a isso porque cada um deles apenas conhece parte da sua localização. No clímax do filme, na sequência da famosa cena do "impasse mexicano", o resultado é intemporal: o mau é castigado com um tiro certeiro, o bruto vilão sobrevive mas de mãos a abanar, e o bom galã parte em direcção ao pôr-do-sol, arma fumegante e ouro na mochila.

Será realista este epílogo moral de recompensa dos bons e punição dos maus? Neste domingo Josep Borrell, o mais alto diplomata europeu, fez uma viagem-relâmpago a Moscovo. Como Vladimir Putin, czar das Rússias há 22 anos, tem ainda um pequeno espinho encravado na garganta – Alex Navalny, um político rival com grande apoio popular –, decidiu mais uma vez usar a força bruta: primeiro mandou envenenar Navalny e como isso falhou (por pouco), agora mandou prendê-lo. 

Putin compreendeu há anos que vivemos na Era da Total Impunidade.

Confiante na importância da UE, seguro dos valores universais da democracia, Borrell foi então conversar com Putin para lhe exigir a libertação do opositor. Em vez de respeito, obteve escárnio; em vez de libertar Navalny, perdeu três diplomatas, expulsos pela Rússia. Voltou a casa humilhado e preocupado pelo nosso futuro geoestratégico.

Putin compreendeu há anos – talvez quando invadiu a Geórgia em 2008, talvez quando anexou a Crimeia em 2014, talvez ao passear o exército um pouco por todo o Médio Oriente – que vivemos na Era da Total Impunidade. O ditador ri-se da indignação mundial, ignora as suas próprias leis, e encarcera em massa os próprios russos. Deu-se ao luxo de fazer eleger Trump como presidente dos EUA, numa espécie de vingança pela derrota na Guerra Fria. Poderia eventualmente ser afectado se a Alemanha, ouvindo os seus parceiros europeus, finalmente desistisse do gasoduto Nordstream 2 – mas Merkel nunca o fará, porque os princípios democráticos são muito bonitos, só que o dinheiro compra mais Mercedes. E, apesar de Biden ter adoptado até agora uma voz grossa com Moscovo, também é duvidoso que essas intenções venham a resultar em consequências reais.

Compreendendo que o sistema global de princípios não oferece punições aos prevaricadores, que ninguém tem a capacidade ou sequer a vontade de defender os povos que caem reféns de "homens fortes", os exemplos de decadência da liberdade multiplicam-se. Vizinho e opositor da UE, Lukashenko oprime os bielorrussos e condena-os à pobreza; mas controlando a polícia, o exército, os tribunais, as eleições e o media, o autocrata nunca teme ser afastado. Exemplos assim multiplicam-se, da Coreia do Norte à China, da Arábia Saudita ao novo regime militar na Birmânia. 

Neste momento, calcula-se que apenas 8,3% da população mundial viva em democracia plena, enquanto mais de um terço dos humanos vivem dentro de um regime autocrático. E a situação tem tendência a piorar. É melhor que nos reconfortemos com os universos equilibrados do cinema, porque no mundo real os maus estão a ganhar – e de goleada.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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