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Os frugais tubarões
Editorial Mundo 4 min. 22.07.2020

Os frugais tubarões

Os frugais tubarões

Editorial Mundo 4 min. 22.07.2020

Os frugais tubarões

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O que defendeu, no Conselho Europeu, o primeiro-ministro dos Países Baixos, não é diferente daquilo que ficou conhecido por política da troika.

A teoria do Governo dos Países Baixos (Holanda) sobre os povos do sul da Europa é racista. A ideia que os trabalhadores portugueses, espanhóis, italianos e franceses são preguiçosos, não trabalham e vivem à custa da União Europeia é desmentida pela realidade e as estatísticas. Os emigrantes portugueses que vivem nos países frugais sabem de ginjeira que a sua capacidade de trabalho e produtividade é igual aos melhores. Os trabalhadores que estão em Portugal sabem que trabalham muito mais horas, por semana, que um cidadão dos países baixos

Durante as negociações, o primeiro-ministro, dos Países Baixos, Mark Rutte, exigiu direito de pernada sobre as políticas dos outros Estados. O dinheiro para combater as consequências sociais e económicas da crise do coronavírus só seria libertado se o seu Governo concordasse com as políticas económicas desses países.

No fundo, o que ele defendeu não é muito diferente daquilo que tem acontecido no processo da integração europeia e sobretudo naquilo que ficou conhecido como as políticas da troika. O diretório dos principais países beneficiados com a integração europeia sempre deram em subsídios e ajudas menos que aquilo que retiraram em autonomia política, económica e monetária. Essa política única económica só deu maus resultados nos países do sul da Europa. A insistência nela, só vai agravar a divergência dessas economias em relação à média europeia.

Esse dinheiro só serviu para pagar a submissão das elites económicas e empresariais dos países do sul da Europa, e remeteu Portugal para uma divisão social da economia e do trabalho na União Europeia altamente subalterna. Portugal, Grécia e até Espanha ficaram com os setores da economia e os empregos de fracas qualificações e mal remunerados. Os generosos subsídios não eram destinados a modernizar o tecido produtivo, mas a criar condições para poderem comprar os produtos do centro da Europa. O que mais cresceu foi o setor da grande distribuição, foram construídas autoestradas para melhor chegar o turismo e os produtos, com mais valor acrescentado, produzidos no centro da Europa.

Nos países do sul, estabeleceu-se um capitalismo rentista especializado em sugar os dinheiros públicos, ganhando subsídios europeus, não acrescentando valor às mercadorias, servindo os interesses de outras economias e colocando as suas mais-valias e dividendos em paraísos fiscais como a Holanda. Quase todas as maiores empresas portuguesas cotadas em bolsa têm sede fiscal nos Países Baixos.

Na altura das negociações sobre os pacotes de ajuda à luta contra a covid-19, os Países Baixos propuseram que, em alternativa à criação conjunta de dívida europeia, fosse criado um “fundo voluntário”. Para esse caridoso mealheiro das esmolas, propunham-se dar cerca de mil milhões de euros. No seu relatório, a organização norte-americana Tax Justice Network veio lembrar que só a Itália perde todos os anos mil milhões e meio de euros para os Países Baixos.

Só contando com as empresas norte-americanas que declaram lucros, não em países do sul da Europa onde têm a sua atividade económica, mas onde lhes é mais rentável, de Portugal fogem 236 milhões de euros por ano; França perde 2,5 mil milhões; Itália e Alemanha 1,4 mil milhões cada uma; e Espanha 900 milhões. O total anda perto dos dez mil milhões euros anuais que o país do frugal dos frugais faz perder a essas economias europeias.

Na sua conta do Twitter, o economista Paul de Grawe lembrou a “arrogância e hipocrisia” do Governo dos Países Baixos, que exige reformas estruturais aos países do sul enquanto opera como um autêntico paraíso fiscal dentro da UE, captando receita fiscal desses países.

Mark Rutte quer ganhar as eleições em março, está convencido que fazer voz grossa aos países do sul da Europa, e assumir as teses do partidos de extrema-direita que concorrem contra ele, vai impedir que seja derrotado. Não percebe que a naturalização das teses racistas, e o seu alargamento aos partidos do centro do tabuleiro europeu, é já uma vitória da extrema-direita: apesar desta ser uma imensa minoria, as suas políticas já têm sede de governo.

O crescimento do populismo na Europa resulta de um processo de integração que não tem sido feito para atenuar as desigualdades sociais, nem minorar o fosso entre os povos da Europa. A ausência de resposta política democrática a esses problemas, somada com a traição das várias elites governamentais, são o caldo cultural que alimenta a deriva xenófoba.

Mas não tenhamos ilusões, esta nova vaga que sacode a Europa é apenas a garantia autoritária para que tudo fique na mesma. 

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