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Opinião. Vitória limpa
Opinião Mundo 2 min. 27.10.2020

Opinião. Vitória limpa

Opinião. Vitória limpa

Foto: Pixabay
Opinião Mundo 2 min. 27.10.2020

Opinião. Vitória limpa

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
As eleições avizinhavam-se e Nikolai andava nervoso: o presidente da câmara de Povalikhino precisava de um adversário. É que na Rússia atual, onde as eleições são frequentemente adulteradas e os membros do partido-quase-único de Putin, "Rússia Unida", ganham quase sempre, é importante montar um palco para representar a "democracia" como peça de teatro.

Assim, as eleições com um só candidato são ilegais: têm de existir pelo menos dois, para manter a ilusão. Nikolai Loktev até já tinha tentado convencer antigos opositores e o seu próprio vice-presidente a concorrer contra ele. Tudo sem sucesso. À última hora, ao passar pela senhora de limpeza que esfregava o chão da mairie (uma palavra que também existe em russo, tendo ficado dos tempos napoleónicos), tentou desesperadamente convencê-la a apresentar o seu nome como candidata. 

Ela, para não contrariar o patrão, concordou; as eleições eram daí a uns dias, Nikolai – como todos os Nikolais em todas as comunas – seria outra vez carimbado como presidente, e ninguém falaria mais no assunto. Marina não fez uma única ação de campanha, não pôs nenhum cartaz, não organizou nenhum jantar de apoio: simplesmente continuou a ir limpar casas, entre estas a modesta sede do município.

Só que a senhora de limpeza ganhou.

Quando viu os resultados (87 contra 48, quase o dobro dos votos) Marina, incrédula, pensou em desistir, só que ao fazê-lo teria de pagar do seu bolso as novas eleições. Logo, avançou mesmo e até já tomou posse, duplicando o salário para 350 euros por mês. O seu programa político consiste em instalar iluminação nas ruas – isto depois de encontrar quem a substitua nas limpezas, claro.

A história de Marina Udgodskaya tornou-se conhecida até mesmo internacionalmente – quem não aprecia uma Cinderela em versão moderna. Mas sem dúvida há algo mais profundo que transparece aqui. Num meio pequeno, onde todos a conhecem pessoalmente, a inocente técnica auxiliar de limpeza representou a oportunidade de um perfeito voto de protesto, uma heroína improvável para abanar um sistema que organiza eleições com toda a pontualidade, mas onde o vencedor já está decidido "desde cima", de antemão. Ou seja, uma democracia de fachada, sem escolhas, sem confronto de ideias e soluções.

Nas últimas eleições autárquicas da mesma Rússia, em 2015, uma sondagem a 2000 habitantes de outra cidade perguntando em quem votariam acrescentou aos seis candidatos reais (vários deles com um historial de corrupção) um sétimo, chamado Barsik, que era... um gato persa; e o gato obteve 90% das intenções de voto. Mas nada de cair na armadilha de pensar que estas farsas são novas e só existem bem longe, lá nas estepes. 

Já há dois milénios o cavalo favorito do imperador Calígula foi designado senador de Roma... e nas nossas consolidadas, sérias e modernas democracias da Europa ocidental, o nível de desencanto e de revolta com as opções disponíveis parece aumentar a cada ronda. Com ou sem razão para tal, há muitos concidadãos que julgam viver dentro de uma democracia de fachada, sem escolhas, sem confronto de ideias e soluções. Pense bem: se na sua comuna de residência aparecesse, de repente e sem qualquer experiência, uma simpática senhora de limpeza como candidata, ela poderia vencer? Exato...

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