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Opinião. Terrível simbolismo
Editorial Mundo 2 min. 17.04.2019

Opinião. Terrível simbolismo

Opinião. Terrível simbolismo

Foto: AFP
Editorial Mundo 2 min. 17.04.2019

Opinião. Terrível simbolismo

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Num tempo de incertezas, o incêndio num espaço tão nobre da cultura e da civilização da Europa como é Notre-Dame envolve uma terrível carga simbólica.

As imagens da destruição pelo fogo de parte substancial da catedral de Notre-Dame correram mundo e deixaram horrorizados todos os que as viram. Mesmo que o corajoso combate de centenas de bombeiros tenha impedido a destruição total, é evidente que os danos causados em tesouros e documentos históricos são, em múltiplos casos, irreparáveis. E só os mais obtusos terão dificuldade em perceber que se trata de muito mais do que uma perda de caráter religioso ou católico – é uma perda cultural para toda a Humanidade.

Mas, num tempo de tantas incertezas, quer em França, quer na Europa, o incêndio num espaço tão nobre da cultura e da civilização como é a catedral de Notre-Dame envolve uma terrível carga simbólica tão perto da Páscoa. Durante aquelas horas de incredulidade horrorizada e de apelo a todas as forças para acabar de vez com as chamas, foi impossível não associar a ideia de uma França e de uma Europa abaladas por crises sociais, económicas e, acima de tudo, de valores. As chamas que só precisaram de minutos para consumir mais de oito séculos de História lembram forças destruidoras que pouco tempo têm demorado para minar as fundações do país da legalidade - as manifestações dos coletes amarelos têm mostrado que a liberdade ficou afetada -, da igualdade e da fraternidade. Mas também servem como metáfora para as sombras que pairam sobre a Europa, recheada de dúvidas a propósito dos seus ideais e outra vez perturbada por nacionalismos, populismos e extremismos. O Brexit e toda a confusão que se tem gerado em função desse processo são apenas exemplos.

Estão em curso investigações e inquéritos que devem esclarecer as origens do fogo, mesmo que, numa primeira análise, os bombeiros se refiram à provável ligação às obras de conservação que decorriam e apesar de todas as dificuldades em casos deste género. Começaram também os anúncios de apoios financeiros que serão dedicados à reconstrução, nunca sendo de excluir que não faltarão os oportunistas capazes de tudo para se aproveitarem de momentos nefastos como este.

Seja qual for o resultado dessas avaliações e das doações, fixemo-nos nas primeiras palavras de Emmanuel Macron quando o fogo ainda não fora extinto: o Presidente francês falou em reconstrução e numa grande operação à escala nacional e internacional para congregar fundos e talento. É fundamental que, ao contrário do que tem sido o seu percurso na presidência, Macron não vacile e saiba estar próximo do cidadão comum, porque vai precisar de todos neste esforço de recuperação depois de tão doloroso acontecimento. Por outro lado, agora como em diversas outras ocasiões, a França precisa de solidariedade. Se nem assim a Europa e o mundo forem capazes de unir esforços e falar a uma só voz, então todos os princípios que deveriam orientar os seres humanos se perderam.

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