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OPINIÃO: Pensamento fresquinho

OPINIÃO: Pensamento fresquinho

Foto: AFP
Editorial Mundo 2 min. 13.12.2017

OPINIÃO: Pensamento fresquinho

“Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém”, lê-se na Bíblia. Sendo o local onde se originou a religião cristã, é natural que a cidade ali figure proeminentemente. E então Trump foi e gritou.

Por Hugo Guedes - “Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém”, lê-se na Bíblia. Sendo o local onde se originou a religião cristã, é natural que a cidade ali figure proeminentemente. E então Trump foi e gritou.

O presidente tem uma enorme base de apoio entre a direita evangélica dos EUA, e a sua eleição era também desejada por poderosos interesses israelitas, mas mesmo à luz destas influências é difícil compreender a sua decisão de reconhecer a Cidade Santa como a capital, bem terrena, de Israel. Não por acaso, muitos cartoons sobre o tema repetem a ideia de um homem louro e fora de si que de repente atinge, com uma paulada, um vespeiro.

Cidade sagrada para três grandes religiões que se sobrepõem, que ocupam os mesmos exíguos espaços, e cujos representantes já a dominaram em algum ponto da História, Jerusalém é a jóia da coroa – e logo, também, o assunto mais espinhoso de resolver – no processo de paz israelo-palestino.

Mas ao sê-lo, é ao mesmo tempo um importantíssimo motivador para que os dois lados (e sobretudo aquele que está na mó de cima, Israel) permaneçam comprometidos com um acordo final que assegure a coexistência pacífica.

Se o mediador com mais peso – os EUA – oferecem de mão beijada o grande prémio a uma das partes, sem sequer exigir nenhuma concessão em troca, e mesmo contra uma inédita barragem de críticas dos seus aliados, isso significa muito simplesmente que o processo de paz está acabado.

Israel vence em toda a linha e o seu primeiro-ministro, Netanyahu, já teve em Bruxelas e neste mesmo dia em que escrevo a oportunidade de se vangloriar um pouco. “Todos ou muitos dos países europeus vão seguir os EUA e mudar as suas embaixadas para Jerusalém, mesmo que não exista um acordo com os palestinos”, afirmou, no que foi prontamente negado pelos representantes da UE.

Embora existam dúvidas sobre a credibilidade de uma intenção trumpiana (num ano, o presidente americano já disse imenso, mas fez muito pouco), a preocupação é indisfarçável: o mundo acaba de se tornar um lugar um pouco mais instável, um pouco mais perigoso, até porque os desequilibrados mentais que desejam espalhar o terror pelo mundo ocidental gostam de usar a suposta “opressão” dos seus “irmãos palestinos” como pretexto para o injustificável.

O próprio Trump classificou a sua ideia de “pensamento fresco”, mas ele parece congelado há várias décadas. Abrir duas embaixadas em Jerusalém, sendo a segunda na parte Oriental, para lidar com um hipotético Estado da Palestina: isso sim, seria pensamento fresquinho. Viveríamos em paz, e talvez isto garantisse a Trump um segundo mandato na Casa Branca.

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