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OPINIÃO: O último rei da Europa
O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker

OPINIÃO: O último rei da Europa

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O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker
Mundo 2 min. 08.03.2017

OPINIÃO: O último rei da Europa

Em “O último rei da Escócia”, o tresloucado ditador africano Idi Amin, que a todos aterrorizava, é contrariado pelo seu médico escocês; a sua reação é de surpresa e admiração. “Aqui está o tipo de pessoa de que um presidente necessita ter por perto: um homem que não tem medo de dizer aquilo que pensa.”

Em “O último rei da Escócia”, o tresloucado ditador africano Idi Amin, que a todos aterrorizava, é contrariado pelo seu médico escocês; a sua reação é de surpresa e admiração. “Aqui está o tipo de pessoa de que um presidente necessita ter por perto: um homem que não tem medo de dizer aquilo que pensa.”

O presidente da Comissão Europeia (CE), Jean-Claude Juncker, bem podia usar alguns conselhos. Sem eles, arrisca-se a tornar-se no último ocupante de um cargo cuja irrelevância é crescente, sobretudo depois da década perdida sob a “orientação” de Barroso, o presidente desastroso.

Acontece que o Executivo Juncker convive com a pior crise de sempre do projeto europeu, entre os estilhaços do Brexit, de um euro desequilibrado, o fluxo constante de refugiados, o recrudescer dos nacionalismos, ameaças externas. A urgência de um relançamento, de um novo impulso para o ideal europeu, é evidente.

Mas, não só este não acontece, como a Comissão Europeia acaba de perder mais uma excelente oportunidade para o fazer, ao publicar os seus “5 cenários para o futuro da Europa”. Um tremendo erro político. Apresentar tristemente, com o ar de quem está a preparar-se para alguma desgraça, cinco cenários de futurologia não é o trabalho que se espera de Juncker.

A Comissão Europeia é o motor da integração europeia; cabe-lhe, por entre interesses e opiniões muitas vezes divergentes, impulsionar o navio de forma fiável, firme e segura. Apresentar um menu aos Estados-membros, para que cada um destes pugne pela opção que mais lhe agrada, é o contrário disso: é demitir-se das suas responsabilidades, procurando assacar culpas aos países por não se terem entendido quanto ao rumo a tomar, e/ou por o terem escolhido mal.

Sim, porque a Comissão Europeia nem sequer se digna a indicar qual o seu cenário preferido. Quando o faz de forma velada é para defender a Europa a várias velocidades, a velha ideia que sempre horrorizou os federalistas, sabedores do que esta significa: menos ambição, menos capacidades, e um completo domínio dos grandes países centrais. Não por acaso a Alemanha e a França vieram saudar a ideia no próprio dia da apresentação, perante o horror dos países de Leste e do Sul do continente.

Juncker fez um verdadeiro convite a que os países encontrem o mínimo denominador comum para a Europa. E não deixa de ser irónico que um (improvável) apocalíptico cenário 6 – o fim da Europa unida – não tenha sido incluído: sem querer, a Comissão deu um pequeno passo na sua direção.

Hugo Guedes

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