OPINIÃO: Guerra de nervos

Foto: AFP

Sergio Ferreira Borges

A crise na península da Coreia parece ser o prenúncio de uma guerra nuclear. Se acontecer, terá consequências trágicas para todo o mundo e ninguém sabe qual é a causa.

O jovem líder do regime dinástico da Coreia do Norte está para já a vencer uma guerra de nervos contra os Estados Unidos, contra o o Ocidente e contra o planeta. Ninguém sabe, ao certo, o que ele pretende fazer com o potencial nuclear que ao longo dos anos foi criando, perante a passividade internacional.

Já no tempo do avô, Kim Il-sung, o regime não era confiável e foi piorando com os sucessores. A Coreia do Norte parece estar contra o mundo e ninguém sabe porquê. É uma ditadura com todos os defeitos inerentes e mais alguns, de natureza idiossincrática. O actual líder, Kim Jong-un, é um caso de foro psiquiátrico.

A sua primeira ambição seria, com certeza, anexar a Coreia do Sul e tornar-se numa potência regional. Mas é evidente que a própria China, o seu último aliado, não ficaria tranquila se essa hipótese algum dia se concretizasse, porque abalaria a influência regional de Pequim. Além disso, é militarmente impossível, porque além da capacidade da Coreia do Sul, os Estados Unidos mantêm um importante dispositivo militar, ao longo do paralelo 38, a fronteira entre as duas Coreias, estabelecida depois da II Guerra.

E talvez seja esta presença militar norte-americana que irrite Kim Jong-un. Sem ela, talvez Kim tivesse a tentação de invadir a Coreia do Sul, esperando que o Japão ficasse de braços cruzados e que a China o apoiasse nessa aventura.

Mas faltam muitas certezas, porque o seu pensamento é blindado, inacessível. Ninguém conhece um discurso dele, ninguém sabe o que ele diz ao seu povo. Aparecem apenas frases avulsas, quase sempre de propaganda ao regime e ameaça ao mundo. Uma das mais recentes chega a ser enigmática. Diz ele e os seus porta-vozes que a Coreia do Norte tem direito à auto-defesa. É evidente que ninguém lhe nega tal direito, mas é impossível aceitar que essa auto-defesa passe pelos constantes ensaios nucleares, o último, com uma bomba de hidrogénio com uma capacidade de destruição 100 vezes superior à de Hiroshima.

Cientistas nucleares dizem que, nas duas semanas seguintes à deflagração de uma bomba deste calibre, 50 a 60 por cento da população da região atingida morrerá, vítima das suas consequências. No imediato, morrerá 30 a 40 por cento. A destruição material, como casas, será arrasadora.

Com este quadro, pode dizer-se que a guerra já começou. Por enquanto, é apenas uma guerra de nervos, mas pode vir a ser uma coisa muito pior. Como é que isto se evita? É uma pergunta que continua sem resposta.

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