OPINIÃO: Estes britânicos estão loucos

Theresa May
Foto: AFP

Por Hugo Guedes - O álbum de BD “Astérix entre os Bretões” é uma sátira carinhosa: por entre referências às diferenças gastronómicas ou de temperamento entre os folgazões gauleses e os fleumáticos anglo-saxões, o génio literário de Goscinny deixa entrever nos britânicos uma certa soberba polvilhada com boas doses de extravagância. Mas essa extravagância transbordou, e leva agora a sociedade britânica por caminhos ínvios, cada vez mais estreitos.

O referendo do Brexit, convocado pelo primeiro-ministro da altura apenas como táctica para apaziguar as vozes mais incómodas no seu partido, resultou num terramoto de consequências catastróficas e duradouras, e a primeira vítima foi o próprio David Cameron. Este era um profundo eurocéptico que, nos poucos meses de campanha antes do referendo, tinha feito uma (nada convincente) viragem de 180º a favor da UE; Theresa May, que o substituiu após um golpe palaciano, fez o percurso contrário.

Ao chegar a Downing Street, a antiga ministra do Interior começou a deslocar a Grã-Bretanha cada vez mais para a direita do espectro político, talvez julgando poder assim cumprir o sonho de tornar os Conservadores numa espécie de PRI (partido que governou o México por 70 anos consecutivos). Pensando que este era o momento certo para consegui-lo, convocou eleições por razões de pura tática eleitoral – e perdeu votos, deputados, credibilidade e poder.

Há um par de anos, quando o Brexit não era mais do que um espectro longínquo, Juncker respondeu que se o Reino Unido quisesse sair da UE seria como “ver um amigo a caminhar em direcção à selva e a perder-se lá”. As suas palavras eram premonitórias, e May embrenhou o país numa selva em que a economia e o investimento encolhem, o sistema nacional de saúde não é sustentável, os impostos sobre os mais desfavorecidos sobem, a evasão fiscal dos poderosos não é combatida, e a Carta Universal dos Direitos Humanos é letra morta em nome da luta anti-terrorismo que tinha sido comprometida antes por May, ela mesma. Simbolicamente, até a caça à raposa, passatempo cruel de meia-dúzia de endinheirados, foi recuperada pela candidata como tema – enquanto as infinitamente mais importantes negociações sobre o Brexit quase parecem esquecidas.

Privados de uma boa opção, os britânicos responderam “nim” nas eleições. A “confusão resultante” (palavras de May) torna um acordo sobre o Brexit ainda mais improvável; daqui a dois anos, viver-se-ão dias caóticos na Europa de ambos os lados da Mancha.

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