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Opinião. Dona Disto Tudo
Editorial Mundo 3 min. 22.01.2020

Opinião. Dona Disto Tudo

Opinião. Dona Disto Tudo

Foto: Lusa
Editorial Mundo 3 min. 22.01.2020

Opinião. Dona Disto Tudo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Notícia de última hora: a família dos Santos construiu um regime corrupto em Angola que lhes permitiu apoderarem-se do petróleo do país e tornarem-se das pessoas mais fabulosamente ricas no planeta.

Há pelo menos duas ou três décadas que qualquer pessoa em Portugal sabe isto, mas o mundo não sabia até este domingo, em que alguns dos bons jornais que ainda nos restam publicaram o filão de 715 000 emails, contratos, auditorias e contas bancárias que pintam um quadro pormenorizado das negociatas de Isabel dos Santos, a filha do antigo presidente, chamada de "a princesa". Mas melhor cognome seria a adaptação daquele que Ricardo Salgado tanto gostava: a "Dona Disto Tudo". Alguém como ela, que graças ao capitalismo nepotista instaurado pelo papá amealhou uma fortuna de (muito) mais de dois mil milhões de euros, bem pode comprar tudo – e todos – conforme lhe apeteça.

E oh se Isabel comprou. Aproveitando os tempos em que um Portugal massacrado pelos amigos da austeridade entrou em saldos, ela liderou a angolinização da economia lusitana. Para além da influência entre políticos e banqueiros, e através de testas-de-ferro e empresas em cascata sediadas em Malta, Países Baixos, Luxemburgo ou Dubai (no total são 423 sociedades em 41 países diferentes, a maior parte em paraísos fiscais), a nova DDT detém ali o controlo total ou parcial de empresas estratégicas, a começar pela Galp, mas continuando pelos setores da energia (a Efacec), banca (EuroBIC, a quem foram oferecidas as partes boas do BPN enquanto os contribuintes ainda estão a pagar os seus ativos tóxicos), as telecomunicações (a NOS) e ainda mais 138 empresas… entre elas provavelmente todos os media portugueses, que de tão convenientemente domesticados apenas emitem, há anos, um silêncio ensurdecedor em tudo o que diga respeito ao regime angolano.


(FILES) In this file photo taken on March 5, 2015 Angolan businesswoman Isabel dos Santos arrives to the opening of an art exhibition in Porto, northern Portugal. - An award-winning investigative team published a trove of files on January 19, 2020 allegedly showing how Africa's richest woman syphoned hundreds of millions of dollars of public money into offshore accounts. Its latest series called "Luanda Leaks" zeros in on Isabel dos Santos, the daughter of former Angola president Jose Eduardo dos Santos. (Photo by FERNANDO VELUDO / PUBLICO / AFP)
A fortuna de Isabel dos Santos também se construiu no Luxemburgo
Empresária usou fundos estatais angolanos, um dos países mais pobres do mundo, para adquirir participações na marca de jóias suíça De Grisogono – em parte através de uma empresa de fachada no Luxemburgo. Só nesta jogada, Angola perdeu 120 milhões de dólares (108,2 milhões de euros).

Angola é o segundo maior produtor africano de petróleo, produto que representa 95% das exportações em valor. Há ali reservas de 8400 milhões de barris. Em 2015 as receitas anuais atingiram os 60 mil milhões (mais de três vezes o orçamento do Luxemburgo) e a economia crescia a 11%, tornando Luanda a cidade mais cara do mundo. 

O país podia ter-se reconstruído, progredido, ser uma nova Noruega ou pelo menos um Botsuana. Só que a realidade não poderia ser mais contrastante. Todo o bolo foi abocanhado por um punhado de oligarcas; mais de metade da população vive em pobreza extrema, sobrevivendo com menos de dois dólares por dia, que é aliás o salário médio do país. Não há, para a grande maioria, saneamento básico, eletricidade durante a noite, educação durante o dia, estradas ou hospitais. Os produtos básicos custam uma pequena fortuna porque as minas antipessoal plantadas durante a longa guerra civil impedem a utilização dos solos para outras colheitas menos explosivas.


Isabel dos Santos diz que investigação baseia-se em documentos falsos
A investigação do ICIJ analisou milhares de ficheiros relativos aos negócios de Isabel dos Santos, que ajudam a reconstruir o caminho que a levou a tornar-se a mulher mais rica de África. Empresária diz que informações são falsas e que fugas foram coordenadas com Governo angolano.

Um país mantido na miséria e ignorância por os seus recursos terem sido capturados por uma elite gananciosa, venal, corrupta e mentirosa que, quando apanhada, se apresenta como exemplo e vítima: no fundo esta história, longe de ser um exclusivo angolano, já se tornou banal de tão repetida pelo mundo. Ao menos que os Luanda Leaks tenham mais consequências que os Panama Papers ou os Luxleaks, e que sejam seguidos por outras revelações – sugiro por exemplo os Malta Leaks, os Bolsonaro Papers… ou os Rui Pinto Files.


Editorial. Jornalismo atento e vigilante
Preocupado com a ascenção da extrema direita, que nalguns países ocupa lugares no parlamento, e que mesmo aqui ao lado em França luta pela cadeira presidencial, Xavier Bettel numa entrevista exclusiva ao Contacto, recorda que “Hitler foi eleito” e que é preciso fazer alguma coisa para que “a história não se repita”.

Sim, aqui resta a pergunta dos 3 mil milhões de dólares: porque é que a Justiça portuguesa ouve e usa dados sobre corrupção de um lado, e prende os denunciantes no outro? A resposta é simples: as informações de Rui Pinto implicam muitos políticos nacionais, empresários lisboetas, e um presidente de um grande clube de futebol que é também um grande devedor à banca. 

Em resumo, pessoas poderosas. E Portugal, país cheio de cobardes que baixam a cabeça, sempre protegeu muito bem os seus poderosos, com a preciosa ajuda de uma Justiça impotente e presunçosa. Isabel dos Santos foi agora viver para o Dubai, mas o mais seguro para ela seria mesmo radicar-se calmamente em Lisboa.


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A queda da princesa de Angola
Numa semana, Isabel dos Santos, a mulher mais rica de África, passou de princesa a arguida, e a elite mundial dos negócios está a virar-lhe as costas. No meio do escândalo internacional há negócios feitos em Portugal que estão a ser vistos com outros olhos. A filha de Eduardo dos Santos diz-se vítima de perseguição política.