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Opinião. Desta vez eu votei – da próxima vou à praia
Editorial Mundo 4 min. 13.07.2019

Opinião. Desta vez eu votei – da próxima vou à praia

Opinião. Desta vez eu votei – da próxima vou à praia

Foto: AFP
Editorial Mundo 4 min. 13.07.2019

Opinião. Desta vez eu votei – da próxima vou à praia

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O Conselho reuniu-se à porta fechada, os nomes foram negociados nos bastidores, debaixo da mesa, em segredo, longe, muito longe dos cidadãos, dos seus votos e das suas preocupações. Os líderes nacionais escolheram, às tantas da madrugada, mais alguém da Alemanha austeritária para liderar a Europa.

“Desta vez eu voto!”, dizia o cartaz. A campanha de apelo ao voto financiada pelo orçamento europeu, disponível em todos os 28 países e todas as línguas oficiais, usou meios e ideias muito mais sofisticados que o habitual – alguns momentos, como o do vídeo com um recém-nascido que podia “escolher a Europa em que vai crescer”, tornaram-se até virais, o que é óptimo sabendo que o incentivo se dirigiu sobretudo aos eleitores mais jovens, cujo desinteresse pela política atinge níveis recorde. E o “desta vez eu voto!” pode gabar-se de ter obtido resultados: a participação nas eleições europeias subiu muito desde 2014, conseguindo derrotar a abstenção: 51% dos inscritos votaram, e também subiu o número dos que o fizeram pela primeira vez.

Também assistimos a um ressurgir dos ideais europeístas, a par de um congelar das ambições de partidos demagógicos ávidos por desmembrar a UE. Claro que não foi apenas devido a uma pequena campanha oficial que isto aconteceu; foi sobretudo porque os cidadãos europeus acreditam que a UE está verdadeiramente em perigo, e quiseram defendê-la contra a praga dos autoritarismos nacionalistas iliberais; foi também porque mais gente acreditou que o seu voto serviria para escolher as prioridades da Europa em combater os problemas que esta enfrenta – e são tantos!; foi ainda porque há uma crescente, indisfarçável e genuína preocupação com o futuro para onde caminhamos e o planeta que (cada vez menos) sustenta esse futuro.

Finalmente, foi porque, contrariando os que olham para o copo meio vazio repetindo o mantra “não existe uma consciência europeia, só 28 realidades nacionais desligadas”, ela no entanto move-se: apesar de tantas vezes sabotadas por Merkel, as listas transnacionais vão fazendo o seu caminho (o novo partido Volt concorreu em oito países, elegeu um deputado na Alemanha, obteve 2,1% dos votos no Luxemburgo). E os grupos políticos do Parlamento Europeu, um de cada área ideológica, apresentaram os seus candidatos à Comissão. Esses candidatos passaram meses em campanha para serem os escolhidos, fizeram debates “à americana” na TV, construíram plataformas programáticas com propostas e escolhas. Conhecíamos as suas caras (pelo menos quem seguisse as notícias conhecia) e sabíamos ao que vinham (idem). Havia possibilidades para a criação de uma maioria euroentusiasta (com socialistas, verdes e centristas liderados por Macron) que retiraria finalmente a condução da Europa das mãos dos democratas-cristãos, após longos e sofríveis 15 anos.

Só que a Europa tem um grave problema sistémico: o PE é claramente a menos poderosa das instituições de Bruxelas. Nos anos 1990, o poder caiu nas mãos do Conselho – uma instituição europeia cuja filosofia de base é na verdade contraditória, pois reúne os diferentes governos nacionais que pensam exclusivamente no interesse egoísta do seu quintal. Nem teria de ser forçosamente assim, mas não há actualmente nenhum(a) líder nacional que defenda o bem comum da Europa – nem sequer Macron, muito menos Merkel.

O Conselho reuniu-se à porta fechada, os nomes foram negociados nos bastidores, debaixo da mesa, em segredo, longe, muito longe dos cidadãos, dos seus votos e das suas preocupações. Os líderes nacionais escolheram, às tantas da madrugada, mais alguém da Alemanha austeritária para liderar a Europa. Mas há pior. Ursula von der Leyen é um nome perfeitamente anónimo fora do seu país, uma ministra da Defesa cujo pensamento europeu, se existe, também é desconhecido e cujas credenciais ambientalistas são absolutamente nulas. Mas há pior: os democratas-cristãos impõem mais uma pessoa para seguir as instruções de Berlim. Mas há pior. Foram os governos anti-europeus (a não ser quando toca a receber fundos) da Hungria e da Polónia a vetar, por vingança, bons candidatos que têm feito excelente trabalho como comissários europeus (Timmermans e Vestager). Mas há pior. Na sua soberba de verdadeiros reis e senhores, os primeiro-ministros(as) reunidos no Conselho também foram ao desplante de escolher entre eles, cuspindo em qualquer semblante de democracia e renegando as suas promessas recentes, os nomes para liderar o próprio Conselho, mas também o PE e o Banco Central.

A decepção é evidente e os seus efeitos profundos. O Conselho acaba de desferir (mais um) golpe à credibilidade da construção europeia. O PE, humilhado, tem aqui uma oportunidade de ouro de repor a sanidade e ao mesmo tempo alcançar o respeito que reclama – bastaria votar contra este cozinhado envenenado. Mas isso não vai acontecer…. E como pedir aos cidadãos, da próxima vez, para participar no processo se é depois evidente que as decisões são tomadas em segredo nos bastidores? Uma possível evolução do slogan de apelo ao voto soa mais realista: “Desta vez eu ainda votei – da próxima vou é à praia”.

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