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Opinião. Brexit? Que Brexit?
Editorial Mundo 3 min. 29.01.2020

Opinião. Brexit? Que Brexit?

Opinião. Brexit? Que Brexit?

Foto: John Stillwell/PA Wire/dpa
Editorial Mundo 3 min. 29.01.2020

Opinião. Brexit? Que Brexit?

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Daqui a um par de dias o Reino Unido deixa de pertencer à União Europeia. Crise? Que crise? Os jornais, a tv, as pessoas no pub só discutem o Megxit.

Em 1975 os britânicos Supertramp lançaram um álbum cuja capa mostrava um homem de calções de banho e óculos escuros, sentado numa cadeira de lona, debaixo de um guarda-sol. Só que em vez de uma praia, à sua volta havia fábricas, uma série de chaminés fumarentas e escuras, entulho e ruínas, numa foto tirada nas então falidas minas do País de Gales. O álbum chamava-se “Crisis? What Crisis?”; a capa simbolizava a atitude de quem nega a realidade em vez de a enfrentar.

Daqui a um par de dias, o Reino Unido deixa de pertencer à União Europeia. Um acontecimento sísmico que põe fim a um longo casamento de 47 anos, uma relação com pouco amor mas muito interessante para ambas as partes. Os britânicos deixaram uma marca forte na Europa que hoje existe, sobretudo na construção do Mercado Único, no comércio internacional, na política de concorrência, na política de auxílio às regiões mais pobres (entre elas as que acabaram por votar por sair). Mas também no alargamento, na mudança dos subsídios para a agricultura, no acabar com uma certa cultura estatista e imobilista modelada pelos franceses. 

Com a perda do Reino Unido, a Europa perde a sua segunda maior economia, o seu segundo país mais populoso, o seu maior exército, o seu parlamento mais antigo, uma das suas duas potências nucleares e um dos seus dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Será uma Europa menos forte e mais dividida, menos capaz de bater o pé na cena internacional aos EUA, à China ou à Rússia. É o golpe mais profundo até hoje infligido na bonita história que tem sido a construção europeia.

O que está no parágrafo acima diz respeito ao lado que tem menos a perder com este divórcio. Objectivamente, se olharmos para lá da retórica nacional-populista, o Reino Unido prepara-se para dar um enorme tiro no pé. O país já sofreu nestes anos cortes na sua prosperidade – a libra perdeu 15% do seu valor, o investimento no país estagnou, muitas empresas mudaram as suas sedes para os Países Baixos ou o Luxemburgo. 

Os sem-abrigo multiplicaram-se nas grandes cidades britânicas. Mas isso é apenas no curto prazo, em que o período de transição continua a vigorar (até ao fim deste ano) e continua a haver livre circulação de pessoas, bens, capitais e serviços entre o continente e as ilhas; no futuro próximo, a riqueza, influência e coesão do país serão certamente afectadas. E não esqueçamos que é mesmo possível que o próprio reino já não unido perca a Escócia ou a Irlanda do Norte, o que acrescentaria à previsível crise económica uma verdadeira crise de identidade.


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 Crise? Que crise? O Brexit acontece daqui a dois dias e, nas ruas de Londres, Manchester ou Newcastle, ninguém fala da dolorosa ferida, é como se não existisse. Em vez de se debruçarem sobre o tema mais importante do país, os cidadãos demitem-se da realidade e recorrem a tudo o que sirva de estratégia escapista. Os jornais, a tv, as pessoas no pub só discutem o Megxit – a demissão de Harry Windsor, sexto em linha para o trono, e da sua esposa Meghan, abdicando dos vastos dinheiros públicos absorvidos pela realeza (entre eles os fundos europeus da Política Agrícola Comum, dos quais a rainha Isabel é a maior recebedora na UE).

O poder de votar traz responsabilidade. A alienação colectiva sobre as telenovelas da realeza, em 2020 representa uma demissão das nossas responsabilidades enquanto cidadãos. Se construímos realidades alternativas e escolhemos ignorar os verdadeiros problemas que nos tocam, podemos ter a certeza que alguém vai decidir por nós – e não de acordo com os nossos interesses. Se preferimos ignorar as consequências do Brexit e encher o cérebro devorando tudo o que há para saber sobre o Megxit, talvez não estejamos qualificados para votar em referendos sobre a Europa. Quando muito poderíamos dar uma opinião sobre quem deveria ser a próxima rainha ou chefe de Estado, e parece que isso já está inventado: chamam-se presidenciais.


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