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Opinião. Bem-vindos aos loucos anos 20
Editorial Mundo 3 min. 09.01.2020

Opinião. Bem-vindos aos loucos anos 20

Opinião. Bem-vindos aos loucos anos 20

Foto: AFP
Editorial Mundo 3 min. 09.01.2020

Opinião. Bem-vindos aos loucos anos 20

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Se fizéssemos a curta viagem no tempo até 2010 – afinal, apenas ontem – o que nos pareceria estranho?

Em plena Grande Depressão, Frederick Lewis Allen escreveu um livro de "jornalismo retrospetivo" – foi ele próprio a inventar a frase – sobre a década que tinha acabado de terminar. "Ainda Ontem" foi então um fenomenal sucesso, fazendo a cronologia de uns "loucos anos 20" que tinham apenas acabado de terminar, mas onde a memória das festas extravagantes, dos clubes de jazz e dos automóveis Ford novos estava já enterrada pela brutal realidade do crash bolsista e do desemprego de massas. No livro, o autor pede aos leitores para imaginarem que viajam uma década para trás no tempo, até 1920, e identificarem o que lhes pareceria estranho à luz do que agora sabem.

Vários livros bem escritos foram aparecendo no final de cada década procurando fazer um balanço dos dez anos que acabavam de findar, e lançando pistas para os seguintes. O final de 2009 não foi exceção – e ler esses livros agora impressiona pelo tom róseo, pelo otimismo mal disfarçado subjacente (e isto apesar de desastres como o 11 de setembro, a guerra no Iraque ou outro grande crash financeiro, em 2008).

Só que desta vez... (quase) nada. Estamos todos aturdidos com a "década de 10". Ninguém se atreve, pelos vistos, a tentar definir os passados dez anos sob formato livro – e muito menos a tentar identificar evoluções e prever acontecimentos baseados na mesma.

Se fizéssemos a curta viagem no tempo até 2010 – afinal, apenas ontem – o que nos pareceria estranho? Donald Trump era então apresentador de concursos televisivos de gosto duvidoso. José Sócrates era um popular primeiro-ministro, Juncker tinha acabado de ser reeleito para o mesmo cargo. Boris Johnson era presidente da câmara e nem fazia parte da pequena minoria extremista que almejava um Brexit; Emmanuel Macron dava os primeiros passos como associado no banco Rothschild e na Alemanha a extrema-direita não existia no parlamento (hoje a AfD tem 93 deputados).

Trump, esse Grande Gatsby sem charme ou classe, pensou que a melhor forma de ser reeleito era mexer no vespeiro do Médio Oriente, assassinou um general iraniano.  

No final de 2009, este espaço de jornal já existia e eu escrevia sobre "a iminente entrada da Google num mercado de telemóveis ainda dominado pela Nokia, com os seus 39% globais". As possibilidades abertas pelos novos smartphones, sempre connosco, sempre ligados à rede, prometiam um "admirável mundo novo" de abertura, conhecimento e democratização globais. E nós, ainda ontem, quando o Facebook apenas servia para encontrar amigos a quem tínhamos perdido o rastro, acreditávamos nessas promessas enquanto ditadores e demagogos iam comprando as redes sociais para nos inundar de fake news e transformar as democracias numa farsa sem fim.

No futuro, se ainda existirem historiadores, é provável que eles identifiquem a "década de 10" como aquele momento crucial da História em que a crise climática se tornou primeiro irrefutável e depois urgente. Por todo o lado onde olhemos há fenómenos extremos, perda de locais habitáveis, extinções em massa, falta de água potável e ar respirável, alterações forçadas de comportamento. Ainda ontem tivemos oportunidades, talvez as últimas oportunidades, de estancar a infeção predatória do planeta e mudar de vida antes que fosse tarde demais. Por comodismo, irresponsabilidade, incapacidade ou simplesmente distraídos e entretidos pela constante sucessão de acontecimentos mais ou menos irrelevantes, não o fizemos.

2020 deu-nos um dia para descansar. Ao seu segundo dia, 2 de janeiro, acordou-nos com a distracção mais potente que existe: a guerra. Trump, esse Grande Gatsby sem charme ou classe, pensou que a melhor forma de ser reeleito era mexer no vespeiro do Médio Oriente, assassinou um general iraniano e deu o tiro de partida para uns novos loucos anos 20, desta vez sem jazz mas outra vez com fascismos. Bem-vindos.