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Opinião. As calças molhadas de Guterres
Editorial Mundo 4 min. 20.06.2019

Opinião. As calças molhadas de Guterres

Editorial Mundo 4 min. 20.06.2019

Opinião. As calças molhadas de Guterres

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Só três portugueses tinham tido honras de capa da Time.
Guterres foi capa da última revista Time.
Guterres foi capa da última revista Time.

Antes que digam que a Time já não é relevante, relembro que a revista era um verdadeiro relógio dos tempos, com uma enorme influência não apenas opinativa como também social, cultural e política. Mesmo hoje, a publicação que inventou o formato da informação semanal em revista (tem aliás a maior circulação do mundo neste segmento) continua a chegar a 20 milhões de leitores.

Desde a criação da revista, há quase um século, só por três vezes a capa tinha apresentado personalidades portuguesas. A primeira foi em julho de 1946 e na imagem, rodeado pela icónica borda encarnada, aparecia Salazar ao lado de uma maçã. O fruto parecia viçoso à primeira vista, mas na verdade estava cheio de bicho: uma metáfora para o ditador que, agarrando-se ao poder com a promessa de ajudar os EUA a combater o fantasma comunista, sobrevivia numa Europa do pós-guerra acabadinha de se livrar dos ditadores. Dentro da revista, uma reportagem do conceituado editor Percy Knauth e de Piero Saporiti, um correspondente italiano a viver em Lisboa, descrevia sem assombro um país retrógrado. “Depois de duas décadas de ditadura, Portugal é uma terra melancólica de pessoas empobrecidas, confusas e assustadas”, lia-se ali. O título perguntava “quão mau é o mais antigo dos ditadores?”

A máquina repressiva do Estado Novo não podia permitir este jacto de verdade fria. Não tardaria que a PIDE desse um ultimato ao jornalista italiano: tinha seis dias para abandonar o país. Ao mesmo tempo, o Secretariado de Propaganda Nacional dava ordens para confiscar todos os exemplares da revista encontrados, mesmo que já pagos e encontrados em domicílios privados. Saporiti ainda conseguiria adiar a sua expulsão por mais um mês, mas depois disso nunca mais voltaria a Portugal. Salazar proibiu ainda a venda da Time por seis anos.

A revista só voltaria a falar do país depois da libertação trazida pelo 25 de Abril. Na perspectiva americana era importante perceber que tipo de regime substituiria aquele que tinha acabado de cair de podre, e quem asseguraria a transição; sobretudo, havia muita preocupação por Portugal poder vir a tornar-se na “Cuba da Europa”. A Time envolve-se e toma partido: logo em 1974 promove o general Spínola, acabado de ser nomeado presidente, como símbolo do país. Mas a deriva esquerdista do “verão quente” de 1975 alarma os EUA, traumatizado pela sua derrota recente no Vietname. Um porta-aviões americano fundeia no Tejo, ameaçador; a Time alerta o Ocidente para a “ameaça vermelha” da “troika de Lisboa” – refere-se às caras desenhadas dos três homens-fortes do país, Otelo + Costa Gomes + Vasco Gonçalves, rodeados por uma enorme foice e martelo.

Volvidos 44 anos, outro português merece honras de capa, mas a ameaça é agora bem mais assustadora: a subida das águas. António Guterres é o secretário-geral das Nações Unidas. A dúvida aquando da sua eleição era se ele não seria o último a ocupar tal cargo, tal é a paralisia da ONU e a sua desadequação ao mundo multipolar em que hoje vivemos. Mas Guterres está a fazer algo de interessante: percebeu que pode reinventar a instituição que dirige usando o seu peso no combate às alterações climáticas, um problema global que nenhuma grande potência económica está capacitada – ou sequer interessada – em tentar resolver. “As alterações climáticas dão ao multilateralismo uma oportunidade para mostrar o seu valor”, afirma. Em setembro próximo, a ONU organiza uma cimeira exclusivamente dedicada ao problema que vai reunir líderes políticos, económicos e da sociedade civil; o trabalho de convencer mais de 200 países, muitos deles liderados por negacionistas e quase todos sem consciência da seriedade da situação, a convergirem em soluções concretas e escolhas difíceis é inglório, mas também essencial. “Se não fizermos nada, a crise transforma-se em caos, e caos significa o fim do mundo para nós”, avisa o líder das ilhas Fiji – um dos vários países que já estão a ser engolidos pelas águas do oceano Pacífico, e que Guterres visitou no mês passado, num périplo que acabou por ser revelador (e chocante) para a sua comitiva.

A foto de capa da Time desta semana mostra um homem de fato escuro e gravata, ar pesaroso. Tem água do mar pelos joelhos; o fato está arruinado. O título é directo – “Subida dos mares, residentes em fuga, aldeias que desaparecem. O nosso planeta que naufraga”. Tuvalu, Maldivas ou Fiji podem pura e simplesmente desaparecer, mas a ameaça não se limita a umas quaisquer ilhas distantes. A imagem da capa é forte o suficiente para despertar consciências e vontades. António Guterres perdeu umas calças, mas pode ter contribuído para evitar perdas bem maiores.