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OPINIÃO: A década perdida

OPINIÃO: A década perdida

Foto: AFP
Editorial Mundo 2 min. 27.12.2017

OPINIÃO: A década perdida

Na última década a Bulgária perdeu quase 10% da sua população. Entre os que saíram, é comum dizer-se, meio a brincar meio a sério, que em vez da Bulgária a governar a Europa, seria bem mais útil o contrário.

Por Hugo Guedes - Dentro de poucos dias, a 1 de Janeiro, o país mais pobre da Europa tornar-se-á o mais poderoso da mesma. Tal só é possível pelos equilibrados mecanismos de poder dentro da União Europeia, que confere a presidência do Conselho (a instituição que reúne os 28 governos europeus) rotativamente, seis meses a cada país – e essa honra caberá agora à Bulgária, o belo país nas costas do mar Negro.

Uma responsabilidade destas (porque a presidência encerra mesmo verdadeiro poder, mesmo sabendo que Berlim e Bruxelas se mantêm como as Washington europeias…) é um culminar do curto percurso europeu da Bulgária – uma história interessante essa, como são todas as histórias de esperança e desilusão, ou se quisermos, de um enorme potencial desperdiçado. E há também aqui várias lições a retirar.

Em 2007, o dia em que a Bulgária aderiu à União Europeia levou milhares de cidadãos exultantes às ruas em celebração, apesar do frio invernal. Nos rostos dos búlgaros, uma expressão já vista antes noutras latitudes: misto de júbilo, alívio – por deixar para trás a velha herança do Bloco de Leste, ou o absurdo de terem elegido o antigo rei como primeiro-ministro da República – e alegria por um futuro necessariamente melhor que o presente. Houve fogo de artifício sobre os céus de Sofia. O presidente da altura falou em “um sonho tornado realidade”.

Uma década depois, é evidente que algo importante falhou pelo caminho. Sim, o país está melhor, mas apenas marginalmente. A adesão prometia, como tinha feito em tantos outros países antes (Portugal obviamente incluído), diminuir a diferença nos padrões de bem-estar com a Europa – mas a Bulgária continua mais pobre do que metade da média europeia, e relativamente estagnada; os capitais estrangeiros desapareceram, muito poucos querem investir no país. As infra-estruturas continuam más. A confiança dos búlgaros nas instituições, e o seu optimismo em relação ao futuro, são baixíssimos.

A razão para esta década perdida resume-se numa só palavra: corrupção. A Bulgária lidera a maioria dos rankings europeus sobre o tema. Ano após ano, o problema só parece aumentar, e não há esperanças que seja o actual governo – cujo líder está há anos no poder e nem esconde as suas ligações ao submundo – reformar o país. Os subornos e o tráfico de influências estrangulam o desenvolvimento e são ubíquos (até o próprio centro da presidência europeia, o gigantesco Palácio da Cultura, viu 1,6 milhões de euros desviados pelo seu director). Desencantados e empobrecidos, os búlgaros votam com os pés – e emigram. Na última década a Bulgária perdeu quase 10% da sua população. Entre os que saíram, é comum dizer-se, meio a brincar meio a sério, que em vez da Bulgária a governar a Europa, seria bem mais útil o contrário.


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