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Opinião. A cruz de fogo

Opinião. A cruz de fogo

Foto: AFP
Editorial Mundo 4 min. 18.04.2019

Opinião. A cruz de fogo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Sento-me nesta segunda-feira à noite em frente ao ecrã e quase nem posso pensar, quanto mais escrever… "A catástrofe que tudo sacudiu", como acaba de lhe chamar a France 2, engoliu todas as outras notícias. A dor emocional que o fogo da catedral de Notre-Dame de Paris nos acaba de infligir é aguda, lancinante.

A cicatriz com que este desastre nos deixa também é pessoal, mas as sequelas deixadas na cidade são imensas, profundas, e demorarão gerações a curar. Mandada construir por Louis VII como símbolo de poder económico e espiritual, a catedral acabou por personificar Paris, a tal cidade que "vale bem uma missa" – foi no templo gótico que se casou o presumível autor daquelas palavras, o rei Henri IV; foi também em Notre-Dame que Napoleão foi coroado imperador. Por ali passaram Papas e reis, e ali foi dado o último adeus a Georges Pompidou ou François Mitterrand; os seus sinos repicaram para saudar o final de duas guerras mundiais, e lamentar o ataque às torres nova-iorquinas em 2001. 

Victor Hugo imaginou ali o seu Corcunda, personagem maior da literatura. Sem querer utilizar a metáfora demasiado corrente do "coração", é forçoso reconhecer que a cidade, o país e o continente foram atingidos no seu âmago. Até as estradas francesas marcam o seu "quilómetro zero" nas paredes agora enegrecidas pelas chamas.

O curtíssimo tempo de que o fogo, esse inimigo formidável, precisou para esventrar aquele que é (era) sem exagero um dos locais mais emblemáticos do mundo deixa-nos estupefactos, mesmo a nós (portugueses) tristemente acostumados com o ritual de destruição das florestas a cada verão. É fácil cair na tentação de pensar que a civilização humana atingiu um tal avanço técnico – afinal, até a meteorologia conseguimos manipular – que um fogo urbano é algo de raro e rapidamente dominado; e quando vemos, na cronologia de algum monumento antigo, a referência a algum incêndio devastador (na biblioteca de Alexandria, por exemplo) é quase inevitável pensar que os nossos antepassados, coitados, não tinham os recursos, o conhecimento ou o carinho necessários para preservar os edifícios importantes em torno dos quais se construía uma cidade. 

Pois bem, daqui a 200 anos, quem visitar a catedral reconstruída vai ler sobre o inferno de 2019 que fez desaparecer Arte e História irrecuperáveis, e vai ser rápido a adjetivar-nos: "bárbaros e vândalos". Vândalos? As investigações sobre a origem do fogo serão feitas de forma séria e minuciosa, mas sabemos já que o resultado das mesmas terá de apontar publicamente para a mesma direção que o inquérito preliminar indica: fogo acidental originado num andaime usado durante as renovações em curso. Nunca saberemos se essa é ou não toda a verdade. A simples possibilidade de uma causa diferente, ou seja a ideia de fogo posto, é tão inquietante que se torna difícil de suportar. Já muitas guerras começaram por bem menos…

De qualquer forma, o génio já está fora da garrafa: ainda antes daqueles horrendos segundos em que a espiral da catedral se desfez em pedaços e tombou, ainda antes de o drone da polícia ter tirado uma foto aérea em que o interior da catedral está transformado numa gigantesca cruz de fogo – imagens que ficarão gravadas na retina até ao final dos dias –, já as teorias da conspiração tinham inundado a internet. Os bodes expiatórios (os do costume) já foram encontrados, alguns políticos mais demagogos que a média (os do costume) já procuraram capitalizar a insatisfação generalizada com um discurso securitário. A França, palco de abjetos actos de terrorismo a um ritmo quase anual, é hoje um país claramente dividido, com clivagens sociais de várias espécies que são aparentemente irreconciliáveis. 

O incêndio de Notre-Dame, passem as piadas e os memes que também já pululam pelas redes sociais, é algo de brutal, histórico, não é um acontecimento “normalizável”; a um mês de umas eleições europeias realmente importantes, tem o potencial de radicalizar ainda mais os discursos e as opções, aproximando-nos do abismo. Tremo só de pensar nos efeitos que um segundo desastre deste estilo nos próximos tempos poderia provocar, até porque ninguém acredita em coincidências.

Hoje aconteceu um golpe fundo na civilização europeia, mas temos de nos manter firmes e solidários. Notre-Dame renascerá das suas cinzas – e essa também será uma imagem de tremendo poder simbólico.

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