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ONU. Compromissos atuais tornam impossível o mundo cumprir meta do Acordo de Paris
Mundo 6 min. 26.02.2021

ONU. Compromissos atuais tornam impossível o mundo cumprir meta do Acordo de Paris

ONU. Compromissos atuais tornam impossível o mundo cumprir meta do Acordo de Paris

Foto: Pixabay
Mundo 6 min. 26.02.2021

ONU. Compromissos atuais tornam impossível o mundo cumprir meta do Acordo de Paris

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Os planos apresentados só atingem 1% do objetivo de reduzir emissões de gases em 45% em 2030, revela relatório. Patricia Espinosa, secretária-geral da UNClimate Change, pede aos países que ainda não entregaram os planos nacionais que aumentem drasticamente a ambição.

"Temos que reconhecer que a janela de oportunidade para salvaguardarmos o nosso planeta está a fechar depressa”, é a mensagem de alerta de Patricia Espinosa.

“Este relatório mostra que os níveis atuais de ambição climática estão muito longe de nos colocar num caminho que permita atingir os nossos objetivos do Acordo de Paris”, escreve a secretária executiva da UN Climate Change, a instituição da ONU responsável por lutar contra as alterações climáticas.

O relatório foi pedido pelos 195 Estados que assinaram o Acordo de Paris, como instrumento de trabalho para avaliar o progresso dos países em relação aos objetivos de manter o aquecimento planetário abaixo dos 1.5ºC em relação a níveis pré-industriais. É também um instrumento de trabalho para preparar a COP26 que acontece em novembro em Glasgow. E mostra um resultado, no mínimo, muito preocupante.

Cobrindo a submissão dos planos nacionais de redução de emissões (NDC- National Determined Contributions) até 31 de dezembro de 2020, mostra que 75 países comunicaram NDC’s atualizadas, representando aproximadamente 30% das emissões globais de gases com efeito de estufa. Faltando por isso o conjunto de países que representam 70% das emissões mundiais.

Causadores de 30% das emissões têm uma ambição de 1%

“O relatório evidencia que enquanto a maioria das nações representadas aumentou os seus níveis individuais de ambição para reduzir emissões, o seu impacto combinado coloca-nos num caminho de conseguir apenas 1 % de redução em 2030 comparado com níveis de 2010. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), em comparação, indicou que a redução de emissões para atingir a meta de 1.5ºC deve ser 45% mais baixo”. O IPCC é o corpo científico internacional das Organização das Nações Unidas (ONU) responsável pelos relatórios periódicos sobre a evolução do clima da Terra.

No entanto, e apesar deste fracasso, Espinosa realçou que por causa da covid-19 ainda há muitos países, e entre eles dos maiores emissores, que não entregaram as suas NDC. Por isso, disse, este é um relatório de síntese, “um instantâneo e não o retrato completo”. Haverá um segundo relatório ainda antes da COP26 e, por isso, Espinosa exorta os países a concluírem os seus planos nacionais o quanto antes e redobrarem a ambição.

“Apesar de registarmos o ímpeto recente de uma política para uma ação climática mais robusta no mundo inteiro, as decisões para acelerar e aprofundar a ação climática têm que ser tomadas agora”, escreveu a representante da ONU, sublinhando a obrigação de ser já. E alertou: “Isto torna ainda mais evidente por que a COP26 tem que ser o momento em que nos pomos na direção de um mundo mais verde, limpo, saudável e próspero”.

Está na altura de todos os países que não cumpriram o prazo de entregar as suas propostas até ao fim de 2020 que “deem um passo em frente e cumpram o que prometeram no Acordo de Paris”. A diplomata mexicana responsável pelo braço da ONU sobre alterações climáticas esclarece ainda: “Se esta tarefa era urgente antes, é crucial agora”.

E sublinhou que 2021 representa uma oportunidade, quando os países estão a reconstruir as suas economias, de criar um mundo que se adapte e lute contra as alterações climáticas. “É um momento raro que não podemos perder”, disse. “Ao reconstruirmos não podemos voltar ao velho normal. Os NDCs devem refletir esta realidade e sobretudo os países mais ricos dos G20, devem liderar”. Espinosa encorajou mesmo as nações que já entregaram os seus NDCs para investigarem se conseguem ir mais longe nos seus compromissos. E pediu igualmente que os países mais ricos aumentem o seu apoio às nações em vias de desenvolvimento, nos objetivos climáticos, “preenchendo um elemento fundamental do Acordo de Paris”.

A presidente da COP25 (que se realizou em Madrid em 2019, sob a presidência do Chile), Carolina Schmidt, realçou que no Relatório de Síntese das NDC torna-se claro que apenas dois dos 18 maiores emissores de gases com efeitos de estufa apresentaram planos com grande ambição nos seus planos. São esses o Reino Unido e a União Europeia. “Os outros ou submeteram planos com uma ambição muito baixa ou ainda não apresentaram os NDCs). “O nível total de ambição dos países neste primeiro “instantâneo é muito baixo”, concluiu Schmidt.

UK com hipocrisia climática: Cop26 e mina de carvão

James Hansen, um antigo cientista da Nasa e considerado “o padrinho das alterações climáticas”, tem uma visão diferente da atuação do Reino Unido. Numa carta recente enviada a Boris Johnson refere que a decisão do governo britânico de autorizar uma gigante mina de carvão em Cumbria equivale a “um desdém total pelo futuro das gerações mais novas” e que levará à “ignomínia e humilhação”.

Hansen tornou-se uma das primeiras vozes de alerta sobre os efeitos da atividade humana no planeta quando alertou um comité no Congresso norte-americano, nos anos 70, sobre o “efeito de estufa na atmosfera”. Hansen analisou durante décadas os dados fornecidos por satélite sobre a evolução do planeta azul.

Em 2015 , Hansen criticou a hipocrisia do Acordo de Paris por serem palavras sem ação e pediu para se cobrar as emissões de gases com efeito de estufa. É preciso pôr um preço alto nos combustíveis fósseis, continua a defender.

Na carta agora enviada, James Hansen pediu ao primeiro-ministro britânico que acabasse imediatamente com todo o apoio aos combustíveis fósseis e “ganhasse um lugar especial na história”.

A União Europeia apresentou esta semana um plano de adaptação ao aumento de temperaturas, prevendo subidas de águas do mar, e eventos meteorológicos extremos, reconhecendo a iminência de impactos graves na Europa. Por aprovar está ainda a Lei do Clima (neste momento em fase de trílogos - as negociações entre as três instituições, Parlamento, Comissão e Conselho) com a meta obrigatória de emissões neutras em 2050 e uma redução de 55% em 2030.

2021 é visto como uma última oportunidade para os países tomarem decisões que ainda evitem os piores feitos das alterações climáticas, a COP26 é a conferência onde essas decisões vão confluir.

No site da UNClimate Change, Patricia Espinosa publicou os quatro pontos chave para a conferência de Glasgow alcançar sucesso: que as promessas feitas aos países em vias de desenvolvimento sejam mantidas, especialmente a de reunir 100 mil milhões de dólares por ano para este objetivo; que os governos consigam assinar os items que faltam para implementar o Acordo de Paris na totalidade; que os países baixem as emissões e aumentem a ambição não só na redução de emissões, mas também na capacidade de resiliência aos impactos das alterações climáticas; e que nenhuma voz ou solução seja esquecida, através da interação com todos os observadores, numa unidade de propósito.

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