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"Um avião bate numa torre. Tomo aquilo como um filme do canal Hollywood ou assim"
Opinião Mundo 2 min. 07.09.2021
Onde estava no 11 de Setembro

"Um avião bate numa torre. Tomo aquilo como um filme do canal Hollywood ou assim"

Onde estava no 11 de Setembro

"Um avião bate numa torre. Tomo aquilo como um filme do canal Hollywood ou assim"

New York City Police/epa ABC NEW
Opinião Mundo 2 min. 07.09.2021
Onde estava no 11 de Setembro

"Um avião bate numa torre. Tomo aquilo como um filme do canal Hollywood ou assim"

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Quem se lembra de jogar à bola em vez de entrar a pés juntos ao terrorismo?

Rua Conde de Ficalho, número 10, primeiro andar esquerdo. Acordo aí, nessa casa. Naturalmente, é a minha. Estamos a 11 de Setembro 2001, uma terça-feira. Sei o dia da semana de cor e salteado porque a data marca a primeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões. Como trabalho no jornal Record, ali na Travessa dos Inglesinhos, por cima do 'Portas Largas', um bar cujo dono é a fotocópia chapada do Cantona, uma noite europeia é motivo de algazarra. Então? Aproveitam-se os 90 minutos dos jogos (das 1945 às 2130) para cirandar pelo Bairro Alto à procura de um tasco e ver a bola. Invariavelmente, a escolha é a Casa da Índia.

Rua Conde de Ficalho, número 10, primeiro andar esquerdo. Acordo tarde, tomo banho e vou almoçar à pressa. Passo pela sala, ligo a televisão, vou à cozinha, ligo o microondas. Dois minutos de cozedura, siga a marinha. Aproveito o tempo para ir à sala e morder o ambiente. Um avião bate numa torre. Tomo aquilo como um filme do canal Hollywood ou assim. Vou dar de fuga para a cozinha com o tliiiim do micro-ondas. Estou a sair da sala quando vejo um outro avião a caminho da outra torre e ouço o comentador meio incrédulo, meio angustiado. Ainda hoje não me consigo lembrar se o canal é português ou estrangeiro, as imagens sobrepõem-se à conversa. Infelizmente.

Sento-me e já nem vou à cozinha. O almoço é adiado por um minuto. Dois. Quatro. Oito. Dezasseis. Meia-hora. Uma hora. É uma tragédia ao vivo, no coração de Nova Iorque. Olho lá para fora pela janela da sala e a Conde de Ficalho está ligeiramente mudada. Alguns carros estacionados, sim é o normal, mas zero pessoas na rua. Pudera, está tudo a ver o mesmo. O improviso daqueles actos desumanos mudam-nos. No Record, ninguém fala da Liga dos Campeões, ninguém se aventura a falar de bola. Não há Casa da Índia nem algazarra para ninguém, é ficar sentado e escrever sobre o inevitável.


Os ataques ao World Trade Center vistos da Índia
A violência da destruição das torres de Nova Iorque, com tudo o que isso representava de ataque ao Ocidente, repôs a ideia de um choque de civilizações.

E porquê? Já se sabe como é de há uns tempos para cá, o futebol (e o desporto) é um negócio. Morrem mais de 30 adeptos por desacatos antes da final da Taça dos Campeões 1985, siga a marinha. Morre um adepto no Jamor na final da Taça de Portugal 1996, siga a marinha. Morre Ratzenberger nos treinos do GP São Marino, siga a marinha. Morre Senna no dia seguinte a esse acidente, siga a marinha. Cai o mundo, com dois acidentes aéreos contra as torres gémeas, um dos quais transmitido em directo, siga a marinha. Baaaaaah, tenham vergonha na cara.

A UEFA só adia a jornada do dia 12, a do dia 11 joga-se como se nada fosse. Em Anfield, o Boavista de Jaime Pacheco reúne Ricardo, Frechaut, Turra, Pedro Emnauel, Erivan, Petit, Alexandre, Glauber, Sánchez, Duda e Silva. Em cantos, 7:1. Em faltas, 25:25. Em foras-de-jogo, 1:5. Em amarelos, 1:7. Em remates desenquadrados, 8:10. E em golos? Um e um. Marca primeiro o Boavista, por Silva, aos 3’ – é o único remate à baliza de Dudek em todo o jogo. Ainda na primeira parte (26’), empate do Liverpool por Owen. Game over. E ainda bem, que dia interminável. E sem sentido. Quem se lembra de jogar à bola em vez de entrar a pés juntos ao terrorismo?

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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