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"Nos meses seguintes, não escrevi sobre nenhum outro assunto"
Opinião Mundo 2 min. 03.09.2021
Onde estava no 11 de Setembro

"Nos meses seguintes, não escrevi sobre nenhum outro assunto"

Onde estava no 11 de Setembro

"Nos meses seguintes, não escrevi sobre nenhum outro assunto"

Foto: Seth McAllister/AFP
Opinião Mundo 2 min. 03.09.2021
Onde estava no 11 de Setembro

"Nos meses seguintes, não escrevi sobre nenhum outro assunto"

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
O atentado a Nova Iorque passou em direto na televisão, mas Ricardo J. Rodrigues, grande repórter do Contacto, só descobriu que o mundo tinha mudado horas depois, quando olhou para uma revista num quiosque de jornais em Barcelona. Nos 20 anos do 11 de Setembro, aqui fica a primeira de sete histórias sobre um momento que nunca nenhum de nós conseguirá esquecer.

Pelas minhas contas eu devia estar no meio do deserto espanhol de Castilla-La Mancha quando a primeiro avião embateu na torre Norte do World Trade Center. Eram 8h46 em Manhattan e isso significa que em Madrid os relógios marcavam 14h46. Meia hora antes, eu tinha embarcado em Atocha no comboio lento para Barcelona, que só chegaria à estação de Sants pelas nove da noite. Lembro-me que dormi a maior parte da viagem, sem consciência de que no outro lado do Atlântico o mundo que conhecíamos ruía.

Em 2001, os caminhos de ferro espanhóis tinham já desenvolvido as suas composições de alta velocidade, mas eu era então um jornalista jovem que não carregava mais do que meia dúzia de chavos no bolso. Ia de mochila às costas de férias para a Catalunha, se fosse poupado considerava meter-me num barco para a Sicília – por isso apanhar o AVE ou um avião eram luxos inconsideráveis. Na noite de 10 de setembro de 2001 apanhei o comboio da noite de Lisboa para Madrid e, como tinha escolhido o lugar mais barato, de costas para o sentido da marcha, não consegui pregar olho. A manhã de dia 11 passei-a às voltas na sufocante capital espanhola, à espera do embarque seguinte. Estoirado, adormeci ao primeiro embalo de ferrovia, ao início da tarde.

Quando o comboio chegou a Barcelona já o dia se tinha feito noite. E foi então que passei por um quiosque de jornais e estarreci. A venda estava forrada com capas das revistas Time e Newsweek, que em tempo recorde tinham criado edições especiais sobre o ataque terrorista. Ambas mostravam na capa o momento em que o segundo avião se despenhara contra a Torre Sul. Lembro-me que a Time não tinha qualquer explicação sobre o que tinha acontecido – apenas aquela fotografia e a data 11 de Setembro de 2001. A Newsweek tinha reduzido a manchete ao essencial. America Under Attack, lia-se, a América estava sob ataque.

Comprei a Newsweek e abri-a, incrédulo. Havia pouco texto, muitas fotos. Ainda ninguém tinha percebido muito bem o que se tinha passado, apenas se sabia que algo de terrível acabara de acontecer. As imagens mostravam os aviões a tocar as torres, a multidão incrédula e aterrorizada, gente a saltar do alto dos arranha-céus para o vazio, destroços e mais destroços. E depois houve uma foto que me fez chorar. Mostrava uma multidão coberta de poeira a fugir da nuvem de pó e um polícia a olhar para aquilo tudo impotente. Imaginei um silêncio atroz e poderoso. À minha frente, a funcionária do quiosque ofereceu-me um lenço para limpar as lágrimas. E começou a chorar, também.

Ainda na estação, fiz dois telefonemas. O primeiro para casa, para verificar se estava tudo bem com a minha família. O segundo para a redação onde trabalhava. Falei com o meu diretor de então e ele disse-me que poderia seguir com as minhas férias se assim o entendesse, não faltavam jornalistas para trabalhar no assunto. Desliguei, entrei num café e vi pela primeira vez as imagens televisivas dos atentados. Fui imediatamente à bilheteira e comprei os bilhetes de retorno a Lisboa. Nos meses seguintes, não escrevi sobre nenhum outro assunto.

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