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"Lembro-me de ter pensado que a religião, seja ela qual for, não tem razão"
Opinião Mundo 3 min. 05.09.2021
Onde estava no 11 de Setembro

"Lembro-me de ter pensado que a religião, seja ela qual for, não tem razão"

Onde estava no 11 de Setembro

"Lembro-me de ter pensado que a religião, seja ela qual for, não tem razão"

Foto: Goto: pol/dpa
Opinião Mundo 3 min. 05.09.2021
Onde estava no 11 de Setembro

"Lembro-me de ter pensado que a religião, seja ela qual for, não tem razão"

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Nos 20 anos do 11 de Setembro, aqui fica a segunda de sete histórias sobre um momento que nunca nenhum de nós conseguirá esquecer.

Podia dizer que estava a beber um chá no deserto, à procura de um relógio Seiko que perdi na Grande Muralha da China, a oferecer umas calças de ganga a um Pataxó, indígenas de Santa Cruz da Cabrália, na Costa dos Descobrimentos, Bahia, Brasil, a comprar peixinho no saudoso mercado de Maputo, a ver a marcha dos pinguins na Antártida, a andar de bicla nos campos Elíseos, no Iraque, a ver como o Iraque desaparece quando lá chega a Christiane Amanpour, a subir a escadaria que conduz ao Apocalypse Now, histórica disco de Saigão, à procura de um restaurante em Terras de Bouro, terra do meu avô materno, a resolver uns assuntos numa repartição de finanças em Nouakchott, Mauritânia, a provar um branco na Geórgia, a comprar bilhete para visitar a casa de Hemingway, em Key West, de onde, quando o tempo permite, se consegue avistar Cuba, à espera de uma salada de polvo no portinho da Arrábida, a ver passar os comboios na estação de Moura, no Alentejo, num desses ground zero que o mundo tem, mas não. 

Podia dizer que não me lembrava e estava o assunto resolvido. Noutro dia qualquer, uma pessoa sabia lá onde estava há vinte anos. Não neste dia. Posso dizer onde não estava: em Nova Iorque, embora nesse dia estivéssemos todos lá. Em meu favor, chuva no molhado: era vinte anos mais novo. Pronto... estava a fumar um cigarro numa cama desfeita, para os lados do Príncipe Real. Os vizinhos de baixo, um casal de arquitetos, estavam outra vez a discutir. Que era neurótico, que já começava a perder a paciência, que era um estúpido, um idiota. Idiota és tu, pá! Porque é que não vais embora? Vai! Desaparece! Volta para o Alfredinho, não é deles que gostas?! Vá lá, não sejas assim. Dá cá uma beijoca. 


(FILES) In this file photo smoke and flames erupt from the twin towers of the World Trade Center after commercial aircraft were deliberately crashed into the buildings in lower Manhattan, New York on September 11, 2001. - This year marks the 20th anniversary of the 9/11 attacks on the United States that left nearly 3,000 people dead.
The Al-Qaeda plane hijackings of September 11, 2001 were the first foreign attack on the US mainland in nearly two centuries. It ruptured America's sense of safety and plunged the West into war in Afghanistan -- a military operation that is only now just concluding. The Islamist extremists smashed two planes into New York's World Trade Center, killing 2,753 people. (Photo by SETH MCALLISTER / AFP)
"Nos meses seguintes, não escrevi sobre nenhum outro assunto"
O atentado a Nova Iorque passou em direto na televisão, mas Ricardo J. Rodrigues, grande repórter do Contacto, só descobriu que o mundo tinha mudado horas depois, quando olhou para uma revista num quiosque de jornais em Barcelona. Nos 20 anos do 11 de Setembro, aqui fica a primeira de sete histórias sobre um momento que nunca nenhum de nós conseguirá esquecer.

Foi a minha namorada, hoje minha mulher, que ligou a TV e me chamou, em choque. Lembro-me exatamente das primeiras imagens que vi, as aeronaves do terror a trespassar o coração da América, as torres-gémeas transformadas numa fábrica de destroços, uma nuvem densa, suja, uma cascata de pessoas que caiam do céu. Os acontecimentos devoram-se, como se fosse um daqueles filmes de série B, em que estamos sempre à espera que alguém esteja a sonhar ou que apareça o Bruce Willis para salvar o mundo ocidental da sua derrocada. Àquela hora, tudo era breaking news. Os vivos à procura dos sobreviventes numa amálgama de World Trade Center. Lembro-me de ter pensado que a religião, seja ela qual for, não tem razão. 

Não estava em Nova Iorque, embora lá tivesse estado há pouco tempo. Não vou naquela treta que Nova Iorque é uma cidade do mundo. É uma cidade americana com o mundo lá dentro. Tinha feito uma viagem de meses por mais de trinta estados dos EUA. A América que todos nós consumimos desde que nascemos ali estava, de certo modo intacta. 

Os americanos são como crianças fascinadas pelo poder. O poder de poder ser outra coisa é o poder da América. Pessoas simples, que parecem guardadas nos filmes, desfilam perante nós, desmaterilizando à nossa frente. Todas essas pessoas que guardei, nem que seja se passagem, hábito de jornalista, ficaram mortas naquele instante, numa espécie de jet-lag irracional, tão próximo, tão longe. Quando vemos as imagens recentes do Afeganistão, quando vemos os talibãs armados com o que de melhor os USA têm para oferecer em termos de armamento, fica bem clara a imagem de que nada é o que parece e que tudo é o que é. Às vezes parece que o passado não passa. Noutras, que o futuro é só uma efeméride que aí vem. 

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