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À procura de um ecrã
Opinião Mundo 2 min. 08.09.2021
Onde estava no 11 de Setembro

À procura de um ecrã

Onde estava no 11 de Setembro

À procura de um ecrã

Foto: AP
Opinião Mundo 2 min. 08.09.2021
Onde estava no 11 de Setembro

À procura de um ecrã

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A única coisa que sei é que se o 11/09 fosse hoje, teria continuado sentada na relva, mas desta vez teria visto tudo em directo do meu telefone.

A 11 de setembro de 2001 eu tinha 20 anos e acabava de me mudar para Madrid, onde ia começar o Erasmus. Estava com colegas, sentados na relva no campus da Universidade Complutense à espera da aula de espanhol, quando as primeiras mensagens sms vieram quase em simultâneo das nossas famílias sobre a primeira torre (vinham atrasadas, porque só então as televisões em Portugal tinham entrado em "directo" para Nova Iorque).

Há 20 anos não havia internet nos telefones e nós estávamos no esplendor na relva, num Setembro quente na capital espanhola. Os segundos sms vieram pouco depois dizendo-nos que outra torre tinha sido atingida. E que talvez não fora acidente, mas atentando.

Foi quando decidimos levantar-nos e procurar uma televisão. Há 20 anos, praticamente não havia ecrãs como hoje há por toda a parte, sobretudo em edifícios públicos. Hoje a nossa vida é totalmente digital, ecrãs touch, lives no facebook, internet em segundos, um olhar sobre o mundo completamente sobre-mediatizado. Também isso foi uma consequência do 11 de setembro: nós vemos tudo o que acontece; e eles sabem tudo o que nós vemos.

Nos edifícios da Faculdade, não havia televisões, apenas aqueles pequenos ecrãs que os seguranças tinham para passar tempo nos turnos. Caminhámos de Filologia à Faculdade de Ciências da Informação. O campus da Complutense é grande e verde, e leva pelo menos 15 minutos entre cada bloco. Chegadas aí, informaram-nos que havia televisores mas que nenhum estava ligado à rede. Ou seja: podíamos ver um filme mas não a TVE.


"Um avião bate numa torre. Tomo aquilo como um filme do canal Hollywood ou assim"
Quem se lembra de jogar à bola em vez de entrar a pés juntos ao terrorismo?

Explicámos a gravidade da situação. O segurança ignorou e provavelmente achou que aquelas quatro miúdas eram um pouco estranhas. Fomos a outro edifício, já mais ansiosas porque, a partir de então, os sms chegavam contínuos não só das famílias, mas dos amigos em Portugal: caiu a primeira torre, agora a segunda, o Pentágono também, há mais aviões. Já aflitas explicámos na recepção de uma faculdade que estava a acontecer um ataque terrorista de grande gravidade.

Uma funcionária confirmou com o segurança, que tinha ouvido naquele momento na rádio: sim, de facto, era grave. E acrescentou: "Mas isso do terrorismo a gente tem aqui todos os dias. Uma bomba, duas bombas, não faz diferença."

Chocou-me a forma como ela banalizou assim o acontecimento que haveria de marcar a vida do ocidente nas próximas décadas, até pelo seu simbolismo hiper-realista. Calculo que não tivesse noção (ninguém tinha), e só quando viu as imagens percebeu que talvez o 11/09 não fosse igual às bombas que a ETA tinha feito explodir nesse Verão em Madrid.

A única coisa que sei é que se o 11/09 fosse hoje, teria continuado sentada na relva, mas desta vez teria visto tudo em directo do meu telefone. Talvez tenha sido isso, e não o terrorismo, que mudou.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


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