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OMS junta-se à COP26 com relatório sobre benefícios da ação climática na saúde humana
Mundo 7 min. 12.10.2021
Alterações climáticas

OMS junta-se à COP26 com relatório sobre benefícios da ação climática na saúde humana

Alterações climáticas

OMS junta-se à COP26 com relatório sobre benefícios da ação climática na saúde humana

AFP
Mundo 7 min. 12.10.2021
Alterações climáticas

OMS junta-se à COP26 com relatório sobre benefícios da ação climática na saúde humana

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
E 45 milhões de profissionais de saúde assinam petição para que os líderes mundiais acelerem a resolução da crise. Só a poluição atmosférica provoca 7 milhões de mortes prematuras por ano.

“Já estamos a ver muitas ligações inseparáveis entre as alterações climáticas e a saúde pública”, sustentou Maria Neira, diretora do departamento de Ambiente, Alterações Climáticas e Saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS) na apresentação do Relatório Especial COP26: O Argumento da Saúde para a Ação Climática. O relatório apresenta, segundo a OMS, um argumento poderoso para juntar a todos os outros que serão apresentados na conferência mundial em Glasgow, nas primeiras duas semanas de novembro. Esse argumento é que a cada subida da temperatura global, os riscos para a saúde humana são exponenciais. 


Poluição do ar deve ser cortada para metade
A agência de saúde diz que o “novo tabaco” mata 7 milhões de pessoas por ano. Na UE são 400 mil pessoas e a Comissão Europeia abriu uma consulta pública sobre a revisão das normas de níveis aceitáveis de partículas poluentes.

“Toda a gente está a dizer que esta COP26 tem que ser especial, em coragem política e na velocidade com que a crise climática tem que ser resolvida”, disse a responsável da OMS. Por isso, “que maior argumento pode haver de que a saúde humana tem muito a ganhar com a redução drástica de emissões”, disse a responsável da ONU, pedindo que este novo relatório da OMS seja usado sempre que é preciso defender o argumento que a luta contra as alterações climáticas é o melhor investimento. 

A nossa saúde, agora 

Um anterior relatório da OMS já tinha contabilizado em 7 milhões o número de mortes prematuras todos os anos por causa da poluição do ar. “Boa notícia: tudo o que fizermos terá impacto. A cada minuto 13 pessoas morrem por exposição à poluição atmosférica. Diminuindo a poluição, por cortarmos na emissão de gases com efeito de estufa, poderíamos evitar 80% das mortes prematuras. Uma dieta saudável irá salvar 5.8 milhões de vidas por ano. Todos estes argumentos são muito positivos”, disse Maria Neira, numa conferência de imprensa na sede desta agência da ONU, em Genebra. “Estamos a pôr a questão da saúde para toda a gente perceber. Isto é sobre a minha saúde, a dos meus filhos. E é agora que está a acontecer. Isto é um argumento muito simples de compreender”, disse, exortando toda a gente a utilizar as conclusões do relatório nas conversas difíceis com quem não percebe a transição para uma economia verde. “Resolver a crise climática é uma grande oportunidade para a saúde pública”, resumiu. 


ONU declara o acesso a um meio ambiente limpo um direito humano
A votação teve lugar no penúltimo dia da sessão de outono do Conselho de 47 membros, que entre outras coisas aprovou um relator especial para monitorizar os direitos no Afeganistão e pôs fim a um esforço de monitorização dos direitos no Iémen dilacerado pela guerra.

O relatório é dedicado a Ella Kissi-Debrah - a criança inglesa de nove anos que morreu de asma e cujo relatório de autópsia atribuiu, pela primeira vez diretamente, o óbito à poluição. É dedicado também “a todas as outras crianças que sofreram e morreram por causa da poluição do ar e alterações climáticas.

 Maria Neira salientou que o relatório apresentado não considerou, por opção, a possibilidade de o mundo não conseguir manter o aquecimento global dentro dos limites fixados pelo Acordo de Paris: um máximo de 2ºC ou, no melhor cenário, não ultrapassar os 1.5ºC em relação a temperaturas pré-industriais. “Nem admitimos sair destes limites. Porque não queremos sequer imaginar essa hipótese”, sustentou Maria Neira, alegando para consequências catastróficas para a humanidade se a economia global não descarbonizar totalmente em 2050.

 45 milhões de testemunhas que não se calam 

Na carta subscrita por mais de 350 associações de profissionais de saúde, equivalente a 45 milhões de profissionais, pede-se que os líderes dos G20 (os 20 países mais ricos) ponham a saúde pública no centro dos planos de recuperação pós-covid. Os profissionais referem que os efeitos do desequilíbrio dos sistemas planetários são também cada vez mais evidentes no corpo humano: “Antes da covid-19, a poluição do ar – principalmente do trânsito, uso ineficiente de energia para cozinhar e aquecimento, centrais a carvão e queima de resíduos sólidos – já estava a enfraquecer os nossos corpos. Aumenta o risco de desenvolver e a gravidade da pneumonia, a doença pulmonar obstrutiva crónica, as doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais, levando a sete milhões de mortes prematuras por ano. A poluição do ar também afeta o desenvolvimento da gravidez, como baixo peso dos fetos à nascença e asma.


Países prometem mais descarbonização em cimeira preparatória de Glasgow
A reunião preparatória para a cimeira do clima de novembro terminou com compromissos de mais contribuição para a descarbonização e impedir que o aquecimento global suba além dos 1,5 graus

“Uma recuperação económica saudável não irá permitir que a poluição atmosférica continue a ensombrar o ar que respiramos. Não permitirá que as alterações climáticas e desflorestação continuem a aumentar imparavelmente, potencialmente desencadeando novas ameaças de saúde sobre populações vulneráveis” - defendem os subscritores. 

“Esperamos que a nossa voz seja ouvida. Sabemos que as alterações climáticas estão a afetar a nossa saúde, a comida, a qualidade do ar e da água, e a nossa capacidade para abrigo. Precisamos de investir na adaptação e criar sociedades e infraestruturas mais resistentes”, escreve-se no documento que deverá ser apresentado na conferência do clima em Glasgow e que é assinado também por Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. 

O presidente do Conselho Internacional de Enfermeiros, Howard Catton, salientou que os enfermeiros em todo o mundo estão a ver todos os dias os efeitos das alterações climáticas nos seus pacientes que lutam com calor extremo, novas doenças, fome, doenças cardiovascular e doenças mentais. “As alterações climáticas estão a roubar a esperança no futuro aos jovens, aos pobres, aos marginalizados”, disse, na segunda- feira numa conferência online. E acrescentou que os 45 milhões de profissionais de saúde, correspondendo a 3/4 dos profissionais registados no mundo, “não estão preparados para ser testemunhas silenciosas”. E disse que “é preciso ter a saúde no centro de todas as políticas públicas”, porque “se acham que a covid-19 é mau, comparado com as alterações climáticas não é nada”. E, é claro, acrescentou “não podemos vacinar contra as alterações climáticas”. 

Diarmid Campbell-Lendrum, coordenador do relatório, salientou que uma carta destas assinada pelos profissionais de saúde – que são dos mais respeitados a nível mundial – não pode deixar ninguém indiferente. Campbell-Lendrum referiu que é necessário um grande alerta global, quando 80% do investimento dos planos de recuperação dos países da OCDE (Organização para o Desenvolvimento Económico) “são ou neutros ou maus para o ambiente, no momento em que os riscos da crise climática estão a disparar”. O relatório sustenta que é imperativo acabar com todos apoios aos combustíveis fósseis até 2025 e acabar por completo com a queima de carvão – o pior de todos os gases poluentes – no máximo até 2030. 

Diarmid Campbell-Lendrum salientou ainda que os sistemas de saúde e as infraestruturas têm que se adaptar aos novos desafios e também tornarem-se elas contribuintes para a solução. Em países em vias de desenvolvimento, e na quase totalidade da região sub-sahariana, é possível dar um grande salto de sistemas de saúde precários para os novos sistemas de saúde do futuro: sem emissão de gases e resilientes aos novos fenómenos meteorológicos provocados pelas alterações climáticas. Uma das iniciativas incluídas no relatório é o do Plano Global para a Descarbonização do Setor da Saúde (Global Road Map for Health Care Decarbonisation). Em 2019, o setor foi responsável por 4.4% das emissões mundiais. 

Dez recomendações, medidas e exemplos 

O Relatório Especial COP26: O Argumento da Saúde para a Ação Climática apresenta aos decisores políticos e à comunidade de profissionais de saúde, dez recomendações, propostas como medidas prioritárias para agir nas crises interligadas das alterações climáticas e da saúde pública. As recomendações partiram de consulta a 150 organizações e 400 peritos “ A sua intenção é informar governantes e outros interessados na preparação para a 26º Conferência das Partes(COP26) da Convenção Quadro das Nacões Unidas para as Alterações Climáticas (UNFCCC) e para realçar as várias oportunidades para os governos darem prioridade à saúde e equidade no movimento climático internacional e na agenda do desenvolvimento sustentável”. 

As recomendações surgem com um conjunto de ferramentas e recursos que podem ser utilizados bem como exemplos reais onde essas ações estão a ser postas em práticas. As recomendações são: Compromisso com uma recuperação saudável; a nossa saúde não é negociável; recolher os benefícios para a saúde da ação climática; construir resiliência no setor da saúde para os riscos climáticos; ouvir a comunidade da saúde e prescrever medidas climáticas urgentes; reinventar ambientes urbanos, transportes e mobilidade; proteger e restaurar a natureza como a base para a nossa saúde; promover sistemas alimentares sustentáveis e resilientes; financiar um futuro mais saudável e verde para salvar vidas; Criar sistemas energéticos que protejam e promovam o clima e a saúde.

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