Escolha as suas informações

Obituário. Morreu o histórico anarquista Lucio Urtubia
Mundo 4 min. 19.07.2020 Do nosso arquivo online

Obituário. Morreu o histórico anarquista Lucio Urtubia

Obituário. Morreu o histórico anarquista Lucio Urtubia

Foto: Wikipedia
Mundo 4 min. 19.07.2020 Do nosso arquivo online

Obituário. Morreu o histórico anarquista Lucio Urtubia

Redação
Redação
Ironia da história, a sua morte coincide com a data que se assinala o levantamento franquista de 18 de julho de 1936. Sábado estre navarro e basco, morreu em Paris com 89 anos. Na cidade que se exilou durante a juventude. A sua vida foi levada para o cinema, literatura e televisão. "É um prazer roubar bancos", dizia.

Foi fiel às suas convições de sempre até ao último segundo da sua vida. Teve uma existência de filme, durante décadas falsificou moeda, documentos, atacou bancos distribuiu propaganda anarquista, salvou militantes da prisão e arranjou dinheiro para várias guerrilhas no mundo.

 O encenador de teatro espanhol Albert Boadella afirma que  Lucio Urtubia sempre foi "um Quixote que não lutou contra moinhos de vento, mas contra gigantes de verdade".  

Só um pedreiro  

Nasceu na localidade navarra de Cascante, em 1931. Este pedreiro, como gostava de se qualificar, viveu nos seus 89 anos muitas vidas, todas elas intensas e interessantes. De tal forma, que sobre elas escreram livros, documentários, peças de teatro e até bandas desenhadas. 

Sofreu na sua juventude os duros tempos do pós-guerra civil espanhola em Navarra. Recrutado para o serviço militar, descobriu rapidamente que era fácil roubar o exército e contrambadear essas mercadorias, fazendo-as passar pela fronteira entre Espanha e França. Teve que fugir, quando em 1954, as autoridades franquistas descobriram que tinha esvaziado um armazém militar com alguns companheiros.  

A fuga para França 

Em França conheceu intelectuais como Breton e Camus e participou no Movimento Libertário Espanhol. Chegou a Paris a pensar que era comunista, mas tornou-se anarquista. "Os franquistas diziam que todos os opositores eram comunistas, por isso eu achava que era comunista também", disse numa entrevista. 

Viveu vários anos na mesma casa que o célebre guerrilheiro Quico Sabaté, conhecido pelo seu envolvimento nas ações de guerrilha anarquista na Catalunha contra a ditadura franquista. A partir desse momento, a vida acelera-se e colocou-se ao serviço da luta política e social: assaltos para financiar organizações políticas, construção de redes de evasão de presos, incursões na Espanha franquista e falsificações de documentos e moeda.

O seu golpe mais conhecido ia levando ao tapete o banco que se tornou no City Bank. Os milhões roubados foram usados por muitas organizações revolucionárias. 

Ao lado de Che Guevara
Ao lado de Che Guevara

O plano falhado com Che

Mas antes disso houve um ensaio geral falhado. Lucio Urtubia Jiménez tinha um plano para destabilizar os EUA. Em 1962, com Fidel Castro no poder em Cuba e com Ernesto Che Guevara a viajar pela Europa, como ministro da Economia e diretor do Banco Central de Cuba. Urtubia encontrou-se com Che Guevara em Paris, e contou-lhe que tinha o plano de imprimir toneladas de dólares falsos e distribuí-los por todo o mundo. 

O basco achava que com isso era possível quebrar a moeda dos EUA e levar o Império a ajoelhar-se. Propunha aos cubanos o seguinte: ele faria as placas de impressão dos dólares falsos e os cubanos imprimiriam e distribuiriam a moeda falsa.

Na reunião com Che, o anarquista espanhol levou um par de notas de dólares falsos para mostrar a qualidade do produto. Guevara guardou os exemplares no bolso e disse que estudaria a proposta. Meses depois a recusa de participar na operação chegou de Havana. Che achava o plano perigoso e pouco claro nas suas consequências.

"Nós éramos uns pobres coitados, mas fazíamos o que podíamos, mas Cuba tinha a possibilidade de fazer o que fazia os Estados Unidos e fabricar toneladas de moeda se quisesse. O Che não me agradou. Como era argentino, acreditava ser o melhor, porque razão acreditaria num pobre diabo como eu? Enganou-se nisso", recordou Lucio Urtubia numa entrevista ao jornalista Jordi Évole. 

 O ataque ao City Bank

 Mas Lucio Urtubia não desistiu. E nos anos 70 conseguiu roubar mais de 300 milhões de pesetas e francos ao First National Bank, com uma falsificação massiva de cheques de viagem. 

Urtubia tinha só 31 anos, quando deu o golpe no banco que hoje é conhecido como City Bank, com um plano semelhante com o que propôs a Che Guevara. "Comprei em Bruxelas 30.000 francos em travellers cheques com documentação falsa. Depois comprei papel para as falsificações. Foi complicado de fazer. É muito difícil chegar à perfeição", disse o anarquista basco ao El País, numa entrevista em 2007.

O dinheiro roubado, cerca de 20 milhões de euros em valores da época, investiu-o em várias causas, o que lhe valeu a alcunha de "Zorro Basco".  

"Queria o dinheiro para a causa anarquista. Não fiquei com um só centimo". 

O dinheiro lá chegou à resistência anti-franquista, mas também a organizações como aos Montoneros, Tupamaros, ERP e outros grupos de guerrilha da América Latina. 

"Fui um morto de fome e foi isso que me deu a minha riqueza. Não tive que fazer nenhum esforço para perder o respeito a esta sociedade, porque ela não merece nenhum respeito".

As suas aventuras não se ficaram pelas falsificações, enquanto trabalhava como pedreiro, planeava o sequestro de históricos nazis em liberdade e tentava libertar um dos líderes dos Panteras Negras dos EUA. Não parava.

Lucio nunca deixou de lutar e de apoiar as suas causas. Até o sabádo, 18 de julho de 2020. Morreu com 89 anos, em Paris, uma das lendas do anarquismo.

 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.