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O rapto da Europa perante os nossos olhos
Editorial Mundo 3 min. 06.02.2019

O rapto da Europa perante os nossos olhos

O rapto da Europa perante os nossos olhos

Foto: AFP
Editorial Mundo 3 min. 06.02.2019

O rapto da Europa perante os nossos olhos

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A Europa está em enorme risco de ser raptada, e desta feita mesmo em frente aos nossos olhos bem fechados.

A ninfa da mitologia grega subiu ao dorso do touro branco e agarrou-se ao seu pescoço. O touro, que não era mais do que o todo-poderoso Zeus disfarçado, entrou no mar Egeu e nadou até Creta, onde guardou a bela Europa, pois esse era o nome da ninfa, para si. A história do rapto de Europa constitui as origens míticas do Velho Continente e, como em todos os mitos, nunca aconteceu realmente.

Mas a Europa está hoje em enorme risco de ser outra vez raptada, e desta feita mesmo em frente aos nossos olhos bem fechados. Se o permitirmos, é bem possível que nunca a recuperemos; e é totalmente seguro que nos arrependeremos amargamente pela nossa passividade.

Um apelo apaixonado a que acordemos e lutemos acaba de ser publicado em alguns dos maiores jornais europeus, e apesar de o texto não ser muito longo (sensivelmente o mesmo que esta crónica), trata-se de leitura que emociona. Mas que é também, não há como negá-lo, assustador e preocupante.

O apelo dirige-se a essa “maioria silenciosa” de patriotas europeus, um grupo muito numeroso mas “demasiado resignado”, exortando-os a reagir, a levantarem-se em defesa daquilo em que acreditam e que é, afinal, tão importante. O título não podia ser mais claro: “Luta pela Europa – ou os destruidores vão fazê-la implodir”.

O diagnóstico do ponto em que nos encontramos é muito sombrio. A Europa não tem bons defensores, e ser nacionalista, chauvinista, egoísta, até mesmo supremacista passou a ser moda. O espectáculo de assistir aos populistas tentando competir para ver quem mais denigre “Bruxelas” e os ideais da construção europeia é deprimente; se um diz mata, outro logo diz esfola. E a demagogia resulta. O artigo delineado pelo filósofo Henri-Lévy avisa-nos quanto a esses falsos profetas, bêbados de tanto rancor e delirantes perante a sua oportunidade de capturar os holofotes, que repetem a promessa de voltar à “alma e identidade perdidas” que só existem na sua imaginação. Na Hungria, o autocrata Orbán quer destruir a democracia liberal que lhe permitiu chegar ao poder; em Itália, terra do Renascimento e de alta cultura mas também berço do fascismo, o líder da extrema-direita, Salvini, quer construir um “EIXO” anti-europeu, claramente nada incomodado (aliás, provavelmente deliciado) com as reminiscências daquela palavra tão usada em 1939.

“A não ser que algo mude e contrarie esta maré insistente; a não ser que um novo espírito de resistência emerja, as próximas eleições europeias (em maio) prometem ser as mais catastróficas que já vivemos, dando uma vitória aos destruidores. Será o triunfo do desprezo pela inteligência e pela cultura; teremos explosões de xenofobia e antissemitismo. O desastre cairá sobre nós”.

O texto de linguagem apocalíptica é subscrito por 30 dos maiores intelectuais do nosso tempo, entre eles quatro laureados com o prémio Nobel e muitos outros fortes candidatos a também o receberem, como o português António Lobo Antunes, o britânico Salman Rushdie ou o italiano Roberto Saviano. “O que está em causa proíbe-nos de desistir. Temos de aceitar que a Europa, ao contrário do que pensávamos, não se fará sozinha e que não temos escolha: ou por ela lutamos, ou ela morre debaixo das ondas do populismo”. Sim, é um texto resolutamente pessimista – até porque não aponta nenhuma ação concreta, nenhum caminho definido.

Não me atrevo a contrariar um manifesto subscrito por 30 das mentes mais brilhantes do nosso continente, até porque a qualidade da escrita é altíssima e o diagnóstico não poderia ser mais acertado. No entanto, não partilho de tanto negativismo. Há sinais muito encorajadores de que esse levantamento anti-demagogia, e a favor de reformas corajosas e refrescantes na forma como pensamos a Europa, esteja já em marcha. No próprio Reino Unido há, hoje em dia, uma maioria a favor de permanecer na UE (simplesmente a possibilidade de o expressar nas urnas uma segunda vez nunca lhes será dada, ou seja, será para sempre uma maioria silenciosa). A União Europeia que sairá das eleições de maio será mais imprevisível, mais fragmentada, certamente mais populista – mas em contraste também poderá ser mais corajosa, mais pragmática, mais cortante e mais reformista, tudo qualidades úteis nos dias de hoje.

Desde que cada um de nós entenda o que está em causa: a nossa qualidade de vida e os nossos valores civilizacionais. Sabendo isso, nunca vamos deixar que raptem a Europa.

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