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O que os húngaros no Luxemburgo dizem: Hungria está dividida a cinco dias do referendo sobre refugiados

O que os húngaros no Luxemburgo dizem: Hungria está dividida a cinco dias do referendo sobre refugiados

AFP
Mundo 7 min. 28.09.2016

O que os húngaros no Luxemburgo dizem: Hungria está dividida a cinco dias do referendo sobre refugiados

Os húngaros referendam no domingo a questão de quem deve decidir a relocalização dos refugiados, se o Governo nacional ou a UE. O voto está a dividir famílias, cidades e o país. O CONTACTO quis saber como os húngaros que vivem no Luxemburgo estão a seguir a situação no seu país.

Os húngaros referendam no domingo a questão de quem deve decidir a relocalização dos refugiados, se o Governo nacional ou a UE. O voto está a dividir famílias, cidades e o país. O CONTACTO quis saber como os húngaros que vivem no Luxemburgo estão a seguir a situação no seu país.

Triste e zangado!”, é assim que Gyula (nome fictício a pedido do entrevistado) diz sentir-se ao seguir desde o Luxemburgo a campanha para o referendo de domingo sobre a questão dos refugiados no seu país.

“Quer que a União Europeia (UE) decrete uma relocalização obrigatória dos cidadãos não-húngaros na Hungria sem a aprovação do Parlamento húngaro?”, é a questão à qual os húngaros deverão responder no referendo de domingo, 2 de Outubro.

Gyula e Zsuzsa foram os dois únicos húngaros que quiseram falar ao CONTACTO e ainda assim apenas se os seus nomes fossem alterados. Da meia-dúzia de pessoas contactadas, funcionários europeus, bancários, homens e mulheres de negócios, consultores, contabilistas, apenas dois acederam a falar, ambos a trabalhar para instituições europeias.

Um dos entrevistados fala do clima de medo que o Governo de Viktor Orban (o mesmo ao qual Juncker chamou “ditador” numa cimeira da UE em Maio de 2015) instalou na Hungria. Medo e desconfiança em relação aos refugiados, que são associados a terroristas, mas também do Governo, de quem muitos desconfiam estar por detrás da bomba que explodiu em Budapeste no sábado.

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, tem sido autor de uma política anti-imigrante que a Amnistia Internacional considera "degradante" e "desumana"
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, tem sido autor de uma política anti-imigrante que a Amnistia Internacional considera "degradante" e "desumana"
AFP

O dinheiro gasto com este referendo deveria servir para fazer reformas necessárias no serviço de saúde, na educação e no sistema de pensões. Ou seja, tudo o que este Governo não conseguiu fazer nos últimos seis anos,”, diz Gyula.

“Estou triste e zangado”, diz Gyula, que tem cerca de 40 anos e vive há 12 no Luxemburgo.  “Triste porque nesta crise humanitária, fazer campanha com slogans racistas e xenófobos não é a boa forma de abordar o problema”, afirma.

Para Gyula, “o Governo deveria estar a gastar os milhões desta campanha negativa a construir campos de migrantes e ajudá-los a chegar ao seu destino, porque muitos deles não querem ficar na Hungria, querem ir para a Áustria, Alemanha ou Escandinávia”.

“É um dever ajudar estas pessoas”, considera. “E estou zangado porque esse dinheiro deveria servir também para fazer reformas necessárias, no serviço de saúde, na educação e no sistema de pensões. Ou seja, tudo o que este Governo não conseguiu fazer nos últimos seis anos”, conclui.

Zsuzsa concorda com Gyula. Também é funcionária europeia, tem 41 anos e está no Luxemburgo desde 2005. “A campanha está a ser paga pelo contribuinte, custou mais de sete mil milhões de florins húngaros (cerca de 23 milhões de euros). Ainda por cima, o resultado não vai influenciar a decisão da UE sobre o sistema de quotas. Está a dividir o país e a alienar os húngaros da UE”, lamenta Zsuzsa.

"Este referendo serve apenas para testar a popularidade do Governo"

Um dos outros propósitos do referendo é dividir os húngaros. O senhor Orban sempre gostou de dividir a população", critica Gyula.

“Esta campanha e este referendo contra os migrantes serve apenas para o Governo testar a sua popularidade, já que em 2018 há novas legislativas. E serve para o senhor Orban mostrar que tem tudo sob controlo, que não só está a guiar o povo húngaro na direcção certa como é um verdadeiro patriota europeu que vai salvar a UE da invasão dos terroristas islâmicos”, ironiza Gyula.

Para o funcionário europeu esta campanha conseguiu desviar a atenção dos verdadeiros problemas que o país enfrenta: a corrupção, o sector da saúde “que está a colapsar”, a falta de milhares de médicos porque emigram.

“Estes assuntos importantes foram empurrados para segundo plano devido ao referendo. Esta campanha serviu para disfarçar os fracassos do Governo. Tiveram seis anos, tiveram verbas da UE, mas não resolveram estes problemas”, critica Gyula.

Zsuzsa faz a mesma análise: “O referendo desviou a atenção de problemas como a emigração maciça de jovens, o sistema de saúde em ruínas, o aumento da miséria, a corrupção, o sistema de ensino centralizado ou a central nuclear Paks2, que vai ser construída com ajuda da Rússia e vai endividar a Hungria até ao próximo século.”

Para Gyula, Orban é um político manipulador. “Um dos outros propósitos do referendo é dividir os húngaros. O senhor Orban sempre gostou de dividir a população. Para ele só existe estar com ele ou contra ele.” 

Zsuzsa nota o mesmo: “A campanha do Governo é pura manipulação, construída sobre medo, informação distorcida e mentiras. É muito triste ver isso. Há na Hungria uma atmosfera de medo. As pessoas pensam branco ou preto e estão muito seguras das suas opiniões. A informação é manipulada pelos media oficiais e as pessoas não recebem informações objectivas e reais, o que pensam depende das fontes de informação a que têm acesso”.

Guerra de cartazes

Um cartaz dos anti-Orban, que por cima de frases populistas do Governo mostra um quadro famoso como para dizer que os húngaros são um povo com cultura e que não se deixa manipular
Um cartaz dos anti-Orban, que por cima de frases populistas do Governo mostra um quadro famoso como para dizer que os húngaros são um povo com cultura e que não se deixa manipular
Foto: VP


Sentem que a questão dividiu o país? “Há pessoas de todas as idades e categorias profissionais em ambos os lados. Muitos dos que são a favor de Orban estão ligados ao regime e querem que a sua clientela continue a ser bem tratada. Os que são contra este referendo são pessoas com um certo nível de educação, entre os 30 e os 50 anos, que se dizem sociais-democratas e discordam do rumo que o país tomou”, diz Gyula, que confia discordar do próprio pai quanto ao referendo. “Mas quando falo com ele, consigo que ele perceba tudo o que está em causa e seja razoável.“

Neste ponto, Zsuzsa não concorda com Gyula. ”Não sei se se pode falar em divisão, na minha cidade há uma maioria que vai votar a favor do Governo. Mas sei que muitas pessoas daqui nunca se encontraram com migrantes, até os estrangeiros são raros aqui”, diz a funcionária europeia.

“A maioria das pessoas daqui não tem a experiência de viver com outras culturas, excepto com os 30% da minoria cigana, com a qual já há muitos problemas de integração", diz Zsuzsa.

A maioria das pessoas daqui não tem a experiência de viver com outras culturas, excepto com os 30% da minoria cigana, com a qual já há muitos problemas de integração", faz notar Zsuzsa.

"Se o Estado não sabe gerir o problema com os ciganos como vai garantir uma integração suave de pessoas que nem falam a nossa língua?, pergunta a população. Para muitos, a sua única fonte de informação são os media oficiais, identificam os migrantes como terroristas e violadores, como os media oficiais e o Governo lhes dizem”, lamenta a entrevistada.

“Noto mais a divisão nas redes sociais, o Facebook está cheio de publicações contra e a favor do referendo. Também se nota essa divisão nas ruas de Budapeste, que se tornaram palco de uma guerra de cartazes, uns a favor e outros contra o Governo”, conta.

Um cartaz anti-imigrantes, no qual se pode ler: "Sabia que desde que começou a crise dos migrantes, mais de 300 pessoas morreram na Europa em ataques terroristas?"
Um cartaz anti-imigrantes, no qual se pode ler: "Sabia que desde que começou a crise dos migrantes, mais de 300 pessoas morreram na Europa em ataques terroristas?"
Foto: VP


Um cartaz anti-Orban, que evoca a lavagem de cérebro que o Governo húngaro está a fazer ao povo
Um cartaz anti-Orban, que evoca a lavagem de cérebro que o Governo húngaro está a fazer ao povo
Foto: VP

“Há cartazes do Governo por todo o país contra os migrantes. Até nos meios rurais, onde normalmente não se aborda a política, se discute esta questão. Só uma criança com menos de três anos não sabe que vai haver um referendo”, confirma Gyula.

Um cartaz chamado "Independência", que mostra os perigos de a Hungria querer levar uma política anti-imigratória à margem da UE
Um cartaz chamado "Independência", que mostra os perigos de a Hungria querer levar uma política anti-imigratória à margem da UE
Foto: VP

A questão do referendo da relocalização dos refugiados também divide os nossos entrevistados. “A solução devia ser encontrada ao nível da UE, partilhando as responsabilidades, com o acordo e apoio moral de todos os Estados-membros”, considera Zsuzsa.

Para Gyula, essa questão “devia ser decidida a um nível nacional [uma das propostas do referendo], a UE não devia estabelecer quotas obrigatórias de refugiados por Estado-membro, mas os governos nacionais deviam tratar este problema como uma crise humanitária que é e não como o senhor Orban está a fazer”.

Então é a favor do referendo?, interrompe o CONTACTO. “Para mim este referendo nem devia existir porque na realidade a UE ainda não fixou quotas obrigatórias nem o vai fazer. Segundo disse há dias o senhor Juncker [presidente da Comissão Europeia], cada Estado-membro vai fazê-lo de forma voluntária”, responde Gyula.

Na terça-feira, a Amnistia Internacional voltou a denunciar que os refugiados que chegam à Hungria estão a sofrer abusos “degradantes” e “desumanos” e criticou as duras medidas anti-imigração tomadas pelo Governo de Viktor Orban.

José Luís Correia

Refugiados e migrantes a forçarem a fronteira húngara
Refugiados e migrantes a forçarem a fronteira húngara
AFP


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