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O que move os brancos pobres que continuam a votar Trump?
Mundo 5 min. 11.11.2020 Do nosso arquivo online

O que move os brancos pobres que continuam a votar Trump?

O que move os brancos pobres que continuam a votar Trump?

Foto: AFP
Mundo 5 min. 11.11.2020 Do nosso arquivo online

O que move os brancos pobres que continuam a votar Trump?

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Donald Trump ganhou nos mais ricos, mas também teve milhões de votos em populações brancas empobrecidas desiludidas com a classe política dos EUA.

Raramente os presidentes que se apresentam para um segundo mandato costumam perder as eleições. Desde a presidência de Nixon é a terceira vez que tal sucedeu: Carter, George H.W. Bush (o pai de George W. Bush) e agora Trump.

O atual Presidente obteve, até este momento da contagem, mais de 71 milhões de votos nas últimas eleições, muitos milhões de votos a mais que na sua primeira ida às urnas, mas nem isso foi suficiente.

Durante quase todo o seu mandato Donald Trump conseguiu polarizar e ser simultaneamente dos presidentes mais impopulares dos EUA, com uma maioria dos eleitores contra ele, mas também o Presidente que manteve os seus apoiantes mais contentes. A quase a totalidade dos republicanos apoia sem reservas a sua gestão, quase nenhum eleitor democrata concorda com essa avaliação.

Estas eleições foram as segundas mais participadas de sempre. E as diferenças na mobilização dos dois polos, resultaram na vitória dos democratas em dois estados do sul, Arizona e Nevada, e na recuperação, por parte desses mesmos democratas, de três estados da antiga cintura industrial dos EUA: Michingan, Pensilvânia e Wisconsin, que tinham sido conquistados em 2016 por Trump, devido à sua retórica nacionalista de voltar a trazer as fábricas para o país. 

Aqui como em outros países desenvolvidos, a globalização económica provocou vencedores e vencidos tanto em termos de classes profissionais como agravando as diferenças entre as grandes cidades e o interior. Foi nessas zonas, muitas da antiga classe operária que foi fortemente sindicalizada e votante dos democratas, que Trump conquistou muitos votos em 2016.

A participação nas eleições de 3 de novembro ultrapassou os 67% dos eleitores, um número que não se tinha conseguido alcançar desde o sufrágio de 1900, altura em que votaram 73,2% dos cidadãos com capacidade eleitoral, que excluía as mulheres e grande parte dos negros do sul.

Esta polarização das eleições em que participou Trump não é nova, mas tornou-se mais explicita nestas idas às urnas. O discurso direitista e xenófobo do Presidente ajudou a exacerbar as algumas fraturas sociais como o racismo, a misoginia e a homofobia.

Tal como na primeira vez em que se candidatou, Trump foi o mais votado nos evangélicos brancos (76%), nos brancos sem formação universitária (64%), nos eleitores brancos em geral (57%), nos residentes rurais e das pequenas cidades (54%), e naqueles que ganham mais de 100.000 dólares por ano (54%). Biden, por seu lado, foi votado pela maioria das mulheres (56%) e ainda mais pelas mulheres negras (91%), a população negra em geral (87%), asiáticos (63%), latinos (66%) (embora Trump tenha ganho apoio entre cubanos e venezuelanos, graças à campanha que pretendeu associar Biden ao Governo venezuelano de Nicolas Maduro) e nos não brancos em geral (72%). Foi também votado pela maioria dos eleitores LGBT (61%), pelos jovens entre os 18 e 29 anos (62%), e pelos que ganham menos de 50.000 dólares por ano (57%), e pelos trabalhadores sindicalizados (57%) e por aqueles que vivem em cidades com mais de 50.000 habitantes (60%). Todos esses dados foram recolhidos por uma sondagem, feita pelo The New York Times, à boca das urnas.

Uma sociedade que não fala em classes

Segundo muitas dessas análises sociológicas, Donald Trump teria conseguido ganhar as eleições de 2016 devido ao apoio da classe trabalhadora branca. Estes trabalhadores empobrecidos, pela globalização e a deslocalização das fábricas, do Cinturão da Ferrugem e estes camponeses esquecidos do Alabama e do Kansas teriam votado num bilionário endividado e arrogante e com uma linguagem insultuosa como Trump, para ajustarem contas com as elites dos dois partidos que alternam no poder nos EUA, que os teriam levado a essa situação.

Segundo a historiadora Nancy Isenberg, professora de história na Universidade Estatal de Louisiana e e autora do livro, com mais de 700 páginas, “White Trash. os 400 Anos Ignorados da História das Classes Sociais Americanas”: numa sociedade alérgica à analise das classes sociais em que o suposto sonho americano e a possibilidade de mobilidade social explicaria a ausência de um forte movimento político de esquerda, começou-se a falar no conservadorismo e rudeza das populações brancas mais pobres, apelidadas de saloios, “lixo branco” e “escória branca”, para explicar em termos culturais e identitários este tipo de conflitualidade social, omitindo o conflito de classes.

“Ninguém aqui quer falar de classe social. o único momento em que essas questões foram discutidas foi durante a Grande Depressão na década de 1930. Quando se tem um terço da população desempregada, não se pode criticar as pessoas por serem preguiçosas. O problema é que o mito da ’terra de oportunidades’ foi perpetuado, por isso tento mostrar que a classe é uma questão crucial na história dos EUA”, explica a historiadora em entrevista ao seu colega Steven Forti.

Para Nanci Isenberg é irónico que uma pessoa como Trump apareça como depositário de votos dos pobres e de muitos operários levados para a miséria: “Trump: não compreende nada sobre pessoas trabalhadoras, nunca falou com elas, nunca fez nada na sua vida. É também um homem de negócios falhado e atolado em dívidas. A razão pela qual uma parte da classe trabalhadora branca gosta de Trump é a forma como ele fala: como um americano cansado da política. A sua rudeza torna-o autêntico. E isso leva-nos a uma reflexão: o que se pretende em muitos casos dos políticos é que eles se pareçam connosco. Trump adoptou a política do Sul, embora seja de Nova Iorque. Tudo o que finge ser não é, e penso que muitos dos seus eleitores sabem que ele é apenas parte de um espectáculo, uma farsa, como no wrestling. Sinceramente, não creio que a maioria das pessoas que vem aos seus comícios adore Trump, mas gosta de lá estar. É como ir a um jogo de futebol”. “Os republicanos sabem que a única forma da classe trabalhadora branca continuar a votar neles é utilizar políticas culturais e de identidade para distrair as pessoas das questões materiais”, conclui.

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