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O presidente despediu-se e acusa Comissão Europeia de não ter um projeto para atacar a covid-19
Mundo 3 min. 08.04.2020

O presidente despediu-se e acusa Comissão Europeia de não ter um projeto para atacar a covid-19

O presidente despediu-se e acusa Comissão Europeia de não ter um projeto para atacar a covid-19

Foto: AFP
Mundo 3 min. 08.04.2020

O presidente despediu-se e acusa Comissão Europeia de não ter um projeto para atacar a covid-19

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Numa carta de renúncia ao cargo, Mauro Ferrari explica que o plano que apresentou em março para pôr os cientistas europeus de topo a trabalhar na solução à pandemia “desintegrou-se”.

Considerado como o chefe dos cientistas da União Europeia, Mauro Ferrari, começou a 1 de janeiro um mandato de quatro anos, mas na carta de demissão entregue ontem a Ursula von der Leyen disse “estar extremamente desapontado”.  Na carta entregue ontem, Ferrari explica que o idealismo que o tinha levado a aceitar dirigir “esta agência de financiamento científico líder no mundo” foi “esmagado por uma realidade diferente, nos três meses em que estive no lugar. Os primeiros sinais inquietantes deram lugar ao doloroso reconhecimento de um mundo muito diferente daquele que imaginei. A pandemia da covid-19 pôs sob os holofotes o quanto eu estava errado. Em tempo de emergência, as pessoas, e as instituições, retornam à sua natureza mais profunda e revelam o seu caráter verdadeiro”.

As críticas de Mauro Ferrari - um pioneiro da aplicação da nanotecnologia ao campo médico,  que aceitou o convite da Comissão  para dirigir a principal agência de financiamento de pesquisa de ponta -  referem-se especificamente à falta de reorientação do esforço dos cientistas quando se tornou evidente que a situação de pandemia “se transformaria numa tragédia de proporções sem precedentes. Tomei medidas para que o Conselho Europeu de Investigação (CEI) criasse um programa especial para combater a covid-19. O que achei justificável, tendo em conta o expectável número de mortes, sofrimento, transformação social e devastação económica, atingindo em especial os menos afortunados, os mais fracos nas sociedades do mundo”.

No documento dirigido à presidente da Comissão Europeia, Marco Ferrari prossegue dizendo que “num tempo como este, os melhores cientistas do mundo deveriam providenciar os recursos e as oportunidades para lutar contra a pandemia, com novas drogas, novas vacinas, novas ferramentas de diagnóstico, e novas abordagens baseadas na ciência”. A iniciativa, diz Ferrari, foi unanimemente rejeitada, pelos órgãos superiores à agência, de uma forma que “a minha presidência foi no seu todo bloqueada”.  A negação da proposta foi explicada, diz Ferrari, por este organismo ter, por lei, uma estratégia “de baixo para cima” ou seja, financia projetos que lhe são apresentados e não o contrário; encomenda projetos específicos. Só que, diz o cientista, em tempos de crise, isso deveria ser ultrapassado.

“É verdade que a Comissão Europeia não tem uma estratégia “de cima para baixo” de financiamento de programas, e houve já vários programas que nos foram apresentados para lutar contra a pandemia. Contudo, eles formam um conjunto avulso de iniciativas, sem nenhum ênfase em descobertas revolucionárias”. Em resposta às objeções da Comissão Europeia de que o papel do CEI, como agência financiadora, não era orientar projetos científicos europeus, Mauro Ferrari  respondeu que “não é o momento para questões administrativas” ou para garantir se “ todos os setores iriam beneficiar igualmente de uma iniciativa extensa sobre a covid-19”. 

“Fiquei claramente perturbado com a rejeição unânime”, diz. O desapontamento foi, no entanto, aliviado quando a própria presidente da Comissão lhe pediu conselho sobre a resposta à pandemia. “Durante uns dias esbocei um plano, sobre vários itens”. O plano não sobreviveria, conta: “O facto de eu ter trabalhado diretamente com ela gerou uma tempestade”. E a proposta “passou por diversas camadas da administração da Comissão Europeia e desintegrou-se”.

Em resumo, Mauro Ferrari explica a sua vasta decepção: “Com a completa ausência de coordenação nas políticas de saúde entre os Estados-membros, a oposição recorrente a iniciativas financeiras, os contínuos fechos unilaterais de fronteiras, e a escala marginal de iniciativas científicas conjuntas”.

Mauro Ferrari nasceu em Pádua, Itália, há 60 anos, e desenvolveu a carreira nos Estados Unidos, primeiro no campo da engenharia e depois da investigação científica em biotecnologia. Numa entrevista ao Guardian, explicou que a morte da mulher, vítima de cancro aos 32 anos, o fez reorientar a sua vida profissional para o campo da medicina. Antes de aceitar o lugar na agência científica europeia era presidente de um instituto de pesquisa em Houston, nos Estados Unidos. 

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