Escolha as suas informações

O poderoso Boris e o Brexit num instantinho
Mundo 5 min. 18.12.2019 Do nosso arquivo online

O poderoso Boris e o Brexit num instantinho

O poderoso Boris e o Brexit num instantinho

Mundo 5 min. 18.12.2019 Do nosso arquivo online

O poderoso Boris e o Brexit num instantinho

A saída da União Europeia vai continuar a assombrar o Reino Unido que ameaça tornar-se desunido.

A vitória do Partido Conservador, nas eleições britânicas, deu uma espécie de poder absoluto a Boris Johnson. O primeiro-ministro britânico terá pouca oposição dentro e fora do seu partido. Por um lado, os trabalhistas saíram destas eleições sem líder; por outro, o Governo Conservador deixou de estar refém da sua ala direita.

No entanto, nem tudo são rosas para o ocupante do número 10 da Downing Street. As mesmas eleições que lhe deram uma maior fatia do poder, reforçaram também o peso eleitoral dos nacionalistas escoceses e irlandeses. Finalmente, embora Boris Johnson possa marcar o brexit para breve, o processo não acaba aí. Apenas começa. E serão grandes as pressões dos empresários para uma saída com um acordo abrangente com a União Europeia.

Vamos por partes. Os independentistas da Escócia do Partido Nacionalista Escocês que elegeram 48 dos 59 deputados no seu território e já fizeram saber que querem usar o seu desejo de permanecer na União Europeia como desculpa para convocar um novo referendo sobre a independência. E se é verdade que só tiveram 43% dos votos, a realidade é que no anterior referendo o grande argumento contra a “sim” é que se a Escócia fosse independente não poderia permanecer na União Europeia. Agora verifica-se que é o contrário. E uma repetição da consulta popular não são favas contadas para os defensores da unidade do Reino Unido.

Os mesmos ventos de tempestade previsível parecem soprar na Irlanda do Norte, com os partidos nacionalistas irlandeses a ultrapassarem, pela primeira vez numas eleições, as formações unionistas.

O Brexit foi a única proposta relevante dos conservadores nestas eleições. Os britânicos estavam fartos do embróglio parlamentar sem fim, para qual o slogan dos conservadores “Get Brexit done”, apareceu como uma resposta.

É previsível que a saída do Reino Unido se efetive rapidamente. Mas a aprovação da saída não acaba com o processo, apenas o inicia. A parte de leão é a negociação de um tratado comercial que regerá, no futuro, as relações entre União Europeia e Reino Unido.

Para isso, Boris Johnson não tem oposição no seu partido, nem fora dele, no Parlamento. Mas a tarefa não será fácil. O mundo empresarial quererá que o primeiro-ministro deixa cair a sua promessa de fechar um acordo comercial o mais rapidamente possível até ao fim do ano 2020, e que privilegie o objetivo de conseguir o melhor acordo e não o mais rápido, para defender os seus interesses económicos. Nisso, como nota o correspondente do El País Walter Oppenheimer, a grande notícia é que a Boris nunca custou romper as suas promessas.

Guerra civil nos trabalhistas

O terceiro dado político importante, depois do Brexit e das tendências nacionalistas na Escócia e na Irlanda do Norte , é o que vai suceder à esquerda britânica. O consulado de Jeremy Corbin foi uma resposta tardia ao desvio para a direita da “Terceira Via” de Tony Blair que deixou os trabalhistas a fazer a política dos conservadores.

A queda abruta dos eleitos trabalhistas veio colocar em causa esta reorientação à esquerda. Corbyn não conseguiu fazer a mediatriz entre as questões sociais de esquerda, como a defesa do Serviço Nacional de Saúde que Boris Johnson quer privatizar, e uma posição pouco clara sobre o Brexit. Por um lado, os votantes jovens (cerca de 67% votaram nos trabalhistas) queriam o ’remain’, junto com os eleitores mais urbanos de Londres; por outro lado, os bastiões operários do centro e norte do Reino Unido tinham votado pelo Brexit. O resultado desta confusão foi a perda de votos preciosos e de muitos deputados.

No entanto, o resultado é enganador. É verdade que os trabalhistas tiveram o seu pior resultado em termos de eleição de deputados, desde 1935, quando Clement Attlee elegeu apenas 154 parlamentares.

Acresce que muitos analistas afirmam que os trabalhistas nunca conseguiram ter bons resultados eleitorais quando descuram o centro e se posicionam à esquerda.

Mas isso não parece ser uma verdade eterna comprovada pelos números. Não se pode comentar a vitória expressiva do Partido Conservador sem atentar às distorções que o sistema eleitoral uninominal produz. Uma análise dos votantes, em vez do número de eleitos no parlamento, revela dados interessantes: os 59 círculos perdidos pelos trabalhistas foram devidos a uma queda de 8% na votação geral em relação a 2017, quando o resultado do partido com Jeremy Corbyn (o melhor resultado desde 2001) foi a grande surpresa da noite. Os 32% obtidos agora são apenas 3% a menos que a percentagem obtida na última vitória de Tony Blair em 2005, e 3% a mais que a apertada derrota para os conservadores de David Cameron em 2010.

Não se trata de absolver Corbyn da responsabilidade pela derrota. Mas é inegável que as últimas idas às urnas funcionaram em grande parte como referendos sobre o referendo do Brexit em 2016, e que os esforços trabalhistas para transformá-los em debates sobre a desigualdade económica falharam. O Brexit foi um enorme obstáculo à tentativa dos trabalhistas de voltar a criar uma polarização clara entre esquerda e direita por um motivo simples: é um tema que atravessa todo o eleitorado horizontalmente. A saída do Reino Unido da União Europeia é tanto apoiada por multimilionários interessados em transformar o Reino Unido num paraíso fiscal quanto por comunidades perdedoras no processo de globalização e vítimas de décadas de desindustrialização e abandono. O Brexit criou uma ilusória convergência de interesses entre camadas sociais que se opunham em tudo o mais.

Na verdade, o Brexit dividia mesmo a meio a própria coligação diversa que tinha conseguido a eleição de Corbyn para a liderança do partido. Os trabalhistas tinham a missão impossível de manter uma aliança eleitoral que combinava sua base social tradicional nas pequenas cidades de Gales e do norte da Inglaterra, maioritariamente a favor de sair da União Europeia, e uma juventude urbana a favor de ficar. A trágica verdade, como escreve o professor de filosofia Rodrigo Nunes no El País, é que provavelmente Corbyn não conseguiria vencer nem com uma plataforma pró-Brexit, nem com uma plataforma contra. E também não conseguiu fazer sendo pouco claro sobre essa matéria.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Europeias. Partido Brexit claro vencedor no Reino Unido
"Nunca na política britânica um partido com apenas seis semanas ganhou uma eleição nacional. Se o Reino Unido não sair a 31 de outubro, estes resultados vão repetir-se numas eleições legislativas", avisou Nigel Farage, o eurodeputado e líder do Partido Brexit.