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O paraíso em guerra
Editorial Mundo 2 min. 16.10.2019

O paraíso em guerra

O paraíso em guerra

Foto: AFP
Editorial Mundo 2 min. 16.10.2019

O paraíso em guerra

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Onde se fala de uma reportagem feita há dois anos, para se perceber o conflito que está longe de se resolver.

O estabelecimento chama-se “O Paraíso”, está na Gran Via de Les Corts Catalanes, o dono chama-se Luis Suárez. Tem 59 anos e vive em Barcelona há 28. Os seus avós morreram na guerra civil. Viveu com os seus pais em Paris onde trabalhou. Diz com orgulho que estudou dois anos de Direito na mítica Sorbonne. Aí quando era pequeno conheceu um refugiado espanhol, que tinha combatido na Guerra Civil de Espanha. Paco, de seu nome, garantiu-lhe que Espanha e a República pela qual combateu tinha só dois cancros: “os bascos e os catalães”.

Fala também catalão, mas diz que não quer ser órfão: “tenho país, sou espanhol”. Viu o referendo como uma “fantochada”. Tem posições apaixonadas e firmes sobre tudo. De tal forma, que diz com um carinho misturado de dureza, “estive dois anos sem falar com o meu filho único, de 26 anos, porque ele é independentista”.

Quando lhe pergunto se lhe agradou a atuação da polícia espanhola no referendo do dia 1 de outubro de 2017, responde-me com a mesma convicção que põe em tudo: “foi terrível, uma vergonha. Não se bate em mulheres, velhos e crianças. Só serviu para dar mais força aos independentistas”.

Como é possível Luis ter um filho Fermín que é independentista? Fala com muito orgulho do filho, que se formou numa das universidades mais difíceis de Barcelona e que é jornalista, mas com o qual se desentende na política, e tem para a divergência uma explicação curial: “é a influência da mãe, ela é professora e sempre foi independentista. Aliás, discutíamos muito, tanto que nos separamos”. Mas se discutiam tanto, como é que fizeram família? “Estava muito apaixonado por ela, é uma mulher linda e inteligente”, sorri o homem, para quem Franco era um ditador, mas desenvolveu muito a Catalunha.

Horas depois, encontro-me com Fermín Suárez. Jornalista de profissão, explica o seu “independentismo”: “Eu não sou independentista desde sempre, tornei-me. Há independentistas históricos e emocionais e eu sou pragmático. Isto assim não pode continuar. Nada de bom vem de um governo corrupto e inepto como o do PP”. Fermín nega que tenha sido influência da mãe, “nenhum dos meus pais é independentista, o que acontece é que o meu pai é de direita e a minha mãe de esquerda, mas sempre votou no PSC (o ramo catalão do PSOE)”.

Dois anos depois, a justiça espanhola, conhecida pela sua submissão ao poder político de Madrid, resolveu condenar os líderes independentistas que organizaram o referendo simbólico de 1 de outubro, que foi reprimido a tiro e à bastonada, com penas até 13 anos de prisão. Desde o tempo de Franco, que os governos de Madrid acham que divergências políticas se resolvem ou prendendo as pessoas com outras opiniões ou, nos dias comuns, à bastonada e ao tiro da polícia de choque. Deviam já saber que os problemas políticos exigem soluções políticas.

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