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O país esquecido, um ano depois dos talibã tomarem Cabul
Mundo 9 min. 15.08.2022
Afeganistão

O país esquecido, um ano depois dos talibã tomarem Cabul

Combatentes talibãs cantaram slogans de vitória ao lado da embaixada dos EUA em Cabul a 15 de agosto de 2022, data que marca o primeiro aniversário de seu regresso ao poder no Afeganistão.
Afeganistão

O país esquecido, um ano depois dos talibã tomarem Cabul

Combatentes talibãs cantaram slogans de vitória ao lado da embaixada dos EUA em Cabul a 15 de agosto de 2022, data que marca o primeiro aniversário de seu regresso ao poder no Afeganistão.
Foto: AFP
Mundo 9 min. 15.08.2022
Afeganistão

O país esquecido, um ano depois dos talibã tomarem Cabul

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
O apoio humanitário foi quase todo suspenso deixando os afegãos entregues à sua crise múltipla: fome, caos e terror. Um relatório do Comité de Resgate Internacional diz que o mundo abandonou os afegãos ao seu destino.

Faz esta segunda-feira apenas um ano que os taliban tomaram Cabul, após uma caótica retirada das tropas dos Estados Unidos. O que se passou nesse dia e nos dias que se seguiram horrorizou o mundo. Biden tinha prometido que a sua administração não iria manter mais botas militares norte-americanas no Afeganistão – após a mais longa guerra do país no estrangeiro – e fazendo cumprir um acordo negociado com os líderes dos talibã ainda pelo presidente Donald Trump.

Mas a visão em direto da chegada triunfal a Cabul dos extremistas precipitando-se das montanhas, sem entraves, nas suas carrinhas Toyota repletas de armas automáticas, e a evacuação atabalhoada de pessoal americano e de colaboradores afegãos, rompeu o código de honra americano de que “ninguém ficaria para trás”.

De um dia para o outro o poder mudou de mãos, a 17 de agosto, e o presidente Ashraf Ghani fugiu do país.

Muitos ficaram para trás, os que tinham ligações ao anterior governo de Ghani, protegido pelos americanos, já foram mortos, ou estão escondidos.

E atualmente, quase todos os afegãos estão sujeitos a uma crise humanitária infinita. Os relatos na imprensa internacional dão conta de um regresso aos tempos de antes da chegada dos americanos em 2001 e da fuga dos talibã para zonas rurais remotas. Voltaram as execuções sumárias, espancamento de mulheres e opositores e terror indiscriminado, caos e fome. Embora Hibatullah Akhundzada, o emir do atual emirado islâmico do Afeganistão, tenha prometido uma mão menos pesada.

 O dia em que pessoas caíram de um avião em Cabul

No dia 16 de agosto de 2021, assistimos àquilo que foi descrito como uma retirada pior do que a de Saigão em 1975, que marcou a derrota do exército americano no Vietnam. Nesse dia de agosto, os EUA e o Canadá estavam a providenciar, alegadamente, evacuação a todos os que quisessem fugir. Mas a operação no aeroporto internacional Hamid Karzai foi caótica, com milhares de pessoas desesperadas a tentarem subir as redes para acederem à pista e rumores de ameaças de ataques dos talibã. Não havia tempo e condições para transportar todos os que queriam fugir.

Smartphones captavam as cenas e enviavam para o exterior imagens de centenas de afegãos a correr ao lado de um Boeing C-17, avião usado no transporte de tropas, agora enviado para resgatar civis. Quando o avião levantou voo, as câmaras mostraram pequenos pontos negros a caírem dos céus. Eram pessoas que se tinham agarrado ao exterior do avião e se despenharam sobre os telhados de Cabul. Um deles foi identificado como um promissor futebolista, outro como um jovem dentista. Outros quatro corpos ficaram na pista e restos mortais foram encontrados no trem de aterragem à chegada aos EUA.

A 26 de agosto, uma bomba espoletada por um suicida mataria 170 pessoas que esperavam embarcar nos últimos voos a deixar Cabul e 13 tropas norte-americanos. A administração de Joe Biden sofreu um pequeno safanão na sua popularidade, mas depois do último comandante sair do Afeganistão, uma cortina caiu sobre o país.

E agora temos a Ucrânia com que nos preocupar.

No domingo, dia 14, na véspera da efeméride, o Comité Internacional de Resgate, ou na sigla em inglês, International Rescue Committee (IRC), fundado em 1933 por Albert Einstein e atualmente dirigido pelo político inglês David Miliband, emitiu um comunicado sombrio. O título já diz muito: “Afeganistão: um ano de negligência leva a que as necessidades humanitárias aumentem três vezes. A atual crise pode matar mais afegãos que 20 anos de guerra”.  

Ou seja, as duas décadas em que tropas americanas apoiaram um governo em Cabul enquanto obrigavam os talibã a refugiarem-se nas montanhas, de onde retaliavam. “Um ano depois da mudança de poder no Afeganistão, o colapso económico levou a uma espiral de fome que castiga todos os dias os seus cidadãos”, diz o comunicado.

Congelamento de reservas afegãs, colapso do setor bancário

“Durante duas décadas, o Afeganistão apoiou-se fortemente em ajuda externa, muita da qual foi suspensa ou congelada no último ano – com um impacto significativo na vida dos afegãos em todo o país”, lamenta a instituição. A explicação do IRC é que “a redução do apoio humanitário, muito do qual foi suspenso ou congelado no último ano – teve um impacto significativo no bem-estar dos afegãos em todo o país. A redução em apoio humanitário, combinado com o congelamento das reservas afegãs no estrangeiro e o desmantelamento do setor bancário produziram a tempestade perfeita para o colapso económico. Ao mesmo tempo, restrições do acesso das mulheres ao trabalho contribuíram para o falhanço económico, produzindo uma queda de 5% do PIB afegão”.

Segundo a organização, o impacto para os afegãos tem sido devastador “com níveis brutais de desemprego, fome crescente e a desintegração da sociedade civil”. Um estudo recente do IRC descobriu que 77% das organizações dirigidas por mulheres perdeu os seus fundos e quase todas fecharam as atividades. “Estas organizações locais são fundamentais para fornecer serviços para as comunidades mais vulneráveis, especialmente mulheres e crianças das áreas rurais”.

“Quando a família passa fome, a mulher é a última a comer”

Vicki Aken, responsável pelo IRC no Afeganistão salientou que “ a decisão dos líderes mundiais de isolarem o governo talibã, destruiu a economia, o setor bancário e mergulhou o país numa catástrofe humanitária que deixou mais de 24 milhões sem comida suficiente. E quando uma família afegã passa fome, a mulher é a última a comer”.

Do ponto de vista de Vicki Aiken, o atual apoio humanitário ao Afeganistão é 44% abaixo do mínimo absoluto, mas entende que além de ser necessário fazer chegar o apoio às zonas mais carenciadas “a ajuda humanitária não pode substituir um Estado e uma economia a funcionar. As famílias afegãs continuam a pagar o preço do impasse político e os líderes mundiais têm que se esforçar por multiplicar a ajuda humanitária e ao mesmo tempo assegurar que os afegãos conseguem ter acesso a emprego e cuidados de saúde. Pedimos que as instituições internacionais atuem com urgência para fornecer apoio técnico ao setor bancário para o ajudar a voltar a funcionar. 

“Os afegãos precisam mais do que uma boia de salvação humanitária, precisam de uma economia a funcionar”, entende Vicki Aken.

Um país menos inacessível do que se imagina, diz o IRC

Nos últimos doze meses, o IRC diz ter duplicado os seus compromissos com os afegãos. E as suas equipas estão a operar em 12 províncias “fornecendo serviços de saúde vitais, educação e apoio para mulheres e raparigas onde desenvolvemos relações profundas com líderes das comunidades”. O staff do IRC é, segundo o comunicado, composto por 99% de afegãos, dos quais 40% são mulheres. E, acrescenta o comité, à medida que a situação de segurança melhorou, as equipas conseguiram chegar a zonas remotas do país onde nenhum estrangeiro ia desde há décadas. 

A ideia do IRC é que o Afeganistão está menos inacessível do que o discurso oficial dos líderes mundiais quer fazer acreditar, quando classificam o país como um Estado falhado. “Na zona de Helmand, por exemplo, o IRC conseguiu distribuir cuidados básicos de saúde, programas de educação e dinheiro em áreas anteriormente isoladas por causa da guerrilha. Além disso, a melhoria do acesso significa que o IRC pôde dar assistência de emergência nas vilas mais remotas afetadas pelo terramoto nas zonas de Paktika e Khost”.

O IRC está ativo no Afeganistão desde 1988 e 99% do seu staff no país é atualmente constituído por afegãos. O apoio inclui ajudar as comunidades a criar os seus próprios projetos de desenvolvimento incluindo água potável, tendas, e outras necessidades básicas.

A Europa já está noutra: a Ucrânia e os seus próprios medos

O dia 15 de Agosto de 2021 chocou as capitais europeias e as suas instituições, que à semelhança dos EUA “organizaram” um atabalhoado processo de retirada de pessoal e colaboradores de Cabul enquanto os talibã galgavam as estradas em redor de Cabul. Numa auto-análise, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, concluía que “a retirada caótica do Afeganistão obriga-nos a acelerar um pensamento honesto sobre a defesa europeia. Esta crise afegã obriga-nos a um exercício de larga escala sobre a nossa autonomia estratégica”. O choque nas capitais europeias deveu-se também a quão rápido os guerrilheiros chegaram à capital e até que ponto fracassaram os serviços de segurança de todos os países, que desconheciam o terreno.

A 12 de outubro de 2021 a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou um pacote de ajuda humanitária ao Afeganistão de 550 milhões de euros em apoio humanitário. Em janeiro, a UE lançou 14 projetos no valor de 268 milhões de euros para projetos de apoio aos mais carenciados no Afeganistão. Recentemente, após o terramoto de 22 de junho que matou mais de mil pessoas, a UE doou mais um milhão de euros ao país. Mas, no geral, desde que a guerra na Ucrânia começou, as atenções europeias viraram-se para questões da sua própria sobrevivência: política, militar e energética. E os seis milhões de refugiados afegãos deixaram igualmente de ser notícia.

O Serviço de Ação Externa (SAE) da União Europeia emitiu um comunicado atestando o seu apoio ao “desenvolvimento de um Afeganistão estável, pacífico e próspero através dos seus compromissos e o apoio humanitário”. No comunicado emitido na véspera da efeméride da tomada de Cabul, o SAE refere que “reitera que o Afeganistão deve aderir aos tratados internacionais” e que “a UE está particularmente preocupada pelo destino das mulheres e raparigas afegãs que viram as suas liberdades, direitos e acesso a serviços básicos, incluindo educação, serem sistematicamente negados”.

 E - já depois da morte, a dois de agosto, de Ayman al-Zawahiri, em Cabul, por um ataque de drone dirigido por Washington - , o comunicado da agência responsável pela diplomacia europeia salienta que “o Afeganistão não deve colocar em risco a segurança de nenhum país”. 

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