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O mundo precisava de um assunto novo
Opinião Mundo 7 min. 06.11.2020

O mundo precisava de um assunto novo

O mundo precisava de um assunto novo

Foto: AFP
Opinião Mundo 7 min. 06.11.2020

O mundo precisava de um assunto novo

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Três dias de projeções depois estou aqui a arrepender-me por ter prometido ao chefe de redação que escreveria sobre as eleições. Perguntei-lhe: como queres que escreva sobre umas eleições das quais ninguém conhece o resultado?

Esta semana dormi mal. Não foi por estar meio adoentado, mas porque decidi fazer uma quase direta para saber antes de todos os dorminhocos quem seria o próximo presidente dos Estados Unidos da América.

Por volta das duas da manhã comecei a fazer zapping e a escolher os canais com mais debates, com mais projeções, com mais informação imediata e com mais certezas. Eu queria resultados.

Farto de ouvir os debates nas televisões portuguesas achei que era melhor recorrer à fonte. Afinal sou poliglota e posso dar-me ao luxo de seguir as eleições americanas num canal americano, em inglês. Seria mais difícil fazer a mesma coisa se se tratasse das eleições no Cazaquistão ou no Sri Lanka mas, nesses dois casos, também estaria menos interessado no ato eleitoral.

Aterrei na CNN. Porquê? Porque Trump lhes bateu tanto durante os últimos quatro anos que deu pena. Passada uma meia hora pensei que estava a ver uma emissão do canal do Partido Democrata. Entendo que pudesse haver um alívio na redação com a perspetiva de que Biden fosse eleito, mas, já dizia a minha avó quando eu jogava à bola a tarde toda nas férias de verão: o que é demais é erro. Parecia que um manda-chuva lá da CNN tinha dito aos jornalistas: as sondagens disseram que Biden vai ganhar, vamos começar a deitar foguetes. Foi sol de pouca dura. Apesar de a CNN estar otimista em relação à vitória de Biden, cedo começaram a duvidar e a perceber que a famosa vaga azul não era propriamente uma onda da Nazaré mas parecia-se mais uma daquelas ondinhas de Ferragudo. Mas nem sequer daquelas que se formam quando passam os barcos de pesca, uma das normais, quando não há vento nem nada. Creio que já ilustrei bem a ideia: não houve vaga azul, não houve o “landslide” democrata que se anunciava. Nada disso, a vitória de Biden, à medida que a noite avançava parecia cada vez menos provável.

Mudei para a Fox News. A televisão “oficial” de Donald Trump. Por lá tudo corria bem. Quanto mais a CNN se preocupava, mais a Fox festejava.

Mudei para a Sky News pensando: são ingleses, não têm nada que ver com isto, talvez sejam mais independentes. Foram. A Sky é tão independente que começou a dizer que não íamos saber nada naquela madrugada e começaram a fazer-me pensar que não tinha feito suficiente chá preto e que devia ter comprado mais chocolates Regina, daqueles manhosos com sabor a frutas que me fazem dor de barriga desde os 14 anos.

Às cinco da manhã desisti. Nada. Não havia presidente. Fui dormir. Pensei acordar com uma série de notificações no iPhone a anunciar-me quem tinha conquistado a presidência. Nicles. Nada. Zero.

Três dias de projeções depois estou aqui a arrepender-me por ter prometido ao chefe de redação que escreveria sobre as eleições. Perguntei-lhe: como queres que escreva sobre umas eleições das quais ninguém conhece o resultado?

Respondeu-me que isso é que tem graça. Lembrei-lhe a história daquele jornalista que tinha decidido não ir ver um jogo de andebol pensando que podia “inventar” um artigo baseado numa simples informação sobre resultado. O pavilhão desabou, o jogo foi interrompido quando estava 20-20 e o jornalista contou na sua crónica do dia seguinte que foi uma partida muito disputada e que terminou empatada. Não mencionou obviamente o facto de que tinham morrido várias pessoas debaixo dos escombros. “Percebeste?”, disse eu, “não se pode analisar as eleições sem saber o resultado”.

Como sou uma pessoa adorável, bem-educada e de boas maneiras, acedi. Vou escrever sobre as eleições, mas quero falar da importância que elas têm para o mundo, para nós, para mim e para ti. Como qualquer analista político, decidi usar o método científico e inquirir, observar.

Mandei a pergunta a mais de uma dúzia de amigos e amigas no Facebook: “que achas das eleições presidenciais americanas?”.

O Carlos não respondeu, nunca responde. Ainda outro dia só me atendeu o telefone porque eu estava no carro à frente dele e fiz-lhe sinal de piscas para ele ver que eu estava a ver que ele estava a ver a minha chamada no painel de instrumentos do Honda. O José também não, está sempre muito ocupado. Ambos leram a mensame por o Facebook é mesmo maravilhoso e mostra que o destinatário já leu, mas prontos... como sou adorável, bem-educado e de boas maneiras não lhes voltei a perguntar: “então?”.

Com a minha amostra reduzida, esperei análises profundas dos outros destinatários da questão. Demoravam a responder porque, certamente, se encontravam a refletir profundamente sobre as ideias que iriam partilhar comigo.

Surpresa! O Miguel enviou rapidamente um vídeo no qual Trump dançava a Macarena numa tribo do Amazonas. Uma montagem manhosa deixava perceber que o bailarino era um indígena de pele escura, magrinho, a quem tinham colado uma cabeça de Trump. Interessante. A análise do Miguel quererá dizer que mesmo na Amazónia profunda as pessoas estão interessadas nas eleições nos States?

A Neusa foi mais clara e não deixou margem para dúvidas interpretativas: “é pá, ó Raúl, eu quero que se lixem as eleições, a miúda anda com dor de dentes e não me deixou dormir!”.

Interessante. A Neusa está claramente a afirmar que o local prima sobre o global e que a mundialização é um processo que devemos reverter.

A Rita respondeu com uma captura de ecrã do Twitter (não sei se é real ou não, mas fica aqui o aviso) em que um português, com o nome Gajo Desempregado, reage às queixas de Trump sobre os atrasos na contagem de votos com uma frase em anglo-português: “My friend, how se diz em Portugal: until clining de cestos is vindaimes”. Interessante. A Rita está abertamente a dizer que, para ela, o acompanhamento do processo democrático nos Estados Unidos é fascinante e que o facto de o processo durar muito tempo é tão recompensador como participar na tradicional atividade de produção do vinho, com métodos artesanais que levam o seu tempo para produzir um excelente resultado.

O Manel respondeu (os # substituem um ou dois palavrões): “O ##### ## #### do Biden não consegue ganhar ao palhaço? O ####### do rato Mickey ganhava ao ##### ## #### do Trump. Os ##### dos democratas não são capazes de arranjar melhor que o ####### do Biden? ####### que os ####!”. Interessante. O Manel não responde à minha pergunta, mas questiona-se sobre o processo de escolha dos candidatos, a relevância do processo de primárias e indica, com fortes exclamações, que o financiamento dos partidos e dos candidatos no sistema norte-americano não será talvez o mais indicado.

Os outros amigos, sobretudo homens, enviaram-me vários vídeos de caráter pornográfico, ligações do Pornhub, um filmezinho brasileiro em que um casal faz aquilo que, segundo a legenda, é um helicóptero e, last but not least, recebi um vídeo no qual um médico francês agradece a outros colegas seus por estarem a utilizar a hidroxicloroquina e a conseguir, finalmente, salvar vidas. Interessante. A Susana está nitidamente a afirmar com esta resposta em formato audiovisual que a pandemia não deveria ter saído do centro das nossas atenções e que esse é mesmo o assunto mais relevante, remetendo para segundo plano o impacto das eleições americanas nos meios de comunicação.

Quando já estava a tirar as minhas conclusões e a escrever estas linhas apercebi-me que a Sónia tinha enviado uma resposta que confirma a posição da Susana: “com tanta informação sobre a pandemia, o mundo precisava de um assunto novo”.

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