Escolha as suas informações

O mundo larga o vício do petróleo em 2025, mas é cedo para saber se catástrofe climática é evitada
Mundo 8 min. 14.10.2021
Energia e alterações climáticas

O mundo larga o vício do petróleo em 2025, mas é cedo para saber se catástrofe climática é evitada

Energia e alterações climáticas

O mundo larga o vício do petróleo em 2025, mas é cedo para saber se catástrofe climática é evitada

Foto: AFP
Mundo 8 min. 14.10.2021
Energia e alterações climáticas

O mundo larga o vício do petróleo em 2025, mas é cedo para saber se catástrofe climática é evitada

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, diz que a meta de 1.5 C de aquecimento é atingível, se forem triplicados os investimentos nas renováveis e se os países aumentarem as suas ambições na COP26, a conferência do clima, em novembro.

Apresentado um mês antes do habitual, o relatório anual da Agência Internacional de Energia (IEA) Panorama da Energia no Mundo, referente a 2021, mostra o “momento histórico” do mundo a entrar na nova economia verde. Para poder integrar parte da discussão que irá decorrer em Glasgow, durante a conferência do clima, COP26, o relatório saiu em outubro e não em novembro e poderá ser descarregado por quem quiser e sem custos no site da agência. 


Poluição do ar deve ser cortada para metade
A agência de saúde diz que o “novo tabaco” mata 7 milhões de pessoas por ano. Na UE são 400 mil pessoas e a Comissão Europeia abriu uma consulta pública sobre a revisão das normas de níveis aceitáveis de partículas poluentes.

O relatório deste ano fez pela primeira vez uma análise de todas as promessas dos países sobre os seus compromissos para eliminarem os combustíveis fósseis e concluiu que, elas “só chegam a 20% do seria preciso para reduzir suficientemente as emissões em 2030 e colocar o mundo no caminho para a descarbonização em 2050”. Segundo a IEA, a soma dos compromissos declarados de todos os países levarão o mundo a ultrapassar os 2ºC de aquecimento global em relação à era pré-industrial em 2100, com consequências catastróficas para toda a vida na Terra.

Já em 2025 os carros elétricos arrasam mercado de petróleo 

Apesar desta conclusão assustadora, há motivos para acreditar que eliminar as emissões completamente em 2050 ainda é possível. Fatih Birol, diretor executivo da IEA, vê sinais vindos de efeitos em cascata de decisões políticas e alterações nos fluxos de investimento. 

A alteração mais promissora vem da indústria automóvel e as consequências muito evidentes que irão ter no mercado do petróleo. “Se as políticas atuais forem implementadas, o consumo de petróleo começará a cair mundialmente em 2025. 

Muitos governos têm políticas de erradicação de automóveis com motor de combustão. E muitos construtores já só farão veículos elétricos a partir de 2030. Os dados deste mês de setembro na China, que é o maior mercado automóvel mundial, mostra que mais de 20% de todos os carros vendidos eram elétricos. Na Europa, atualmente, mais de 20% dos carros vendidos são elétricos”, disse Fatih Birol, na apresentação do relatório, publicado ontem. Refira-se que no pacote de transição económica Fit for 55, que está a ser debatido na União Europeia, em 2035 não podem ser vendidos carros com motor de combustão nos países da UE. 

Antes de começar a sair de cena, haverá um “regresso da procura de petróleo, mas em 2025 podemos ver um achatamento. A razão disto são os carros elétricos- que de 5% do mercado de hoje, passarão para 30% em 2030 – uma combinação de decisão dos fabricantes e de implementação de políticas. As energias renováveis dispararam e os fabricantes de carros alteraram o seu modelo de negócio”, explicou Laura Cozzy, coordenadora do Panorama da Energia no Mundo, 2021. 

2030: a década da viragem na história humana 

Da análise das tendências energéticas, Laura Cozzy sustenta que “na verdade pela primeira vez na história humana vamos entrar na década do ponto de viragem, havendo crescimento económico com declínio de emissões de dióxido de carbono. Isto é novo, nunca aconteceu na história humana”. 


Eurodeputados querem que energia seja um "bem comum" e propõem um "apagão" de protesto
A escalada dos preços da eletricidade e o receio de que não haja provisões suficientes para o inverno continua a alimentar discussões nas instituições europeias.

Além de a adesão dos consumidores ao mercado dos carros elétricos há outros fatores. O extermínio do carvão é um dos principais. Esta será também a última década em que se irão construir novas centrais a carvão. “As emissões de carvão não vão atingir zero em 2050, segundo as tendências atuais”, disse, mas um dos pontos de viragem é que a China anunciou em setembro que vai deixar de financiar novas centrais no estrangeiro. Ao mesmo tempo, as energias eólicas e solares vão continuar a expandir e a tornar-se cada vez mais baratas. 

Fatih Bairol salientou: “A mensagem é clara, está já a nascer uma nova economia energética global, mais limpa, mais segura e justa em todos os países”. Dentro de pouco tempo, segundo a análise da IEA, “o valor global do mercado de energias renováveis valerá mais que o mercado de petróleo e gás. “E este interesse irá pressionar os fluxos financeiros”, salientou Bairol. 

Para Laura Cozzy, um bom sinal é que os países que correspondem a 70% das emissões mundiais têm compromissos de atingir a neutralidade carbónica em 2050. E a especialista em energia vê nos gráficos, uma clara influência do Acordo de Paris – mesmo que não tenha sido ainda completamente implementado – no comportamento das emissões de gases com efeito de estufa. “Sem o Acordo de Paris podíamos esperar uma curva continuamente ascendente. E isso levaria a alterações climáticas catastróficas, com mais de 3 graus no fim do século”. 

 Mas ainda não estamos em terreno seguro 

Preencher o intervalo que falta entre os menos de 20% de redução de emissões para o que seria preciso vai depender de várias intervenções. “Se forem postas em prática as políticas certas, acompanhadas com o investimento adequado” é possível descarbonizar a economia para cumprir a meta ambiciosa do Acordo de Paris de 1.5C de aquecimento global, entende Fatih Birol.

Por isso, o relatório que poderia ser desolador evidencia também grandes oportunidades, segundo os responsáveis da IEA .“ Podemos ir deste relatório insatisfatório para o problema climático para uma solução para o nosso problema climático, alcançando o1.5 C”, refere Fatih Birol. 

E é explicado como fazê-lo no setor energético. Em primeiro lugar, será preciso triplicar o investimento que já existe nas renováveis. “Se isso não acontecer, haverá muita turbulência, como a crise energética que estamos a viver agora, e não será possível manter a meta de 1.5 C”, entende Birol.


OMS junta-se à COP26 com relatório sobre benefícios da ação climática na saúde humana
E 45 milhões de profissionais de saúde assinam petição para que os líderes mundiais acelerem a resolução da crise. Só a poluição atmosférica provoca 7 milhões de mortes prematuras por ano.

A análise da fatia do bolo que falta para atingir a descarbonização em 2050 mostra que não é impossível, embora exija determinação. Até porque “40% dos cortes são na verdade lucrativos. Não há um motivo económico para estes cortes nas emissões não se fazerem”, justifica Laura Cozzy. A energia eólica e solar, estão também a tornar-se cada vez mais baratas. E é possível, com a tecnologia que já existe, evitar as atuais emissões de metano – um gás com efeito de estufa 34 vezes superior ao do dióxido de carbono - que está a escapar das explorações de gás. E, segundo Cozzy, é possível também aumentar grandemente a eficiência energética das habitações, com reduções enormes de consumo de energia. E há um pequeno intervalo que falta preencher, para se cumprir a meta de chegar a zero emissões em 2050, mas que será alcançado com as tecnologias emergentes.

Lista de desejos para a COP26 

Nos próximos dias, continua ainda a campanha diplomática de vários líderes para pressionarem os países a aumentar as suas ambições para a COP26 – desde John Kerry, enviado da administração norte-americana, a Frans Timmermans, da Comissão Europeia. E espera-se que os países que ainda não entregaram os seus compromissos de redução de emissões, o façam. Fatih Birol referiu que até ao arranque da reunião magna das Nações Unidas em Glasgow, a sua equipa continua “a falar com governos e muitos intervenientes, porque os compromissos atuais não chegam a 1.5, mas é possível aumentar muito mais nos próximos dias”. 

Outra das questões que espera ver resolvida é que o mundo rico aumente muito o contributo para os países em vias de desenvolvimento fazerem uma transição energética acelerada. “A grande fatia de investimento em energias limpas tem que vir dos países emergentes”, defende Birol. Atualmente, os 100 mil milhões de dólares que os países se comprometeram a apoiar anualmente para os países em vias de desenvolvimento (de acordo com o Acordo de Paris) já estão praticamente reunidos. Mas para Birol, “isso é apenas uma base. É preciso muito mais”. 

Há depois a necessidade de “os líderes mundiais e os investidores se juntarem para construir um futuro limpo”. É preciso deixar uma mensagem muito clara, salientou: “Quem investir em combustíveis fósseis vai perder dinheiro. Estamos numa má altura para financiar as velhas energias”. 

“Esta crise energética é por termos poucas renováveis” 

A culpa da atual crise energética, com preços da eletricidade a atingirem valores incomportáveis, entende Fatih Birol, não é por causa das energias renováveis: “Algumas pessoas estão a retratar esta crise, como a primeira crise de transição energética. É um grande erro de análise. O problema não é termos demasiada energia verde. É termos muito pouca. A energia limpa não é problema. Poderá ser a solução”. 


Bruxelas propõe redução de taxas da eletricidade e apoios estatais a famílias vulneráveis
A crise da falta de gás e subida da eletricidade deverá durar todo o inverno. A transição rápida para as renováveis é vista como forma de evitar “choques energéticos” no médio prazo. Entretanto, os países podem, por tempo limitado, pagar parte da fatura.

Os motivos da atual crise, segundo a IEA, são muito característicos das circunstâncias atuais. Em primeiro lugar, a retoma da economia, a atingir uns invulgares 6% do PIB mundial, que está a ser alimentado pelos combustíveis fósseis – que com o “aumento espetacular do carvão petróleo e gás” levam a que se assista este ano ao segundo maior aumento global de sempre das emissões globais. A acrescer à maior procura para a retoma da indústria, no pós confinamento, houve também fenómenos meteorológicos extremos em todo o mundo, que levaram à subida do aquecimento no inverno e da refrigeração nas casas, no verão. Também a seca, em países como o Brasil e a China, dependentes da energia hidroelétrica, fez com que aumentassem a importação de gás.

Finalmente, durante a pandemia não houve manutenção das instalações de extração de combustível, que foram adiadas para 2021. As operações de manutenção nas explorações do gás levaram a um aumento de 40% de cortes de fornecimento. O gás tornou-se assim uma mercadoria muito escassa, ditando os preços. Reconverter depressa para as renováveis é, segundo a IEA, uma das principais maneiras de evitar “a volatilidade dos mercados de energia” e as crises energéticas.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Cop26/Conferência do Clima
Diplomacia, liderar pelo exemplo, parceria com Bill Gates para tecnologias revolucionárias e com Joe Biden para cortar no metano. E ajudar os países africanos a rejeitarem o carvão.
Instabilidade dos mercados e especulação dos produtores está a fazer disparar o preço da eletricidade e eventuais cortes de abastecimento. A UE teme meses frios e de crise económica. A próxima cimeira europeia irá discutir o tema.