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O mundo fechado, aviões em terra, quais foram as medidas tomadas em cada país
Mundo 12 min. 20.03.2020

O mundo fechado, aviões em terra, quais foram as medidas tomadas em cada país

O mundo fechado, aviões em terra, quais foram as medidas tomadas em cada país

Foto: AFP
Mundo 12 min. 20.03.2020

O mundo fechado, aviões em terra, quais foram as medidas tomadas em cada país

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Numa semana, os vários países tomaram medidas extremas quanto à circulação de pessoas dentro e fora das fronteiras. Fazemos uma pequena ronda pelo novo mundo.

A 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) foi alertada para a existência de vários casos de pneumonias em Wuhan. Uma semana depois foi identificado um novo vírus. Dois meses e meio passados, o Covid-19 levou ao fecho de fronteiras e milhões de cidadãos em todo o mundo ficaram sujeitos a estados de emergência, fechados em isolamento e impedidos de viajar. As medidas são descritas como próprias de “tempos de guerra”. Por causa do ‘lockdown’, são agora 107 os países no mundo inteiro que fecharam todas as escolas, uma medida que está a deixar mais de 861 milhões de crianças em casa com ou sem ensino à distância. Até hoje, o Covid-19 provocou mais de 10.000 mortes no mundo inteiro.

Onde tudo começou

China

A 23 de janeiro, três cidades chinesas na província de Hubei entraram em isolamento, colocando cerca de 50 milhões de pessoas em casa. As saídas para fora da zona em quarentena foram barradas pela polícia, e todo o transporte aéreo e terrestre cancelado. Na altura havia 633 casos de casos detetados e em Wuhan, o epicentro da infeção, já tinham morrido 17 pessoas. Taiwan, Coreia do Sul e Tailândia eram os únicos países com casos reportados. O novo coronavírus estava adstrito ao Extremo Oriente e ao Sudeste asiático. Parecia longe. E as medidas pareciam exageradas.

A 10 de março, o último dos hospitais improvisados em Wuhan para tratar de doentes de Covid-19 fechou e a 11 de março, quando a situação no resto do mundo se agravava, alguns setores produtivos em Wuhan retomaram a atividade. A 18 de março, pela primeira vez, não houve novos casos de contágio dentro da China. O isolamento de Wuhan poderá ser levantado quando passarem 14 dias sem registo de casos na província de Hubei. O que poderá acontecer no início de abril.

Itália

Foi o primeiro país europeu a entrar em quarentena. Primeiro, a 8 de março, isolando as regiões do norte, como as populosas Lombardia, Piemonte e Veneto, e com grande eventos emblemáticos a serem cancelados, como a semana da moda de Milão. A 10 de março, o primeiro-ministro Giuseppe Conte declara o fecho das suas fronteiras para o dia seguinte, para conter o maior surto de casos depois da China e quando a mortalidade sobe em flecha, com 463 óbitos. Bérgamo, uma cidade a 60 km de Milão, é apelidada de Wuhan italiana e os vídeos de médicos e enfermeiros desesperados tornam-se virais. A alta propagação do vírus em Itália é explicada por epidemiologistas pela estrutura demográfica do país, com uma maior percentagem de idosos, e também por questões culturais, como a grande proximidade entre as gerações da mesma família. O medo de que a situação de Itália se repetisse nos restantes países do continente europeu levou às decisões de implementar estados de emergência, com confinamentos obrigatórios. Até ao fim do dia de ontem, a Itália registou 3.405 mortes confirmadas, ultrapassando a China. O primeiro ministro admite estender a quarentena até 3 de abril.

A resposta da Europa

Luxemburgo

A 17 de março, o governo luxemburguês decretou o estado de emergência, com medidas muito semelhantes às encetadas pelos outros estados europeus, como as de distanciamento social, confinamento doméstico, e saídas só para compras básicas, trabalho e por motivos de saúde. As medidas, no entanto, são tomadas por mais tempo: até junho. Só as lojas de comida e bancos podem permanecer abertos e o setor da construção civil será igualmente paralisado.

Portugal

O presidente Marcelo Rebelo de Sousa decretou o estado de emergência a partir de quinta-feira, e até dia 2 de abril, uma situação considerada excecional na democracia portuguesa. Ontem o primeiro-ministro português, António Costa, anunciou as medidas em vigor. O isolamento só é obrigatório para pessoas que estejam doentes e poderá haver atuação das forças de segurança para quem não respeite a ordem. Quanto aos cidadãos em geral, é pedido que fiquem em casa o máximo de tempo possível. “As pessoas têm cumprido tão bem, seria até um desrespeito pelos portugueses impor um quadro sancionatório”, disse Costa. Os estabelecimentos comerciais não essenciais fecham, o teletrabalho é recomendado. As fronteiras com a vizinha Espanha estão igualmente fechadas, bem como a atracagem de navios de cruzeiro no porto de Lisboa. Por decisão conjunta dos estados europeus, também Portugal não aceita desde dia 16 visitantes externos à União Europeia.

União Europeia

Na segunda-feira, 16 de março, e já depois de vários países europeus terem decretado medidas como o encerramento do comércio não essencial, de escolas e de viagens para zonas afetadas, os líderes reunidos durante a tarde tomaram uma decisão mais radical: fechar todas fronteiras externas da União Europeia durante 30 dias. Serão autorizadas apenas viagens prioritárias. É permitido o regresso a casa de cidadãos dos 27 Estados-membros, as viagens de pessoal de saúde ou de cientistas dedicados ao desenvolvimento de tratamento e cura, e de trabalhadores transfronteiriços. As fronteiras permanecem abertas ao trânsito de mercadorias, permitindo, segundo a Comissão Europeia, que o Mercado Único continue a funcionar e que não haja carência de bens essenciais. O fecho de fronteiras internas entre estados vizinhos está a ser decretado por alguns países caso a caso e à medida que a situação evolui.

No dia 13 de março, a Eslováquia, Malta e a República Checa anunciaram o fecho das fronteiras com os países vizinho. Foram os primeiros países da União Europeia a fazê-lo.

França

A partir de 17 de março, terça-feira, a França entrou em quarentena, com a obrigação de todos os cidadãos ficarem em casa, exceto para comprar mercadorias, deslocar-se para o trabalho, fazer exercício ou receber cuidados médicos. O Ministério do Interior anunciou que 100 mil polícias estariam na rua para garantir o cumprimento das restrições e que as pessoas que circulem devem ter certificados a atestar a exceção. O presidente Emannuel Macron anunciou que as fronteiras externas da França estavam fechadas, com exceção dos seus territórios ultramarinos, do Reino Unido e da Suíça. Mas na quarta-feira, dia 18, o primeiro-ministro Édouard Philippe avisou que se o vizinho Reino Unido não tomasse medidas drásticas semelhantes às europeias de conter a expansão do coronavírus, os viajantes do outro lado do Canal da Mancha podiam ser impedidos de entrar nas fronteiras de França.

Alemanha

A 16 de março, a Alemanha fechou as suas fronteiras com a França, Áustria e Suíça, mantendo, no entanto, o tráfego de mercadorias. Num anúncio televisivo no dia 11, a chanceler Angela Merkel previra que entre 60 a 70% da população alemã viesse a ser infetada.

Espanha

A 14 de março, Espanha anunciou um estado de emergência de 15 dias. Atualmente o país regista mais de 800 mortes, e mais de 17.400 casos. É o país europeu onde há o maior número de casos e fatalidades a seguir a Itália. Devido à situação, 90 países fecharam a fronteira a Espanha e 32 outros impõem medidas de quarentena a viajantes oriundos deste país ibérico.

.Reino Unido

Segunda-feira, dia 16, o primeiro-ministro Boris Johnson pediu aos cidadãos do Reino Unido para ficarem em casa sempre que possível e recomendou o fecho de toda a atividade não essencial. Foi igualmente pedido aos cidadãos com mãos de 70 anos que fiquem em casa nos próximos quatro meses. Na quarta-feira as instituições culturais de maior dimensão em Londres fecharam e o mayor da capital inglesa anunciou o encerramento de grande parte da linha de metro. Na conferência de quarta-feira, Boris Johnson preconizou testes massivos à população e distanciamento social. Disse que, se fosse necessário, poderia decretar medidas mais duras como o fecho de cidades e fronteiras. Uma a uma as universidades estão a encerrar. O Reino Unido mantém as fronteiras abertas, mas o tráfego nos aeroportos é muito limitado pela queda de movimento e pelos novos avisos ao público de evitar deslocações e contatos sociais.

Até esta semana, as recomendações do governo eram apenas de lavar as mãos com regularidade e isolamento em caso de sintomas. O Reino Unido continuava em funcionamento na altura em que quase toda a Europa já estava paralisada.

As fronteiras no mundo

África

Os países africanos têm em curso medidas diferentes em relação à entrada de estrangeiros. Desde dia 14, Marrocos tem em vigor uma proibição de viagens de 25 países, incluindo a China, Itália e Portugal. O Gana, desde 17 de março não aceita pessoas provenientes de países com mais de 200 casos de coronavírus. A África do Sul declarou catástrofe nacional e baniu viagens dos países mais afetados.

América do Norte

O pânico do coronavírus chegou esta semana à Casa Branca e aos Estados Unidos. Depois da fase de negação, em que cumprimentou multidões e garantiu que o coronavírus era uma invenção, o presidente Donald Trump anunciou o fecho das ligações aéreas entre os Estados Unidos e a Europa a partir das 0h00 de sábado, dia 14, e por um período de 30 dias. Na altura em que a OMS declarava a Europa como o novo epicentro da pandemia, Trump acusou as instâncias da União Europeia Europa de não terem sabido controlar a propagação do coronavírus.A medida de cancelamento do tráfego aéreo aplicava-se inicialmente aos países da área de Schengen – Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Estónia, Eslovénia, Eslováquia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Islândia, Itália, Letónia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Noruega, Polónia, Portugal, Suécia e Suíça. O Reino Unido e a Irlanda, por não pertencerem à área de livre circulação não estavam incluídos na proibição, mas acabaram por ser incluído desde o passado dia 16.

De momento, também os Estados Unidos estão em ‘lockdown’, com limitação de movimentos, após ser conhecido um relatório de que 2.2 milhões de pessoas podiam morrer de Covid-19, se não fossem tomadas medidas urgentes para travar a propagação do coronavírus.

As novas medidas tomadas pelo administração federal norte-americana impedem ajuntamentos de mais de 10 pessoas. Vários estados norte-americanos estão a fechar escolas e a promover o isolamento e o distanciamento social. No domingo, dia 15, Nova Iorque fechou todos os locais de entretenimento. 75% dos nova iorquinos estão a trabalhar em casa. A Califórnia entrou em ‘lockdown’ hoje.

O Canadá fechou as suas fronteiras dia 16, segunda-feira, a todos os estrangeiros não residentes. Estão excluídos os cidadãos dos Estados Unidos e familiares próximos de cidadãos canadianos. O anúncio da medida foi feito pelo primeiro-ministro Justin Trudeau, também ele em isolamento depois de a sua mulher ter contraído Covid-19. Desde o passado dia 18 apenas quatro aeroportos no Canadá aceitam voos internacionais.

América Latina

Pelo menos 10 países da América Central e do Sul impuseram restrições e fecharam fronteiras. A Venezuela ordenou no domingo uma quarentena coletiva, após já terem sido banidos os voos da Europa, Colômbia, Panamá e República Dominicana. Nicolas Maduro suspendeu igualmente as aulas e os eventos desportivos. O Peru, a Argentina e a Colômbia também já fecharam fronteiras a todos os cidadãos estrangeiros não residentes pelo menos durante duas semanas. O Chile anunciou que irá cancelar voos por tempo indeterminado.

Apesar de ter viajado para os Estados Unidos com uma comitiva em que 14 pessoas deram positivo ao teste de Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro esteve no domingo no meio de uma multidão a cumprimentar e a tirar selfies. Na quarta-feira, em manifestação no Rio de Janeiro e São Paulo, milhares pediram que Bolsonaro seja demitido, quando já havia 500 casos confirmados. Na sequência dos protestos o governo admitiu pedir ao congresso a declaração de estado de emergência.

Austrália

A 18 de março, o primeiro-ministro australiano declarou uma emergência nacional de biossegurança, restrições a viagens e um pedido a todos os australianos no estrangeiro que regressem a casa. O estado de emergência nacional de biossegurança pode durar 6 meses e, de acordo com a legislação, poderão ser decretadas medidas mais extremas. Os ajuntamentos de mais de 100 pessoas foram proibidos. No entanto, todas as escolas permanecem abertas.

Índia

A segunda nação mais populosa do mundo foi elogiada pela OMS pela sua ação rápida que está a garantir resultados. Desde o início do surto, a Índia começou a limitar grandes ajuntamentos e a medir temperaturas a populações em zonas de fronteira. Todos os passageiros internacionais foram submetidos nos aeroportos a um controle de saúde. Na passada quarta-feira, o governo de Narendra Modi decretou o fecho total do país ao exterior por um período de um mês, que terminará a 18 de Abril. Curiosamente, a Índia tinha até ontem apenas 184 casos e 4 mortes, não havendo ainda o que as autoridades de saúde chamam de transmissão na comunidade. O facto de a média etária da população ser baixa, ao contrário do que acontece em Itália, e na maioria dos países da Europa, pode ser um trunfo para as autoridades de saúde, quando as contaminações começarem a crescer exponencialmente.

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