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O luso-francês que foi detido como o pior assassino de França. A policia enganou-se
Mundo 6 min. 14.10.2019

O luso-francês que foi detido como o pior assassino de França. A policia enganou-se

Este é Xavier Dupont de Ligonnès desaparecido desde 2011, e com o qual o luso-descendente foi confundido.

O luso-francês que foi detido como o pior assassino de França. A policia enganou-se

Este é Xavier Dupont de Ligonnès desaparecido desde 2011, e com o qual o luso-descendente foi confundido.
AFP
Mundo 6 min. 14.10.2019

O luso-francês que foi detido como o pior assassino de França. A policia enganou-se

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Guy João, de 69 anos, foi preso no aeroporto, sendo confundido com o homem mais procurado no seu país. A notícia correu mundo. Só o exame de ADN repôs a verdade. Agora só quer esquecer o 'engano'.

Guy João, tem 69 anos, 1,85, é careca, luso-descendente, filho de pai português e até sexta-feira era um reformado, perfeitamente anónimo, que vive em Limay, numa vila em França. E passa umas temporadas em Glasgow, onde vive aquela que é sua mulher há quatro anos.

Até que, nesse dia à noite, ao aterrar no aeroporto de Glasgow, Escócia, para ir passar uns dias com Mary foi preso pela polícia.

A esquadra de polícia em Glasgow, Escócia onde Guy João ficou detido.
A esquadra de polícia em Glasgow, Escócia onde Guy João ficou detido.
AFP

A razão? Ele era o homem mais procurado de França. Xavier Dupont de Ligonnès, de 58 anos, desaparecido há oito anos é suspeito de ter assassinado a mulher e os quatro filhos, na sua casa em Nantes. Dias antes tinha sido visto a sair de um hotel com uma mala de guardar espingardas. Fugiu sem deixar rasto.

A diferença de idades e a calvice de Guy João não preocuparam os agentes policiais, pois Xavier Dupont de Ligonnès, poderá ter feito cirurgias plásticas para alterar radicalmente o seu aspeto. Esta tem sido uma das teorias em França.

Preso por denúncia anónima

Apesar de ainda receberem muitas pistas anónimas sobre este assassino, desta vez aquela que chegou à polícia pareceu muito plausível e decidiram levá-la a sério.

No aeroporto, Guy João negou vezes sem conta. Não era ele. O luso-descendente tem uma particularidade que logo o denuncia: não tem um dedo da mão, perdeu-o há anos.

Mesmo assim, foi levado sob o olhar incrédulo da namorada Mary que como sempre o vai buscar ao aeroporto.

Os polícias escoceses fizeram-lhe um primeiro exame, as impressões digitais. O resultado apontou para cinco pontos em comum, encontrados ali mesmo, a olho nu com as enviadas pela Interpol do assassino. Em geral, são precisos 12 pontos em comum e o exame tem de ser realizado através de aparelhos.

Jornalistas na rua onde mora Guy João, em Limay, sábado de manhã, ainda ele era tido como o assassino de Nantes.
Jornalistas na rua onde mora Guy João, em Limay, sábado de manhã, ainda ele era tido como o assassino de Nantes.
AFP

Mas a polícia escocesa achou que embora inconclusivo havia matéria para o deter, acreditando que se tratava do famoso assassino e Guy João ficou detido.

Deram a informação aos colegas franceses – que desde 2011 têm emitido um mandado de captura internacional – e estes entraram também em ação.

As buscas na casa de Guy João

Dois deles, da polícia técnica e científica partiram de imediato para Glasgow, e outra equipa foi a Limay, na comuna de Yvelines, realizar buscas a casa de Guy João, que vive sozinho.

Segundo contou o Journal du Dimanche, aquela era a casa dos pais de Guy João, ambos já falecidos e o luso-descendente sempre ali viveu. O pai era um legionário português, a mãe francesa. Há cerca de 10 anos atrás, depois da morte da mãe, ele comprou a parte da casa que era do seu irmão e irmã, ficando o único proprietário.

Mário Vieira conta a este jornal que Guy João era um “solteirão”, sem filhos, até que há quatro anos se apaixona por Mary. Casam-se e ele passa a viver entre Limay e Glasgow, onde também comprou uma residência para estar com a esposa. “A sogra tem 101 anos, está doente e ele vai ter com a Mary regularmente”.

A ficha de registo de Xavier Dupont de Ligonnès no clube de tiro em Nantes.
A ficha de registo de Xavier Dupont de Ligonnès no clube de tiro em Nantes.
AFP

Amigos garantiram que Guy não era o assassino

Este português contou mais tarde à agência France Press que ele e Guy são amigos “há 45 anos”, que Guy vai fazer 70 anos a 11 de abril e que ele não é o assassino. “Nem com cirurgia plástica é possível ser ele”, declarou o amigo.

Todos os vizinhos e amigos do luso-descendente que foram entrevistados garantiram que o reformado da fábrica Renault não era o assassino.

Mulher em choque

A casa de Guy João onde a polícia fez buscas.
A casa de Guy João onde a polícia fez buscas.
AFP

Jacques, um vizinho que jantou com ele na quinta-feira contou ao jornal francês Actu que era “impossível” o amigo ser Xavier.

Jacques foi dos primeiros a saber. Na sexta-feira à noite viu luzes na casa de Guy e sabia que ele não estava lá. Ligou para a mulher do amigo, e foi então que soube que ele tinha sido preso. “Uma história de loucos”, declarou ao Journal Dimanche.

Ao Actu recordou: “Conheço-o há 30 anos. Estive a falar com a sua mulher ao telefone, ela está em choque. Fui ao casamento deles na Escócia. Ele é uma pessoa banal. Ontem à noite, disse aos polícias que parassem as buscas, pois estão enganados”.

Ao lado da casa de Gy João vive António Torres, há 22 anos. “Ele não é nada parecido com Xavier Dupont de Ligonnès. Ele é grande, forte, um pouco careca, de óculos. Não vi nenhuma mudança de comportamento nele. Ele conheceu a mulher num resort de férias, ela tem quase a mesma idade dele”, contou este português que tal como os outros entrevistados negou que o amigo pudesse ser o assassino, isto numa altura em que os resultados definitivos ainda não tinham chegado.

Por esta altura, sexta à noite já a polícia francesa pedia “prudência” com as informações, pois ainda não havia resultados conclusivos, noticiava o Le Figaro.

24 horas depois foi libertado

Foi sábado pelas 18 horas, 24 horas depois de ter sido preso, que a polícia escocesa veio dar a notícia. Guy João tinha sido submetido a testes de ADN e estes demonstraram que, de facto, o luso-descendente não era o assassino.

24 horas depois Guy João saiu desta esquadra em liberdade. Os testes de ADN provaram que não era o homem procurado pela polícia.
24 horas depois Guy João saiu desta esquadra em liberdade. Os testes de ADN provaram que não era o homem procurado pela polícia.
AFP

O constrangimento das autoridades foi grande. Mesmo assim, o anúncio foi feito através de um lacónico comunicado declarando que “o resultado dos testes confirmou que o homem preso não é o homem acusado dos crimes em França. O homem foi libertado”.

À saída da esquadra da polícia escocesa onde tinha passado a noite e sido interrogado, um batalhão de jornalistas aguardava Guy João, que saiu recusando-se a falar.

"Deixem-me em paz!"

Um jornalista do Le Parisien telefonou-lhe, segundo conta o Le Figaro, para um comentário e o luso-descendente disse apenas: “Não tenho nada a dizer. Deixem-me em paz!”.

Para Guy João e para os amigos há agora um mistério que gostariam de ver resolvido. Quem fez a denúncia anónima? Quem disse à polícia escocesa que Guy João era o assassino procurado? Que ia embarcar naquele dia no aeroporto de Nantes para Glasgow? Quem e porquê?

Mário Vieira pensa que uma das pistas poderá ter a ver o passaporte de Guy que foi “roubado no aeroporto Charles-de-Gaulle, em Paris, em 2014”.

De acordo com o Journal du Dimanche Guy João só quer voltar à sua vida calma e anónima, e poderá agora avançar com um processo por tudo o que o fizeram passar.

Por 24 horas, este luso-descendente, de 69 anos, deixou de ser um simples cidadão comum para ser visto, no mundo inteiro, como um dos homens mais procurados de França, Xavier Dupont dede Ligonnès. A polícia acredita tratar-se do assassino frio e calculista que matou com tiros na cabeça, a mulher e quatro filhos, além dos cães e os enterrou no terraço da casa em Nantes.