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O erro cómico
Mundo 2 min. 23.02.2017 Do nosso arquivo online
OPINIÃO

O erro cómico

O snack-bar "Bouche à Oreille" em Bourges
OPINIÃO

O erro cómico

O snack-bar "Bouche à Oreille" em Bourges
Foto: AFP
Mundo 2 min. 23.02.2017 Do nosso arquivo online
OPINIÃO

O erro cómico

Qualquer dono de um restaurante sonha com um dia ser distinguido com uma estrela Michelin.

Qualquer dono de um restaurante sonha com um dia ser distinguido com uma estrela Michelin.

Assim, quando a senhora Véronique Jacquet, Véro para os amigos e clientes habituais, recebeu a notícia de que a sua humilde ’brasserie’ de beira de estrada tinha sido distinguida com o cobiçado galardão, talvez tivesse a esperança que este fosse o seu próprio conto de fadas. Mas como poderia o seu restaurante com toalhas de plástico, uma clientela habitual de operários, e um prato do dia que custa 12,5 euros (inclui entrada, sobremesa e vinho) feito por um cozinheiro a tempo parcial ser considerado tão especial?

Era apenas um erro humano. Na sua edição 2017, que acaba de ser revelada, o guia Michelin queria distinguir um seu velho conhecido: o restaurante Bouche à l’Oreille, nos arredores sul de Paris. Ali, o menu custa 48 euros (taça de champanhe, flan de lagosta, cabeça de vitela e peras com chocolate), a decoração é requintada, o chef premiado. Quem apareceu destacado, no entanto, foi um bar homónimo a 200 km de distância; por coincidência, as duas ruas têm também o mesmo nome (Chapelle). Ambos os restaurantes foram inundados de telefonemas de clientes surpreendidos, primeiro, e de tudo o que era jornalista, depois; o dono do restaurante caro convidou os seus congéneres para almoçar.

A história é engraçada, tem vários ingredientes apelativos, e todos ficaram a ganhar com a publicidade gratuita. Nada justifica, no entanto, a tempestade mediática que se criou, e que nos dá algumas lições interessantes. Desde logo: estamos todos tão cansados de ouvir péssimas notícias do mundo, que um pouco de alívio cómico é consumido avidamente. E é também irónico que restaurantes com o nome de “boca-a-boca” dependam, afinal, de uma “bíblia” para serem conhecidos. Afinal, a deferência que prestamos a “guias”, neste caso uma relíquia do passado como o Michelin, com a credibilidade afetada por erros como este, que indiciam um conhecimento superficial do local, está totalmente deslocada. O próprio sistema é furado: falamos de avaliações opacas, sem controlo independente, feitas por poucas pessoas, que não conhecemos (mas que os restaurantes conhecem…), e que muitas vezes se repetem ano após ano, premiando sempre os mesmos locais de comida pouco genuína e onde uma refeição custa o equivalente a um salário na Roménia. Talvez o erro tenha sido, afinal, freudiano: de certeza que no snack-bar se come melhor.

Hugo Guedes

Talvez o erro tenha sido, afinal, freudiano: de certeza que no snack-bar de Bourges se come melhor do que o restaurante cinco estrelas de Paris.
Talvez o erro tenha sido, afinal, freudiano: de certeza que no snack-bar de Bourges se come melhor do que o restaurante cinco estrelas de Paris.


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